Não sou crítico literário, mas arrisco meus pitacos na leitura alheia. Aos que posso e me deixam falar, digo parar ler, ler muito, porque é assim que construiremos algo próximo do que se entenda por conhecimento, ou mesmo possamos nos ver sem a metade do que achamos conhecer. Dos livros que li, há sempre uma paixão, um dengo, um preferido, um mais respeitado, enfim, cada um deixa sua marca, pois nas letras que pintam o papel, está também a tinta que escreve nossa história e colore nossos dias. Um desses pintores de vidas com rabiscos mágicos é o português José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura, e mais, meu escritor predileto.
Mestre na arte de brincar com as palavras e dar a elas vida. Ele as faz dançar diante de nossos olhos, e me maravilha que além de belas e bem articuladas, as palavras do português nos dizem algo de muito profundo que talvez nunca tivéssemos pensado, nos diz algo sobre nós mesmos.
Em seu último livro, As Intermitências da Morte (2005), Saramago não me agradou tanto. A fantástica história do país onde a morte entrou em greve, e toda a dependência que a sociedade tem com o dia da partida, dia de fechar de olhos, do último adeus. Religião, política, Estado, família, economia, enfim, instituições cheias de vida, dependem intrinsecamente da morte. Estranho, mas bem real a relação dessas coisas proposta pelo escritor.
Entretanto, do meio do livro em diante, essa realidade ganha algo de surreal, algo até comum nos livros do portuga, como no Ensaio Sobre a Cegueira (1995), onde a treva branca tirou a visão de todos para que víssemos como somos de fato, no que podemos nos transformar. As Intermitências mostraram um Saramago que se repetia, de forma incomum. De tão inusitado e esplendoroso o começo do livro, creio que a genialidade do dramaturgo tenha entrado de férias ao final, como fez a morte, no país que não se morria, e até a máfia (lá se escreve assim: máphia) se apoderou do poder da vida e da morte, numa trama envolvente, onde a Morte em pessoa foi vista, procurada e chegou a se corresponder com suas futuras vítimas.
Oxalá que esteja sendo exagerado, mas Saramago acostumou tão mal seus leitores, que lhe basta uma escapadela, para que lhe caiam críticas. No entanto, leia Saramago e tire o próprio leitor sua conclusão. Que cá vamos nós, como marujos enfadados, vendo o balançar das águas tão doces, que talvez nos esqueçamos de bebê-las um pouco, de saber que o sabor do que está tão perto, não se encontra nas distâncias mais longas, nem mais belas, podemos sabê-lo assim, por trás das empoeiradas páginas de um velho livro, da sabedoria de um velho homem, para que nossas mentes não se tornem nem velhas, nem ingênuas.
Esse texto ficaria bem melhor no overblog, não? De qualquer forma, bom texto!
Amanda Maia · Salvador, BA 24/4/2007 17:26
Adriel, já estou me tornando sua fã.
Você escreve de uma forma tão envolvente que fico querendo mais quando acaba o texto.
Eu sou apaixonada por Saramago. Dele, não li justamente o Ensaio sobre a Cegueira, mas logo irei ler.
Ainda não me julgo capaz de alguma crítica porque minha relação com as obras desse autor é de paixão mesmo. E, como você sabe, a paixão cega (risos).
Porém, agora que comentou, irei reler as Intermitências com os seus olhos. Depois lhe digo se concordo.
Por falar nisso, eu adorei aquela carta da Morte, no livro.
beijo
Amanda, também fiquei em dúvida entre o Overblog e o Banco de Cultura e na hora de postar, vi tão pessoal o que escrevi, tão opinioso, que falei, vá lá, deixe ele aí mesmo no banco, quem sabe alguém passe, o recolha e leva para onde de direito. rsrsrs
Saramar, também tenho paixão pelo que o português escreve. A mim foi muito difícil criticá-lo, mas como ele nos ensina, tirei, eu, o leitor, minha própria conclusão. Obrigado.
Adriel Diniz,
Que beleza menino!
Marluce
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