Eu grito porque o silêncio me incomoda.
Eu grito pra acordar a vizinhança. Eu grito pra fazer a velha gorda que caminha na calçada olhar pra cima. Eu grito pra deixar a meninada com medo de sair na rua, eu grito pra deixar o velho guarda com pânico do obscuro, eu grito pra deixar o carinha que amassa na esquina a namorada, de cabelo espichadinho, com o pau endurecido.
Eu grito porque não tenho voz. Eu grito porque eu calo para quem merecia uma porrada. Eu grito pela morte do meu gato, eu grito pela sorte do vagabundo que achou no lixo uma coxinha pela metade, eu grito pelo medo que o porrete causa na pele fria do mercedes prateado, eu grito pra abafar o barulho do avião, eu grito pra jogar qualquer muro em algum chão, eu grito pra enganar a desconfiança, eu grito pra apressar qualquer mudança.
Eu grito porque eu grito. Eu grito porque não aprendi a não gritar. Eu grito de tesão. Eu grito de alegria. Eu grito de pavor. Eu grito de horror. Eu grito por amor. Eu grito de saudade. Eu grito de felicidade. Eu grito com a boca cheia de lágrimas. Eu grito com a boca seca de vontade. Eu grito com a mão espalmada pra ampliar o grito. Eu grito com a camisa aberta no peito pra enfurecer o grito. Eu grito com o olho esbugalhado pra causar atrito. Eu grito porque, se eu não grito, eu não existo. Eu grito porque gosto. Eu grito porque quero. Eu grito porque sonho. Eu grito porque desisto. Eu grito porque insisto. Eu grito porque ninguém me ouve. Eu grito porque ninguém me vê. Eu grito porque quero continuar no escuro. Eu grito de vergonha. Eu grito por exibicionismo. Eu grito por hipocrisia. E eu grito por detestar a hipocrisia. Eu grito por idolatria. Eu grito por necessidade. Eu grito por inconsequência. Eu grito de orgulho. Eu grito por arrogância. Eu grito só de implicância. Eu grito porque gritando eu não vomito.
Eu grito porque o silêncio me machuca. Porque a noite me aprisiona. Porque o sol me dói a vista. Porque a sorte me abandona. Porque a morte me ronda o quarto. Porque a vida não se mede com uma régua. Porque não encontro a porta aberta. Porque não suporto nenhuma perda. Porque não acredito na vida eterna. Porque quero me aconchegar no peito dela. Porque quero amarrar poesia nas estrelas. Porque quero avacalhar as letras do alfabeto. Porque quero enterrar as mentes obtusas. Porque quero destruir as meias-verdades. Porque quero esburacar o sonho alheio. Porque quero estraçalhar quem me machuca.
Eu grito, porque eu grito. Eu grito porque o silêncio me incomoda. Eu grito pra fazer barulho. Eu grito.
Me beija. Que eu calo.
Aprendi com o Inácio de Loyola Brandão que se você tem um final, tem uma história. Tua história estava me incomodando até que o final a arremetou de forma brilhante.
Marcos Pontes · Eunápolis, BA 28/5/2008 16:00
Legal. Haja beijo para calar tanto grito.
Um cala-grito pra você.
Damos o último grito quando uma mão nos afaga...um beijo
Poedria ser eterno esse momento...
Bárbaro!
Gitaste freneticamente no texto e basta um beijo para calar? Adorei.risos. votado
Cristiano Melo · Brasília, DF 31/5/2008 16:03Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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