Sírius e sua irmã morta - conto

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arlindo fernandez · Campo Grande, MS
13/12/2006 · 96 · 2
 

Sírius e sua irmã morta
Com um lápis desenhava numa folha de papel sobre uma mesa de madeira. Os olhos captavam as rachaduras na torre da igreja e nuvens. O vento sacudia a cortina e conduzia a canção do rádio junto com o cheiro dos pães por todo o quarto, que ficava sobre a padaria. Cama de solteiro, armário abarrotado de livros; nas paredes, vários cartazes de balés e antigas fotos de família. Tinha também uma coleção de discos de Mario Lanza, amava suas canções, sobretudo “Becouse you’re mine” – sempre que ouvia chorava, talvez por se lembrar de um amor que nunca teve.
Sírius gostava de desenhar paisagens e caminhos íngremes, mas o sustento vinha da dança, cujo palco era o salão de baile que ficava bem na fronteira do Brasil com o Paraguai. E, nas noites de sábado, era o apogeu quando vinham homens de toda a região à procura de diversão. No amplo salão, feito com tábuas e piso de vermelhão, aquela moça de apenas 20 anos, e mais outras tantas, contribuíam para a alegria dos rapazes. Dançavam, dançavam e giravam ao compasso de velhas canções para viver.
Sírius nasceu numa gravanha perto daqui. Era a primeira de doze, todos homens e somente ela de mulher. Ela e sua irmã gêmea, que não chegou a nascer. Sua irmã havia desaparecido por completo no sexto mês da gestação, um grande mistério para sua mãe, que vivia naquele fim de mundo.
Segundo a visão instigante de Sírius, ela ainda estava ali, presente em seu corpo. Havia se atrofiado na gestação e seu minúsculo cérebro ainda vivia dentro dela. E ambas eram diferentes: sua irmã morta tinha estranhos desejos. Sírius era o contrário, e até parecia que nunca tinha desejos, ela apenas dançava e tentava compreender a vida para ambas.
Disse ela, ilustrando em detalhes, que em volta de seu tálamo, no cérebro, ficava o complexo “R” - de réptil mesmo. Este lugar era a sede da agressividade, do ritual e nasceu quando nossos ancestrais eram répteis - talvez fosse esta parte a mais desenvolvida em sua irmã morta.
Logo depois, o sistema límbico - e este sim era dos mamíferos - responsável por suas manifestações de sobrevivência no planeta. Por fim, o córtex cerebral, lugar onde nasceu a civilização, a arte e a compreensão – neste lugar onde a matéria se transforma em consciência.
Sírius compreendia sobre o funcionamento do cérebro humano, portanto sofria de um mal. Atribuía às atitudes e gestos grotescos em manifestações de sua irmã morta.
Sírius tinha paixão pela sua parte “R”, que dizia ter duas, e numa noite desceu aquelas escadas antigas do quarto que ficava sobre a padaria, caminhou pela praça da igreja com o vestido rodado, comprou pipocas e foi trabalhar no salão de baile.
Sábado cheio de gritos de crianças, estrelas e músicas no auto-falante da igreja. Sírius estava feliz, como sempre, e sua estrutura de pensamento era comum ante à vida, exceto pelo fato da menina ter desejos de réptil e coisas sem explicações.
Ela trabalhou, dançou e, num determinado momento, convidou seu par para um passeio na madrugada. As ruas já estavam desertas; no céu, por ironia, navegava a constelação de Cão Maior e a estrela Sírius. Eles andavam em passos lentos - uma no céu outra no chão. O coração de Sírius batia acelerado, era sua pulsação que levava fluidos conhecidos apenas por ela. Ruas depois, seus olhos estavam totalmente negros, já não tinha fala e a delicadeza da bailarina se transformara em gestos exaltados de desejo e fúria. E, como uma fera, ela dilacerou e comeu a genitália do jovem enquanto sentia êxtases primitivos. Gritava e olhava para o céu, feito uma fêmea selvagem, enquanto sua vítima se esvaía em sangue num corredor escuro. ... Continua- baixar arquivo completo

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informaes

Autoria
A.Fernandez
Ficha tcnica
Conto - A.Fernandez
Sírius é uma estrela da Constelação de Cão Maior.Sua irmã, conhecida por Sírius B, está morrendo. (uma gigante vermelha).
Portanto a história acima é apenas ficção.
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Rangel Castilho
 

Tear encantado....sim, por quê não?
Quem sabe impulsos magnéticos cerebrais, que se encontram em frequências aleatórias - que ainda não manipulamos...a surrealidade não se mede, nem se explica. Porque somos o mêdo de ser. E de real só nos resta os sonhos...
Muito boooommmm!!!!
Salve, Arlindo!!!

Rangel Castilho · Anastácio, MS 12/12/2006 11:48
1 pessoa achou til · sua opinio: subir
arlindo fernandez
 

Saudações
Pura poesia e pura verdade!
Imagine unir o "tear encantado" da nossa civilização!!!!
Ai sim vamos brincar de Deus.(risos)
Obrigado meu amigo.
salve,Rangel!

arlindo fernandez · Campo Grande, MS 12/12/2006 13:10
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