O azulado da velha cortina que cobria parte da janela misturava-se à visão embaçada, fazendo com que a explosão de cores do neon que piscava na rua e invadia o local parecesse ainda maior. Tentou mover-se. Percebeu uma garrafa de vodka que, ao lado de seu pé esquerdo, equilibrava-se entre copos, cinzeiros e um aparelho de som. "Merda.....", disse, ao perceber a cabeça pesando três toneladas. Queria levantar-se, mas preferiu elevar sua mente a qualquer estado que o fizesse recordar o que exatamente fazia ali. Deitado em uma cama estranha, percebeu a ausência quase completa de roupas. Estava só de cueca. E terrivelmente embriagado. "Maravilha", dizia. “Maravilha...”. Com a velocidade de uma lesma, virou-se. “Merda de bebida....porra....”. Na nova posição que assumira na cama pôde observar o ambiente com mais calma. Suas roupas jogadas no chão. Tentou visualizar o volume da carteira com documentos e grana no bolso traseiro da velha calça jeans que usara na noite anterior. A visão distorcida pelo alto teor alcoólico no sangue não deixou. Mesmo assim, esforçou-se para chegar mais perto. A carteira estava lá. O dinheiro também. E foi ali, com o braço esticado rente ao chão que percebeu o vapor saindo por debaixo da porta. “Tem alguém tomando banho ali”, disse para si mesmo. Olhou mais uma vez ao redor e percebeu que estava em um quarto. Poderia ser um quarto de motel. Ou de hotel. “Dos mais decadentes”, constatou. Ou poderia ser o apartamento de alguém. “Mas quem?”, perguntava-se. Da noite passada lembrava-se apenas de sair para comemorar a “contenção de despesas” da empresa onde trabalhava há mais de cinco anos. E a despesa era ele. Jogado na sarjeta, sem emprego e com a rescisão de trabalho toda na carteira, saiu para beber. Só não imaginava que o fundo do copo não fosse o limite. Ali, de cueca, sem saber onde estava e com o barulho do chuveiro ao lado sendo desligado, ele percebeu: “estou no fundo do poço”. Quando a porta definitivamente se abriu, uma figura loira adentrou o quarto enrolada em uma toalha verde-limão desbotada. Do banheiro até o play do aparelho de som foram só alguns passos.
I couldn't resist him
His eyes were like yours
His hair was exactly the shade of brown
He's just not as tall, but I couldn't tell
It was dark and I was lying down
You are everything, he means nothing to me
A figura de cabelos dourados parecia ignorar a presença de um homem só de cueca na sua (?) cama. Foi então que, completamente desajeitado e sem enxergar direito, ele disse: “Isso aí é Amy Winehouse?”. “É. Gosta?”, disse a loira, despindo-se calmamente da toalha. Foi desse momento em diante que ele desejou não ter perguntado. Ou melhor. Não ter nascido. Ou ainda: ter morrido. De boca aberta, observava a cena mais dantesca vivida por ele até então: a moça em questão era uma trava. Uma traveca. Um travesti, que secava os cabelos loiros com a toalha verde-limão desbotada, fazendo passinhos conforme a música e entoando um inglês embromation. Pior que isso, era a pergunta que ele fazia a si próprio: "O que é que eu estou fazendo aqui????
What do you expect?
You left me here alone
I drank so much and needed to touch
Don't overreact, I pretended he was you
You wouldn't want me to be lonely
Àquela altura do campeonato, embriagado pela bebida ou pelo puro absurdo da situação, questionava-se sobre o que teria acontecido, sobre até onde chegara na noite anterior, sobre como fugir dali e fazer com que ela (ou ele) se esquecesse de tudo (ou seria nada?) que tivesse acontecido (ou não) entre os dois. Moveu o rosto para o lado oposto, em direção ao neon que, incansavelmente, derramava suas cores sob o chão do quarto. Lembrou-se da vodka ao lado do pé esquerdo. Não pensou duas vezes: agarrou-a e, num momento intensamente dramático, virou um gole desesperado. Outro gole. Mais um. E de novo. Em um nano segundo adormeceu novamente sob a luz do neon, de cueca. Antes de sair, a loira sentou ao seu lado e, sorrindo, cantarolou o último refrão de Amy Winehouse:
Yes he looked like you
But I heard love is blind
Sim, ela era fiel ao seu amor. E ele poderia dormir descansado.
está bom, esse.
parabéns.
apareça sempre, e também em www.farinhada.blogspot.com
abraço.
Gostei demais do conto menino... show. muito bem escrito.
abraços
Muito legal. Nós, amigos e eu, fizemos um desafio sobre o tema na semana passada. Se quiser, dê uma conferida em http://contodecanto.blogspot.com/.
Volto depois, com certeza.
Em homenagem ao fenômeno brasileiro...rs,rs,...
Robert Portoquá · São Paulo, SP 27/5/2008 21:57
Engraçado, Robert, vc não foi o único a pensar isso hehe
Mas, escrevi o texto bem antes do "acontecido"...
De qquer forma, valeu pela leitura!
Abraço
Salvei para ler com calma.deixo agora meus votos.
clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 28/5/2008 14:18Menino, nuito bom!!!! Tens meu voto, garoto! Beijos
Lena Girard · Belém, PA 28/5/2008 14:39
Thiago, você surpreende.
Adorei o conto. Os detalhes são incríveis e o desfecho, inesperado.
Beijos.
É isso ai Thiago. Você convidou e eu vim. Gostei do que li. Seu texto esta inspirando astros do futebol. rsss
Parabéns. Votado.
T[A VOTADO THIAGO E MUITO OBRIGADO POR VOTAR NO POEMA (AMIZADE.
Tarokid
Clap clap clap. Adorei o texto que versa sobre os amores fortuitos no cotidiano urbano. Lembrou-me muito Caio Fernando Abreu, que gosto muito. Parabéns e votadíssimo. abração.
Cristiano Melo · Brasília, DF 28/5/2008 21:45
Valeu Thiago!
Mais uma vez parabéns pelo texto, Seu blog também está muito legal. Obrigado pela visita e comentário no LerEver.
Abraço.
Ps. A propósito, sobre destro e canhoto se tiver um tempinho de uma lida neste poema, acho que você vai gostar.
Thiago
Gostei muito hein! Leitura leve, boa construção de imagens. Você pintou bem a cena na minha cabeça. Como leitora fui bem conduzida, cheguei até onde você queria. Foi muito gostoso de ler!
Voto e beijos pra você!
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