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SIGO EM FRENTE
Noelio Mello · Belém (PA) · 6/8/2008 20:39 · 148 votos · 18 comentários ·  
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overponto
Talvez, sei lá, por insistir em sofrer pelo passado. Talvez pelo presente angustiante, cansativo, estou convivendo, na rotina dos dias, com imenso medo do tempo futuro.

Tento pensar nos adjetivos corretos para explicar este meu novo estado de espírito e não os encontro. Busco na fragilidade do homem, insaciável devoradora de sonhos, a razão desse desânimo que desacelera o meu caminhar, pois, cansa-me os olhos ver a mesma paisagem pela manhã. Atormenta-me a alma ver as minhas próprias cicatrizes. Os campos e os bosques já não me envolvem com seus perfumes matinais. O entardecer já me parece monótono, angustiante, melancólico.

Não vejo o luar, espalhado pelas ruas e calçadas, com o mesmo romantismo de antes. Os amigos já não parecem tão amigos. Os inimigos, se eu os tiver, tornam-se absolutamente insignificantes. Absurdamente o tempo parece querer ser o meu dono. O proprietário das minhas horas. O senhor dos meus dias.

Descubro, agora, que os planos com que sonhei e que foram cerceados em uma emboscada do destino, são os reais motivos dessa estranha sensação de medo da soberania do tempo, do amanhã. Quase tudo que planejei está no futuro e o tempo infalível, traiçoeiro, não me permitirá realizar.

Muitos dos meus desejos moram no amanhã e não mais poderei sácia-los. Como é madrasta a vida terrena tendo o tempo como a maior de todas as mentiras, sempre escondido atrás de suas máscaras e disfarces que usa nos seus passos silenciosos.

Fico pensando como é devastador o poder do tempo, poder invisível mas evidente, qual seja o de ralar os mortais, transformando-os num resto vacilante de homem ou de mulher. É um terrível o tempo. Ensina, física e moralmente, toda a humanidade, embora somente uma pequena parte dos alunos chegue a aprender as suas lições de mestre universal e consagrado em todos os lugares do mundo. A grande maioria zomba do tempo, não se apercebe da sua presença constante, e, muitos imaginam até que podem vencê-lo.

E o velho tempo que ressurge a cada segundo, a cada terceiro, sempre novo para tornar velhos os jovens, não modifica a sua ronda muda, silenciosa, envolvente, inexorável. Amanhece com o sol , anoitece com a escuridão, caminha dentro das tempestade e das noites enluaradas, mas não dorme nunca, não repousa nunca, não adoece e não morre nunca.

Sem principio, sem fim, sem medida, como disse o poeta, o tempo passa e repassa, deixando impresso no seu rastro os saldos precários dos homens, dos animais, das pedras, das plantas, de tudo. Sua passagem, a todo momento, tem ligação com os cemitérios, com o esquecimento, com o desmoronamento das fortalezas, dos prédios, dos muros de concreto. Ao seu impacto nada resiste, cedendo ao dia a dia devastador, assim como é inútil a resistência da pedra ao vai e vem constante da água.

Abrindo uma ferida aqui, aliviando uma chaga ali, o tempo, sempre prodigioso passa calado mas, apagando do quadro da vida até os altos relevos. Dissipa vaidades, modifica fisionomias, revela falsas personalidades, torna pobre o rico, mata e sepulta o homem e, mais do que isto, muitas vezes o envolve no esquecimento total.

Tenho, todavia, a convicção que somente a fé divina, tão velha como ele, resiste ao tempo e me dá tempo para repensar a minha vida, meus medos e minhas saudades. Graças a Deus, sempre existirão novos amanheceres e que me dizem que posso e devo seguir em frente. Eu sigo, porque sei que " Há tempo de sorrir e tempo de chorar". Há um tempo dos homens e um tempo de Deus. Ando nos dois.
sobre a obra
Só Deus em sua bondade pode amenizar as saudades que sentimos de alguém que partiu para sempre. Somente ele pode riscar no solo árido um novo caminho para seguirmos em frente.
Da coletânea de crônicas sobre a VIDA E O TEMPO.


tags: Belém PA textos-nao-ficcao
 
canto_esquerdo informações canto_direito
Autoria   Noélio A. de Mello
noeliomello@ig.com.br
Data   06/8/2008
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meu migo, hoje me atrevo a deixar um comentário pessoal.
Sei que ao escrevermos um texto colocamos um pouco de nós.
esse especialmente me tocou profundamente,pq vi um grande sofrimento.
O que posso dizer para acalentar teu coração?
Olha apenas o momento presente, não o presente como se fosse um futuro.
pq o futuro é como plantarmos um carvalho.
Eu me deixo levar pelas palavras as sinto tão intensamente em meu coração.
deixo meu imenso carinho e ofereço meu ombro amigo e minhas mãos. Sempre quando delas necessitar.
Um beijo em seu belo coração.
clara arruda · Rio de Janeiro (RJ) · 4/8/2008 18:57 
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Noelio,
Belo e abrangente texto. Esse tempo inexorável que passa e não passa...
Sim, porque somos nós a passar pelo tempo ele sempre fica! Nós passamos e vamos mas ele fica, sorrindo feito bobo, de todo o tempo que tivemos e não soubemos aproveitá-lo.

bjsssss

Doroni Hilgenberg · Manaus (AM) · 4/8/2008 19:20 
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Noélio, é gratificante ler o seu pensamento. Quero ler um dia - em papel e tinta - A vida e o tempo. Bjos.
graça grauna · Jaboatão dos Guararapes (PE) · 5/8/2008 09:23 
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Noelio Mello · Belém (PA
SIGO EM FRENTE

Professor Guerreiro da Paz. Mestre da Poesia em tudo.

....Graças a Deus, sempre existirão novos amanheceres e que me dizem que posso e devo seguir em frente. Eu sigo, porque sei que " Há tempo de sorrir e tempo de chorar". Há um tempo dos homens e um tempo de Deus. Ando nos dois.

Gostei muito do seu Trabalho.
Passa o sentimento maior do Mundo.
Parabéns
Ja ouvi umas palavras atribuidas a Jesus, acho que foi num filme.
..........A Vida é morte. a Morte que é a passagem para a verdadeira Vida.
O Mestre conhece ou já ouviu falar. Se Souber a fonte me informe.
Abracáo Amigo
azuirfilho · Campinas (SP) · 6/8/2008 17:40 
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Meus votos com todo carinho no teu maravilhoso trabalho querido poeta!

beijo no coração!
celina vasques · Manaus (AM) · 6/8/2008 18:27 
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linda imagem interessante e bem feito.votado.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca (SP) · 6/8/2008 18:53 
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Estas "ondulacoes" fazem parte da vida, a questao e que nunca nos acostumamos com elas... Espere a onda passar e depois vera que vivemos ao sabor delas. Abracos amigo parceiro,
victorvapf · Belo Horizonte (MG) · 6/8/2008 19:50 
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Meu amigo Noelio, toda vez que te leio me emociono com os teus escritos e este Sigo Em Frente também me deu o mesmo prazer que senti nos outros contos, meu amigo. Meus sinceros aplausos e abraços pelo magnífico texto, amigo.
Carlos Magno.
carlos magno · Rio de Janeiro (RJ) · 6/8/2008 20:33 
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Meu amado,publico seu lamento,pq tb é meu.
Tiua dor é minha.
E vou seguir sempre em frente,pq segurarei sempre sua mão amiga.
Beijos em seu belo coração.
clara arruda · Rio de Janeiro (RJ) · 6/8/2008 20:41 
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Olá Noelio, meu caro amigo!
Depois de uma breve ausencia, retorno para ler este soluço d'alma, pois com certeza transbordou a saudade!
Primor de reflexão!
"Lembra-te que o tempo é um jogador atento
Que vence, sem furtar, toda jogada"
(Charles Baudelaire)
Saudade não mata, mas sepulta um coração em vida, sei disso!
Abração amigo!
brigitte · Goiânia (GO) · 6/8/2008 21:48 
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Uma pungente reflexão sobre o declínio no tempo, a inevitável decadência do envelhecimento, amenizada somente pela sabedoria, que nos é dada a certa altura do percurso, como compensação divina. Parabéns, Noélio, você atingiu a sabedoria, não precisa de mais nada.
Um abraço do cordelista
Guilherme de Faria · São Paulo (SP) · 7/8/2008 00:35 
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Quanta melancolia, meu amigo. Contagiou-me, pois me fez percerber todas essas verdades de que falou no seu maravilhoso texto, tão filosófico, tão angustiante, tão verdadeiro. É um poema cheio de um lirismo fúnebre, triste, insatisfeito, sombrio... como o é a vida, na sua mais crua realidade.
Tenho um poema sobre o tempo, que, no fundo, diz mais ou menos isso de que trata o seu texto.
Parabéns Noélio, há muito não lia um texto tão profundo e tão cruel ao mesmo tempo e, de cuja crueldade, ninguém escapa.
Abraços

