SIDARTA TATU

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Heraldo · Curitiba, PR
29/1/2009 · 111 · 7
 

Ha muitos anos atrás, o homem que está escrevendo isto era um menino.
O menino voltou para casa no final da tarde depois de ter jogado futebol e nadado no rio com os outros meninos.
Deixou as sandálias havaianas no único degrau da escada da varanda, e entrou.
Sua mãe, enquanto foi destapar uma panela no fogão a lenha, deu a ordem para tomar banho e fazer a tarefa da escola, antes da janta.
Depois do banho pegou o pacote de plástico de açúcar cristal que usava para guardar os cadernos e lápis da escola e foi sentar no chão da varanda.
A casa era em um lugar alto, quase no topo de uma colina, e da varanda podia ver o rio onde tinha nadado e o gramado do potreiro dos cavalos, ao lado do rio, onde tinha jogado futebol com os outros meninos.
Enquanto folheava o caderno procurando pela tarefa, escutou um sabiá cantar.
Lembrou das apostas que fazia com sua irmãzinha e riu. Na hora de sol mais forte da tarde os dois se sentavam na sombra das árvores do pomar e ficavam escutando os sabiás, apostando em qual iria cantar por mais tempo.
Depois de achar a pagina do caderno com a tarefa, teve um daqueles pensamentos bobos que as pessoas tem quando não estão pensando em nada. Pensou “só vou começar a fazer a tarefa quando esse sabiá parar de cantar”.
Minutos se passaram e o sabiá não parou de cantar, mas o menino continuava escutando.
Se alguém o estivesse filmando ou fotografando, teria visto um menino, usando só um velho calção, sentado no chão de uma varanda, iluminado pela luz laranja-vermelho do sol que está morrendo na sua frente.
E se esse fotográfo-cinegrafista tivesse se demorado alguns minutos, teria continuado a ver a mesma cena, pois o sabiá não parava de cantar.
O menino então teve um flash, uma iluminação, uma visão: via na sua frente não o rio, tingido de vermelho, correndo entre os campos verdes, entre as arvores, mas sim algo mais, algo maior, algo com outro significado.
Viu a perfeição da paisagem.
Viu que naquela cena, tudo era harmonioso, amigável, acolhedor, protetor e acima de tudo, perfeito. Um quadro que não admitia retoques.
E o sabia continuava cantando.
Lá de dentro da casa chegavam os ruídos tão familiares – seu pai tomando banho, sua mãe mexendo na pia e no fogão, sua irmãzinha cantando uma cantiga de ninar para as bonecas.
Enquanto o tempo passava, o sol ficava cada vez mais vermelho, o sabiá mais empolgado com seu canto, e o menino se sentia cada vez mais parte da paisagem. Sentindo-se presente em cada coisa: nos raios do sol que batiam no rio onde nadou, nas raízes da grama onde jogou futebol, no velho pé de gabiroba onde sempre trepava, nos sons e nos cheiros que vinham de dentro da casa. E no canto do sabiá.
Imaginou que estava diluído em tudo, presente em todos os lugares ao mesmo tempo. Cada molécula, cada átomo do seu corpo espalhado entre as arvores,os campos, o rio, sua casa, tudo. Pelo menos tudo de que tinha consciência. Seu mundinho.
O sol começou a se por, deixando as cores que minutos atrás eram tão nítidas, cada vez mais foscas, mais escuras. O transe acabava lentamente no lusco-fusco.
E então o sabiá parou de cantar. O transe acabou.
Já estava escuro, com a varanda iluminada só pela luz que saia pela porta e janelas da casa. Não se via o rio, não se via os campos, não se via a gabirobeira. Na noite não se via nada além da luz da casa. O menino sentiu um imenso vazio, sentiu a perda, o desaparecimento permanente de algo que antes estava ali. Se sentiu fraco, esvaziado, incapaz, pequeno.
E chorou.

Sobre a obra

Um menino caboclo conhece o nirvana.

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Ivette G.M.
 

Você quer melhor lição de casa do que essa? O menino usou todos os seus sentidos, sentimentos, êxtase, talvez só encontrável em uma poesia, no livro de português.
Bela crônica,Heraldo.
Ivette G M

Ivette G.M. · Cotia, SP 26/1/2009 17:07
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Ivette G.M.
 

Iniciei a votação.
Ivette G M

Ivette G.M. · Cotia, SP 27/1/2009 20:28
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raphaelreys
 

Exelente narrativa Heraldo! Conheceu o Nirvana e a plenitude! Meu voto e meus parabéns!

raphaelreys · Montes Claros, MG 28/1/2009 13:43
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

ótimo texto.votado.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 29/1/2009 14:30
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nina araújo
 

Muito bom Heraldo! Parabéns,um texto muito rico escrito com todo esmero.Eu vi colorido este menino...
beijos poéticos,

nina araújo · Rio de Janeiro, RJ 29/1/2009 15:13
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Isabel Furini
 

Olá, o menino-Herlado-Siddharta teve seu momento nirvánico. Parabéns!

Isabel Furini · Curitiba, PR 29/1/2009 15:31
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AnaLu Fernandes
 

Não consegui parar de ler, foi como o menino esperando o sabiá parar de cantar pra fazer a lição de casa.
Votadíssimo!
Bjs...Mil...

AnaLu Fernandes · Rio de Janeiro, RJ 29/1/2009 18:05
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