Oliveira decidiu morrer. Era o único jeito. Já tinha matutado o suficiente. Pensara em todas as alternativas. Só restara esta. A decisão final ocorreu logo após abrir a caixa do correio e olhar a conta de gás. Simplesmente impagável. “Como pode?! Meu vizinho de porta gasta um quarto disso”. Somando todas as contas chamadas de tarifas públicas, já passava de mil pratas. “Não tenho como pagar. Estou no vermelho escuro na conta especial. Não recebo nenhuma boa notícia.” Imaginava abrir a caixa de correio e receber: “Você foi contemplado; você ganhou; receba 10 mil” que nem cartinhas do Banco Imobiliário. “Neste meu caso, minhas cartas são sempre aquelas de revés.” A decisão de morrer, portanto, era a cartada final. Seu seguro de vida estava em dia – que milagre – e as únicas cláusulas que impediriam sua esposa de resgatar o prêmio seriam suicídio ou enfarte. Esta última fora uma exigência da seguradora após exames e precedentes familiares. Qualquer outro tipo de morte valeria. Portanto, Oliveira estava valendo mais morto do que vivo.
Pensou primeiro em contratar um assassino profissional, porém desistiu diante do custo elevado do mercado; seu assassinato sairia perto de 25% do valor final do seguro. “Assim minha família já começaria vida nova endividada”. Depois achou melhor se jogar da Ponte Rio-Niterói. “Não, vão perceber que foi suicídio”. Pensou em mais de dez planos. Todos horrorosos. Cair da janela, se perder na Floresta, despencar de uma escalada na montanha, briga de bar..... êpa! “É isso” – pensou. “Vou morrer de apanhar”. E tomou sua decisão: “Vou assistir ao Boca Junior X Fluminense vestido de tricolor dentro da torcida do Boca lá na Bombonera. É só chegar gritando Nense! Nense! Os torcedores fanáticos vão me encher de porrada”. P’ra vocês verem o que é o desespero.
Ele reuniu os irmãos e comunicou sua decisão deixando claro que era irreversível. Os irmãos, já vacinados, não se espantaram muito ou, pelo menos, não se surpreenderam. Oliveira, na juventude, já fizera das suas. Os irmãos já tinham presenciado algumas encenações marcantes do caçula. Aos 15 anos fugiu de casa e foi encontrado algumas horas depois na casa da avó. Mais tarde, aos 17, passou a noite no telhado do prédio onde morava por conta de uma traição da namorada. Ganhou uma pneumonia e perdeu de vez a garota. Dois anos depois largou a faculdade para tornar-se Hare Krishna. Retornou para os braços de Jesus após ver sua mesada cortada. Além do mais “não se pode confiar num cara que bebe Coca Zero”, comentou o irmão cachaceiro mais velho. Por essas e por outras estórias, ninguém levou a menor fé em “sua morte”. Cada vez mais decidido – idéia reforçada pela nova conta do celular, Oliveira achou melhor avisar também à dedicada esposa. Afinal, ela deveria saber agir com as apólices e conhecer todos os procedimentos relativos à premiação. Dramático, ainda pensou: “Premiação. Sim, minha morte vai ser premiada.”
Eneida ouviu a notícia aos prantos. Chorava e se desesperava a cada palavra pronunciada pelo marido. Só calou quando ouviu o valor do resgate. Parou de esboçar reação imediatamente. Havia algum tempo que reclamava da falta de roupas. Precisava de sapatos novos, bolsas novas. As amigas sempre estavam à sua frente na moda e nas novidades. Seu olhar perdido fez Oliveira supor que ela já se imaginava indo às compras. A única coisa que falou após vários minutos foi: “De quanto é mesmo o prêmio, amor?” Mais decidido do que nunca, oliveira estourou o último cartão de crédito e partiu para sua derradeira aventura. “E dá-lhe Nense, dá-lhe Nense, olê, olê, olê”. E rumou para Buenos Aires.
