Sobre o sentimento de pertencer
Dois homens e uma mulher. Contratados ao mesmo tempo e para trabalhar juntos, no mesmo departamento. No início olharam-se com uma certa desconfiança. Talvez ela fosse certinha demais, com uma vida daquelas de comercial de margarina. Boa família e bons modos, provando sua completa rendição à vida burguesa. Seu nome era Ana e, para ela, os estranhos eram eles. Sergio já chegou à empresa como favorito, pois havia se destacado na famigerada dinâmica de grupo. O outro, Paulo, era caladão, mantinha-se distante. Segundo Ana, tinha um ar blasé.
Sentavam-se numa sala contígua à do chefe que coordenava o setor. Eram quatro mesas dispostas numa espécie de ilha. Ana ao lado de Paulo, e Sergio, por sua vez, em frente de Ana. Havia uma mesa vazia, reservada a um quarto integrante que nunca foi contratado. Trabalhavam das 9h00 às 19h00, com intervalo de uma hora para almoço. E sob a batuta de um coordenador de humor instável, passaram a desenvolver alguns projetos em conjunto.
A aproximação entre eles se deu aos poucos. À medida que o chefe revelava seu temperamento irascível, a ligação entre os subordinados aumentava. No início, o coordenador parecia ser apenas durão. Fazia cara feia quando alguém atrasava para pegar no batente, mas, com o tempo, revelou ser uma espécie de capataz moderno, que impunha as normas esdrúxulas a que deviam se submeter. A pressão serviu para unir os três, que, sutilmente, formaram uma aliança.
A cumplicidade entre eles ficou selada na manhã fria de agosto. O chefe tirano estava inspirado e pediu para que os três - que compunham a equipe de marketing da empresa - tirassem o pó da sala. Paulo tomou a iniciativa. Pegou uma flanela e foi, cantando alto lerê, lerê, lerê, lerê, lerê, a música tema da novela Escrava Isaura. A reação dos três foi imediata: acesso de risos, inclusive do coordenador. A partir daí, para cada regra doida inventada pelo chefe tirano, surgia logo uma sátira, garantindo aquela dose tão necessária de riso diário. E, como o humor é capaz de revelar mais que perguntas diretas, a amizade foi se fortalecendo mais e mais.
Passaram a almoçar juntos. Por trás da aparente delicadeza, Ana se revelava. Apesar do verniz tradicional, a moça era irreverente, adepta ao uso de pequenas ironias. Sergio mostrava-se perspicaz e dono de uma memória prodigiosa. Tinha uma queda por cultura inútil e trocadilhos. Quanto mais infames, mais contente ficava. E a reserva de Paulo era apenas um escudo. Silencioso e observador. O mais sensível dos três, além de divertido e extremamente ágil para inventar piadas.
Gostavam de frequentar um restaurante pequeno, perto da empresa. O lugar, aconchegante, parecia uma casa. Os três fechavam cada refeição com um café. Paulo pedia café preto. Sergio, invariavelmente, optava pelo café com leite. E Ana tomava um carioca, o tradicional “chafé”.
Então, compartilhando angústias, conquistas, medos, pequenas e grandes paixões, baixaram a guarda e se deram conta de que tinham inúmeras afinidades. Perceberam que juntos podiam ser, simplesmente, eles mesmos, sem reservas ou receio de serem julgados. Falavam, então, sobre sentimentos, sobre a vida e sobre como tentar encarar as coisas com um pouco de humor.
E essa fonte de calor estimulava os três. Sentiam vontade de ir para o trabalho, pois pertenciam ao mesmo grupo, faziam parte do mesmo time. Gostavam um do outro, se protegiam, mas, acima de tudo isso, sonhavam. Chegaria um dia em que jogariam tudo para o alto e montariam uma pequena empresa: uma agência de comunicação ou, quem sabe, uma editora. Havia grandes elucubrações sobre como ganhar o pão e se divertir ao mesmo tempo.
Mas, a vida, seja lá como for, segue em frente e, passados alguns anos, Ana mudou de cidade, de trabalho, de colegas. Quanto a Sergio e Paulo, cada um seguiu o seu caminho. Ainda mantêm contato através de e-mails. E, uma vez por ano, encontram-se para tomar aquele café. Cada qual a seu modo. Fiéis aos seus gostos, pois certas coisas não mudam. Paulo continua com seu café preto, Sergio ainda toma o seu com leite e Ana permanece leal ao “chafé. Conservam, até hoje, as lembranças, dúvidas e certezas. São amigos. Esta amizade daria uma estória, um seriado, um livro ou, ao menos, um conto. Esse aqui. E os sonhos permanecem, apesar das divisões, das distâncias, apesar de tudo.
Celia
"Sobre o sentimento de pertencer" - É um conto de minha autoria, sobre amizade. O texto foi selecionado em um concurso literário e publicado no Livro "A Dinâmica das Palavras" da Editora Guemanisse.
Seja bem vinda ao overmundo!!
Parabéns pela composição.
Espero poder ler mais de seus escritos aqui no overmundo.
At + 1 abrç overmano.
Obrigada Pierro! Que bom que curtiu! Abraço
celia penteado · Florianópolis, SC 24/7/2012 18:04
Parabéns Célia, belo conto querida. Que bacana saber que o conto foi um escolhido. A vida de escritora não é fácil, mas tem seus momentos de prazer. bjcs.Marisa Santos
Marisa Santos · Campinas, SP 28/7/2012 20:07
Oi Marisa! O seu também é muito bonito. Você sabe como posso cadastrar uma tag? Bjs Celia
Vo(l)tando e relendo.
At + 1 abrç overmano.
Faz lembrar de tanta gente que gostaria de tomar mais um café e perguntar como vai a vida. Não faço ideia de onde vivem hoje. =/
Mas também faz lembrar das risadas e rir de novo. Seu texto me trouxe boas lembranças.
Obrigado =)
Olá, Célia.
A mensagem que o texto passa é importante, necessária. Apenas desgostei tal encontro das personagens... os eventos parecem por demais ocasionados, quase consigo sentir o perfume do escritor ao invés de notar o rastro do narrador. Em outras palavras você deixou o esqueleto da narrativa consumir seus personagens, eles parecem fantoches com físicos e mentalidades finitas. É um conto para bem estar no trabalho com os colegas ao invés de ser um conto sobre o bem-estar da amizade na vida.
Espero não ter sido grosseiro e espero que me entenda.
Até mais!
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