Brasil.gov.br Petrobras Ministério da Cultura
 
 

Sobre relógios e flores

A.P.
1
Arianne Pirajá · Teresina, PI
13/3/2007 · 86 · 6
 

Aquele tipo que adora reclamar. Ela grita pelo o mundo inteiro, porque o mundo inteiro tem que parar para mudar o canal da TV ou somar os valores das contas desse mês. E se não bastasse parar o mundo na hora que bem entende, ela ainda reclama quando o mundo se ausenta para ir ao banheiro ou gasta mais guardanapo do que deveria gastar no almoço. Porque esse almoço não requer tanto guardanapo... o mundo só pode estar perturbado, meu pai!
E reza todas as noites, pedindo proteção, que o arcanjo atravesse sua espada no peito dos traidores... essas almas pecadoras que me olham meio de lado, ela chora. Porque o mundo conspira contra mim.
- Comprei umas flores!
- Pra quê???
Talvez as flores tenham nascido para existirem simplesmente. Isso deveria ser suficiente. Mas não. Acho que compramos flores para ver borboletas voando e estrelas caindo. Ou só para olhar mais para a janela e respirar ar puro. Ou para enfiar o incenso no estrume. Que seja!
Sei que as pimentinhas são lindas, mas não conseguem ganhar no ardor. É uma pena...
O mundo nem queria parar, sabe. Mas parava... ninguém sabia por quê. Ninguém sabe de nada... A verdade é que são várias verdades. O mundo parava porque ele não conseguia mesmo ter outra reação quando via o que via, mas também parava porque tinha que parar mesmo, para tomar ar e coragem. Parava também para se manter calmo, para se proteger, para virar um muro indestrutível. Parava para ajudar e para olhar. Parava para morrer e para sobreviver estando morto, se é que alguém entende o significado dessas coisas sem sentido que o mundo faz.
Ai. Sei que aquele tipo tem poucas chances no mundo.
Sabe as pilhas do relógio? Alguém tirou para tentar ligar uma outra coisa que naquele momento era maior que o tempo. Ela não conseguiu segurar sua alma e sua voz diante daquele acontecimento tão... tão o quê??? Sei lá o que era aquele acontecimento. Não consigo interpretar o que aquela alma pôde sentir, juro. Em menos de um minuto os dois relógios estavam em seus devidos lugares e horários. E ninguém morreu.
Por isso que eu digo que não tem lugar nesse mundo pra gente desse tipo. Será que essa gente é tão fraca e fina e frágil que não consegue suportar a dor de ver um relógio fora do lugar? Acho que essa gente não tem é no que pensar nem o que dizer nem o que fazer.
Eu disse... trouxe flores, quero mais! Mas pra quê, né? É muito mais interessante ficar gritando o dia inteiro que os relógios devem permanecer ligados até que a pilha se acabe e devidamente pendurados até que o prego se estrague!!!

compartilhe



informações

Autoria
Arianne Pirajá
Downloads
123 downloads

comentários feed

+ comentar
Nivaldo Lemos
 

Arianne, minha conterrânea,
confesso que essa perna rumo ao infinito céu azul da Teresina de minha infância (suponho que o seja), ambos tão belos, me chamou a atenção para o texto, com o qual me deliciei. Um metáfora da luta entre o tempo e a vida? Sem dúvida, é tempo de comprar flores e viver. Tempo fora do tempo, tempo afuso, fora dos relógios, no peito de quem apenas vive e escreve. E escreve bem. Como você. Apesar dos relógios que insistem em nos acordar e dos sonhos. Parabéns pelo texto.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 12/3/2007 17:32
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Adroaldo Bauer
 

Se mais gosto, me enrosco.
Essa gente do Piauí se espalha feito piqui.
Agradecido pela lembrança nestas horas.
Quase tempo de ir pra casa recarregar as pilhas pro amanhã.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 12/3/2007 17:50
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Nivaldo Lemos
 

Hahahahaha, Adroaldo, muito boa essa do pequi... E meu deu uma saudade de um arroz de pequi! Há séculos não como....

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 12/3/2007 17:54
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Adroaldo Bauer
 

E eu, que no século passado, do milêniorecém findo, pra cá fui trazido, que tenho saudades de nunca ter comido, arroz
com pequi.

Beijos, Arianne já pirou (ops!) Pirajá

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 12/3/2007 18:12
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Pedro Gontijo
 

Arianne, confesso que a primeira impressão que tive é de que o protagonista fosse homem (se bem que gênero é o que menos importa aqui). Pulei o "ela" da segunda frase -- que pode ser tanto para mulher quanto para alma -- e assumi o sexo do protagonista até a metade do texto.

É que homem tem esse quê de ranzinza mais do que a mulher, e a perna feminina rumo ao céu me reforçou essa idéia =)

Gostei muito, principalmente de como foram colocadas as idéias das flores e dos relógios. Parabéns!

Abraço

Pedro Gontijo · Brasília, DF 13/3/2007 12:07
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Eduardo de Oliveira
 

''Viver ultrapassa todo o entendimento'', Arianne. Considero os relógios antíteses das flores, e como ser de alma atemporal, gosto mais das flores do que dos ponteiros. Texto muito bom como tudo que já li até agora de sua autoria. Abraço.
Eduardo de Oliveira

Eduardo de Oliveira · Teresina, PI 21/11/2007 12:56
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

baixar
txt, 2 Kb

veja também

filtro por estado

busca por tag

observatório

feed
Instituto Overmundo pesquisa a cadeia produtiva da música no Rio de Janeiro

Está no ar o blog de pesquisas do Instituto Overmundo. Você já pode encontrar lá os primeiros dados da pesquisa “Análise de modelos de negócios... +leia

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados