Seu vizinho

1
Katine Walmrath · Porto Alegre, RS
15/2/2007 · 71 · 9
 

Lembro do meu vizinho do jeito que chegou aqui em casa naquela noite. Tinha observado indefinidamente pela janela seu modo terno de fazer as coisas. Da minha área dos fundos o quarto dele. Era sempre uma festa ver. E pensei que nunca chegaria o tempo de fazermos qualquer coisa juntos. Porque errávamos o elevador. Por pouco. Eu subia quando ele estava descendo. Eu chegava quando ele saía. E o contrário também. Em quase dois anos, esbarramos poucas vezes. O suficiente, confesso, pra eu conhecer o verde dos olhos dele. E alguns traços mais que me marcaram. O jeito de sorrir. Um quê de mistério. Aquela vez, por um único instante, nossos olhares se cruzaram. Foi quando nos conhecemos. E fiquei três vezes mais vizinha. Até procurar a luz na janela fiz. Sim, porque no meu quarto, em sonho, casamos, tivemos vários filhos e percorremos a serra gaúcha num carrinho velho. Engraçado que as crianças eram ruivas. Não sei a quem puxaram. Às minhas tintas, quem sabe? A imaginação é tanta. E ele ali, quase ao alcance da mão. Mas nunca me faltou açúcar, uma xícara de farinha, nunca esqueci a chave por dentro da porta, nunca fico indefesa, precisando da ajuda de um vizinho forte e por acaso belo e selvagem. Selvagem? Muita literatura ruim. Mas eu nunca. Até que. Até que ele. Semana passada esteve aqui. Simplesmente. Tínhamos acertado o elevador naquela manhã. Os cabelos molhados. Xampu e sono se confundindo. De noite veio aqui. Eram umas nove. Pensei que fosse a síndica com a conta do condomínio. Era ele. Não queria açúcar nem farinha, nem tinha deixado a chave por dentro da porta, me explicou que estava tendo problemas com o vizinho de cima, que fazia muito barulho, queria saber se eu tinha notado, gostaria que reclamássemos juntos. Intimamente, exultei. No andar de cima moram uns velhinhos muito simpáticos e silenciosos. Imaginei a Dona Nair curtindo o som que ele me descrevia e sorri, bem simpática. A voz combina com os olhos. Isso é bom sinal. Quando me disse o nome da mãe dele, perguntei se queria entrar. Lá pelo segundo café, começou a me contar uma história estranha, sobre índios, é antropólogo, sobre nossos antepassados, sobre ruínas, coisas assim. Fiz pose de interessada, e estava, mas foi me dando um sono tão grande. Os olhos dele foram transbordando, o mar derramando em mim. Eu pensei era isso que tinha vindo fazer aqui? E os sinos? Adormeci. Acordei ele brincando com a gata nas almofadas. Então amanhã reclamaremos dos vizinhos, combinamos. E agora tem vindo todas as noites. Estamos estabelecendo algumas estratégias. Não queremos precipitar nada. Os velhinhos podem se incomodar. Têm o direito de curtir o roquinho lá deles. De minha parte tenho ouvido histórias fantásticas. E dormido muito bem.

compartilhe



informações

Autoria
Katine Walmrath
Downloads
253 downloads

comentários feed

+ comentar
José
 

É, gostei!...
Agradecido, José

José · Criciúma, SC 12/2/2007 11:24
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Cida Almeida
 

Menina, sua prosa tem gosto de quero mais. Cadê o livro?

Cida Almeida · Goiânia, GO 12/2/2007 15:27
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Katine Walmrath
 

Valeu, José!

Delícia que gosta, Cida.
Estou aprendendo, exercitando.
Um dia chego lá.
Abraços.

Katine Walmrath · Porto Alegre, RS 12/2/2007 16:04
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
jjLeandro
 

Olhaí, hem? Viu como aqui é bom? Chegou e mandou ver. Gostei de suas crônicas do cotidiano, fresquinhas, com dose de humor como compete à vida.
Um grande abraço.

jjLeandro · Araguaína, TO 12/2/2007 21:13
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Katine Walmrath
 

Sim, Leandro, eu tinha me esquecido como essa troca do Overmundo enriquece a gente.
Mil vezes obrigada por me lembrar.
Abração!

Katine Walmrath · Porto Alegre, RS 13/2/2007 08:22
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Haragano
 

Coisa boa, me levou no embalo. Você não está aprendendo, sua prosa é madura e envolvente

Haragano · Brasília, DF 14/2/2007 23:07
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Katine Walmrath
 

Muitíssimo obrigada, Haragano.
Envaidecida.
Razão para continuar.
Abraço.

Katine Walmrath · Porto Alegre, RS 15/2/2007 10:01
sua opinião: subir
Nivaldo Lemos
 

Katine Walmrath
nome tão complicado para prosa tão simples. E bela. E linda. E maravilhosa. E sensual. E enxuta. E genial. E poderia desfiar um milhão de adjetivos que não seriam suficientes para classificar seu texto. Aliás, li outros menores, de algiberira, e também amei. Fico pensando em escrever sobre os autores over, como você, pois a qualidade dos textos é impressionante. Ao menos grande parte deles. Aprendo muito e quem sabe até consiga chegar perto. O Sul em especial, acho que por Veríssimos e minuanos ou pelo mate (arhg!) amargo do chimarraão, não sei. Mas o Sul tem parido escritores da melhor qualidade. Você e o Arlindo, por exemplo! Estou embevecido e maravilhado com tanta coisa boa. Desculpe a efusividade, o perdularismo dos adjetivos, prometo mais à frente ler com mais vagar e comentar com mais objetividade seus textos. Obrigado por escrever. E parabéns.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 15/2/2007 12:52
sua opinião: subir
Katine Walmrath
 

Estou corada até os ossos.
Não sei o que fazer com isso.
Acabo de ler "O cheiro doce de maçã verde", Nivaldo.
E estou levemente horrorizada.
Tu, que escreves tão bem, dizer estas coisas sobre meu texto.
Que responsabilidade!
Vou ali trabalhar um pouco mais.
Muito obrigada.

Katine Walmrath · Porto Alegre, RS 15/2/2007 14:08
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

baixar
doc, 21 Kb

veja também

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados