Sobre anjos, meninos e patos

Desenho de Andocides Lemos, filho
1
Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ
1/3/2007 · 55 · 12
 

Chegaram antes do sol, acordando o silêncio e a manhã mundana com o rufar das asas. Apenas sombras vadias e bêbados notívagos testemunharam a revoada de anjos que tomou conta da cidade acomodando-se em ruas, praças, praias e calçadas sonolentas. Como qualquer criança, traziam pequenas Esperanças e Utopias de estimação, as primeiras eram verdes como periquitos; as segundas, vermelhas como flamingos. Pela manhã, as pessoas acharam inusitadas aquelas estranhas criaturas pulando nos sinais, voando do chão aos ombros uns dos outros, jogando malabares sobre caixotes, pulando carniça, equilibrando garrafas pet no nariz e fazendo palhaçadas com seus bichinhos de estimação – mas logo se acostumaram. Os motoristas assistiam aos breves shows, atiravam uma moeda ou pão e seguiam para o trabalho alegres. À noite, ao retornarem, divertiam-se com a trupe de seres alados que saltavam em trapézios invisíveis, contorciam-se entre carros e engoliam fogo. A cada noite chegavam mais e mais anjos que enchiam esquinas e praças, incorporando-se à paisagem da cidade. Até que, não se sabe como ou quando, começaram a mudar.

Primeiro passaram a hostilizar as pessoas atiçando sobre elas suas Esperanças e Utopias famintas ou exibindo-lhes ostensivamente os pequeninos falos de luz que urinavam auroras a qualquer hora, indiferentes às mulheres que passavam e coravam de desejo e medo. Depois deram para sobrevoar praças e mergulhar nas fontes, refrescando-se do calor do dia, ou tocar fogo nas plumas que caíam das asas para espantar o frio das noites de inverno. Definitivamente, haviam perdido o discernimento e se transformado num estorvo para a cidade – já não agradava vê-los nas ruas, marquises, portas de igrejas. As pessoas não achavam mais graça nem nos bichinhos de estimação que de início tanto admiravam; andavam desconfiadas, evitando até olhar para eles. Aventou-se que poderiam estar doentes ou afetados pelas mudanças climáticas que assolavam o planeta, o que justificaria a queda gradual de suas asas e o aparecimento de garras no lugar delas. Houve quem duvidasse de que eram anjos e afirmasse até que eram perigosos e cresciam e se multiplicavam, sim, o que era uma ameaça ao equilíbrio político e social urbi et orbi. De anjos de primeira ordem tornaram-se potestades das trevas, monstros, gárgulas amedrontadores.

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Nivaldo Lemos
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Rangel Castilho
 

Profunda reflexão sobre a fragilidade de nosso sistema social.
Acomodados fecham janelas e se esquecem do sol. Fecham portas e se esquecem da brisa da tarde. Poucos seriam grandes o suficiente
para encarar o problema de frente. Vejam problemas, citem soluções - isso é raro. Mais fácil é enfiar a cabeça embaixo do travesseiro...
Muito bom. Bom demais.
Parabéns!!!!!

Rangel Castilho · Anastácio, MS 26/2/2007 20:25
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jjLeandro
 

Poeta,
Uma bela metáfora sobre o destino trágico que impomos a nossas crianças, ao nosso futuro e a nós mesmos. Um trabalho de mestre, dos poucos mestres que temos por aqui: não vou citar nomes, mas quantidade: uns cinco, talvez.
Muita poesia nessa sua prosa que não é uma fábula, embora encerre também uma fundamentação moral: somos nós capazes de corromper tudo pela ação deletéria individual e da máquina social que todos juntos movemos (infelizmente contrariando o Buscaglia que você cita: “Somos, aqui na terra, anjos de uma asa só. Para alcançarmos o vôo precisamos nos abraçar”). Está claro que não somos assim tão cooperativos. Uma metáfora belamente construída. E sem prescindir da crítica social acerba que, no entanto, não é panfletária. Quando determina que nós e nossa sociedade corrompemos até anjos, por que não nossas crianças? reflete bem o descrédito nos tempos que vivemos e nos rumos que a sociedade toma. Embora abundem os anjos a situação não é paradisíaca, ao contrário, é infernal: “De anjos de primeira ordem tornaram-se potestades das trevas, monstros, gárgulas amedrontadores.”
A crítica mantém-se viva do início ao fim quando descreve a solução encontrada para contornar o problema, que é bem próxima de uma das clássicas saídas que muitas sociedades modernas adotam como uma das opções para o combate à violência - a pena de morte: “A proposta veio de um velho político, que sugeriu organizar um torneio de caça...”
Realmente, tal proposta não poderia partir de outro alguém...
Acredito que a desesperança e o medo de que não tenhamos mais salvação como sociedade seja a mensagem de fundo da metáfora. A insensibilidade, por vários fatores, que não permite o rompimento do vício, está latente quando todos embarcam na “melhor solução”: liquidar os anjos – de roldão levando nossas crianças! Quem garante que não iremos agir perpetuamente assim? É a pergunta que permanece após a leitura do texto.

Parabéns, Nivaldo, me inspirou inclusive, eu que não sou crítico, a fazer essas considerações.
Abraços

jjLeandro · Araguaína, TO 26/2/2007 23:15
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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Querido Nivaldo:
Em primeiro lugar quero agradecer-lhe a lembrança do meu nome para comentar o seu trabalho. Confesso que a escolha me honrou, embora desconheça os critérios por você adotados ao fazê-la.
Só não sei se ela, ao fim e ao cabo, o satisfará!
A maior qualidade do seu conto é talvez o fato de que, diante dele, há inúmeras interpretações possíveis. Eu, no entanto, fico com a mais óbvia: o pessimismo de ver a nossa como uma sociedade que, em nome de valores imponderáveis como os sentimentos de medo e insegurança, aos quais eu acrescentaria valores egoísticos, como vaidade a ganancia, aniquila seu futuro, isto é, nega aos jovens toda e qualquer esperança de criação de um novo mundo, apesar de, mesmo assim, ainda manter vivas alguma esperança e a utopia, em um cenario de "paz de cemitério".
Espero ter ajudado!
Beijos, abraços e prazer em conhecê-lo
Joca Oeiras, o anjo andarilho

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 27/2/2007 04:53
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Nivaldo Lemos
 

Caro amigos overmundistas

Rangel, meu amigo
Obrigado por suas palavras tão generosas. Elas são o maior estímulo para que continue tentando escrever sobre o mundo, a vida, a esperança e a desesperança. Muito obrigado mesmo. Um forte abraço.

Meu amigo JJ.
Obrigado. Sinto-me horando com sua deferência em me chamar de poeta e mestre. O primeiro título aceito de bom grando, mas longe de mim assumir o segundo. Há quem o mereça mais, sem dúvida. Quanto à sua crítica, é perfeita no que concerne às intenções explícitas do texto e gratificante ao me apontar outras que só o processo criativo explica. De qualquer forma, entendo essa tensão entre a intenção e o fortuito é a matéria-prima da criação crítica não-panfletária, como você diz. Concordo ipsis literis com sua visão social, mas mantenho a esperança na transformação do mundo pela pela ação do homem e a compreensão dialética da histórica. Longe de mim a desesperança, o niilismo. Ainda creio na humanidade, na reflexão crítica e na possiblidade de uma convivência mais mais justa entre os homens. A metáfora da desesperança do texto deve ser vista mais como um alerta do que como uma condenação ou destino humano. A nós cabe pensar em como mudar o mundo, fazê-lo possível. E a literatura pode ajudar, creio nisso. Obrigado por suas palavras, você não imagina o quanto me dão alento. Um forte e carinhoso abraço.

Querido Joca,
Não houve critério, se não o fato de você ser de Oeiras, piauiense como eu (nasci em Floriano) e, além disso, um anjo andarilho. Como não me satisfará sua avaliação? É claro que sim! Afinal, ouvir opiniões só nos engrandece e melhora. Obrigado pela crítica, embora rogo-lhe que não me veja como pessimista. Estou longe disso, a metáfora sobre a desesperança é apenas uma forma de denunciar a insensibilidade do mundo em que vivemos, como você mesmo compreendeu. De qualquer forma, valeu. Obrigadão mesmo. Um forte abraço.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 27/2/2007 13:10
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Doido
 

Gostei, Nivaldo. Achei muito bem escrito. Ótimo nomes Esperanças e Utopias. Muito bem. Parábens. ABÇ.

Doido · Rio de Janeiro, RJ 28/2/2007 18:26
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Spírito Santo
 

Nivaldo,
É o sonho e o pesadelo de todos nós. Esperança e medo tudo junto, embaralhado na memória de que sabíamos de antemão no que daria tudo aquilo fazíamos. E no entanto fizemos. Ou permitimos que o fizessem, omitimo-nos, fechamos os olhos, tanto faz.
A nós, meninos sobreviventes de caçadas passadas, agora só resta retroceder no tempo e de algum modo desfazer, interferir, abrir o olhos de quem pudermos abrir e de novo, voltar a sonhar.
Vamos lá, NIvaldo. vamos tirar aquelas nossas asas velhas e empoeiradas do armário e vamos nessa. Tô nesse vôo também (o máximo que pode acontecer é a gente se esborrachar lá em baixo) mas, cá entre nós, antes velho anjo caído do que um dos nossos meninos.
Grande abraço alado

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 28/2/2007 19:49
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Ilhandarilha
 

Primoroso!

Ilhandarilha · Vitória, ES 28/2/2007 19:51
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Nivaldo Lemos
 

Spirito Santo alado é redundância! Obrigado, amigo. Estou com você. Ainda há tempo de levantar vôo, de aprender o caminho das asas. Um forte abraço.

Ilha, minha querida, muito obrigado!

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 28/2/2007 19:58
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Spírito Santo
 

É que as velhas asas estavam no armário, lembra? Agora sim, estou alado de novo.

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 1/3/2007 07:41
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Nivaldo Lemos
 

Calma, Arlindo. Sua presença é fundamental neste espaço e para quem gosta de boa literatura. Portanto, nem pense em largar "isso". Bugs acontecem, você vai achar a solução, tenho certeza. A gente precisa e agradece. Um abração e até o mais breve possível.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 1/3/2007 07:53
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Nivaldo Lemos
 

Aí, Arlindo, tá estranho. Não sei porque, mas minha resposta saiu antes da sua opinião. Já viu isso?

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 1/3/2007 07:56
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Corah Medeiros
 

Nivaldo meu amigo!
Aqui é o arlindo fernandez - to falando em nome da minha filha. O motivo é que não consigo "logar" no site com o meu nome. (4 dias)
Já procurei a direção e o povo do tecnopop - nadinha.
Infelizmente não poderei votar nesta obra-prima. É uma pena,meu voto vale 9.( estou dizendo isso porque o conto vale muitos 10).
A última vez que consegui entrar foi quando postei "A Casa amarela ..."
Pra falar a verdade... tô quase largando isso pra lá.
saudações pantaneiras
arlindo fernandez

Corah Medeiros · Campo Grande, MS 1/3/2007 09:16
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