A cidade respirava a decisão. Nas ruas só se viam camisas do Boca. Oliveira gostou do que viu. “O clima está propício. É hoje que eu morro de porrada e faço minha família feliz”. Comprou seu ingresso no setor mais popular do estádio. Não entendia nada de Bombonera, mas se imaginou no meio da torcida raivosa do adversário. “É hoje que eu morro...”, repetia nervosamente. Mais tarde, quase na hora de ir para o sacrifício... quer dizer, ir para o jogo, resolveu se vestir de forma marcante e em grande estilo. Afinal, não é todo dia que se morre e “esses portenhos vão ver como morre um tricolor macho”. Um flamenguista teria pensado: “só se for para morrer de rir”, mas deixa p’ra lá. Pintou a cara de grená e os cabelos de verde. Furou a bandeira do Flusão e a vestiu como um poncho andino. Na calça branca costurou bandeirolas do Brasil. Mais provocador que aquilo não existia. Parecia um jóquei no Grande Prêmio. Oliveira preparou-se para o último ato de um guerreiro. “Estão pensando que vou me esconder no telhado? Enganam-se esses meus irmãos”.
Chegou ao estádio meio que despercebido, apesar do visual esdrúxulo. Isso porque o taxista – um chileno mal-humorado – errou o caminho duas vezes e o jogo já rolava pela metade do primeiro tempo. Os poucos atrasados que entraram junto com ele não prestaram muita atenção naquela figura exótica. Provavelmente pensaram se tratar de um vendedor ambulante. Oliveira chegou à Bombonera sem ser importunado. Tudo conspirava a seu favor.
Quando parou no alto da escadaria e olhou para os torcedores do Boca, Oliveira já sabia o que fazer. Além da vestimenta exagerada, passara a tarde toda treinando seu portunhol de ginásio público. O time adversário estava pressionando o time do Fluminense e o barulho era ensurdecedor. Porém, logo que os hermanos avistaram aquela figura lá no alto do setor popular, o mais estranho ocorreu: fez-se um silêncio tão profundo na Bombonera que até o Riquelme errou o passe e proporcionou um raro contra-ataque ao tricolor. No mesmo instante em que o Oliveira avançou de encontro aos argentinos, o Thiago Neves lançou-se ao ataque. “Nense, Nense, Maradona és Maricone” – gritava o desesperado suicida. E o Dodô recebeu um passe açucarado do Conca. O silêncio imperava. Acho que o último silêncio desse porte na América Latina foi quando os deuses astronautas desembarcaram no meio dos Incas. “Pelé és mejor que Dieguito” – insistia um Oliveira de olho na torcida e, ao mesmo tempo, no ataque tricolor. Além do craque argentino, a Real Academia de Letras Espanhola era, também, bastante ofendida. Olhando o time atacar, Oliveira já não falava coisa com coisa. “Lula és mejor que Perón”. E Dodô driblou dois defensores. “Chico Buarque és mejor que Gardel”. E não é que o Dodô cruzou na medida para a cabeçada do Washington?! Gol. Gooooooooooooooooooooolll! Gol do Flusão. E o Oliveira já não se continha mais. “Que morrer que nada, pôrra, eu quero é voltar para o Brasil a pé. Aliás, volto de joelho para as Laranjeiras. Vou beber Coca zero até estourar”. Nunca tinha se visto um silêncio tão grande na Bombonera nos seus cinqüenta anos de existência. Só se ouviu, após alguns instantes, um som seco de um corpo caído no chão.
Eneida recebeu o telegrama curto e grosso:
- PARA NUESTRO PESAR DEBEMOS INFORMARLE Q. SU MARIDO MURIÓ. INFARTO FULMINANTE.
Chegou ao estádio meio que despercebido, apesar do visual esdrúxulo. Isso porque o taxista – um chileno mal-humorado – errou o caminho duas vezes e o jogo já rolava pela metade do primeiro tempo. Os poucos atrasados que entraram junto com ele não prestaram muita atenção naquela figura exótica. Provavelmente pensaram se tratar de um vendedor ambulante. Oliveira chegou à Bombonera sem ser importunado. Tudo conspirava a seu favor.
Ri muito com o seu texto, muito engraçado. Valeu.
Abraços.
Super engraçado
Abrindo a votaçao e desejando sucesso
Muito legal rirmão, to votando sempre bjus tecristina
Tecristina souza · Rio de Janeiro, RJ 7/6/2008 14:47Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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