Saavedra Valentim · Vitória (ES) · 7/8/2008 22:01 
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Querido Noelio:

Ah! O tempo ... Implacável tempo ... Senhor da razão ... Alegrias, tristezas ... São tantas emoções que transbordam a qualquer compreensão. Saber lidar e compreender cada fase e crer. Crer que o divino habita o teu Ser.

Beijos_Meus*
*

Lili_Beth* · Rio de Janeiro (RJ) · 8/8/2008 11:28 
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Meu lindo Noélio!!

Tempo,tempo,tempo....tambor de todos o ritmos... é ele que dá a cadência ao nosso 'destino' ,mas tbém nós podemos alterar e fazer o nosso próprio tempo...'quem sabe faz a hora não espera acontecer...'
Contudo, às vezes, parece tão difícil isso....bate aquele desânimo total....e aí o tempo realmente nos arrasta em sua forte correnteza...
Só a fé ultrapassa a barreira do tempo e nos dá a eternidade...portanto:
Fé em Deus e pé na tábua,Noélio,sempre!!

Lindo texto...como sempre!
Parabéns,meu lindo!

um beijinho azulcarinhoso...
Blue
Raiblue · Salvador (BA) · 8/8/2008 14:18 
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Sigo em frente é uma lição de que a existência, cansa, causa dor, contentamento e principalmente dúvidas eternas dúvidas. Eternas interrogações. Parabéns. Aprovado
Coluna do Domingos · Aurora (CE) · 8/8/2008 14:42 
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Meu querido, o tempo é a nossa constante dor, Dâmocles a nos ameaçar, inelutável. Reféns dele, que somos e sabemos que somos, mesmo assim, é preciso nos rebelar.
A rebelião ao tempo é muito pessoal e pode se vestir do vermelho da negação ou do azul da aceitação. Ambas são tentativas de ignorá-lo. E são, no entanto, as únicas defesas que temos.
Como você disse, nestas tristíssimas palavras, o tempo passa, "abrindo uma ferida aqui, aliviando uma chaga ali".

Refletindo sobre estas suas palavras, pensei que o tempo pode ser uma bênção por nos permitir a ilusão do esquecimento ou da dor, que sempre passam.
Se não fora o tempo e seu constante caminhar, o que seria de nós, fixados em alguma circunstância, alegre ou triste? Suportaríamos a eterna permanência, mesmo da alegria?
Não, creio que não. Sem ele, nem pedra seríamos.

Fomos feitos assim, reféns do tempo e, dele, devedores, porque ele nos permite a mudança, o avançar...

De toda dor, meu anjo, há um tempo de se curar. Dê lugar a este tempo. Rebele-se, por favor.

beijos
Saramar · Goiânia (GO) · 13/8/2008 02:30 
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Lindo!
Tati MOTTA · Belo Horizonte (MG) · 13/8/2008 08:09 
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Que bela surpresa este texto e que riqueza emocional encontro em sua obra! Você soube exprimir tudo que sentimos e muitas vezes não conseguimos. Um grande abraço.
Cristina Guimarães · Petrópolis (RJ) · 2/9/2008 09:53 
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