SOFIA

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Thiago Toscani · Florianópolis, SC
15/2/2009 · 176 · 18
 

Bastou uma lágrima para que Afonso retirasse tudo o que disse sobre Sofia ali, no meio do restaurante. Rapidamente, ele enxugou os olhos da amada. Ofereceu-lhe lenços, um copinho d’água, agarrou forte sua mão. Chegou a pedir desculpas pelo mal-estar que o ciúmes dele a causara. “Bobagem minha, amor...esquece, esquece...sei que você jamais faria isso”, afirmava insistentemente. Deu-lhe um beijinho na testa e baixou a cabeça, culpado. E, naquele momento, de cabeça baixa, Afonso nem pode perceber que Sofia, outra vez, lançara um olhar de desejo em direção ao homem solitário da mesa ao lado.

Com o clima de harmonia restabelecido, e Afonso cinco taças de vinho mais alto, Sofia já não demonstrava sequer um resquício de vergonha. Se é que um dia a teve. Descruzava as pernas deixando a calcinha à mostra, mordia levemente os lábios e dava sorrisinhos sacanas para o vizinho de mesa. Com carinhos tortos na amada, Afonso falava da vida, da felicidade de tê-la como companheira. E bebia. Bebia. Bebia. A visão distorcida pelo álcool já não era mais impedimento aos desejos contidos da noiva. Ela ardia de vontades.

O cavalheiro da mesa ao lado há muito já entrara na brincadeira. Com impublicáveis intenções, respondia aos gestos da mulher. Mandava beijos, passava a mão na genitália por debaixo da mesa. Deixava claro que se ela quisesse, poderia ser ali mesmo. Afinal, desde que o casal ocupara a mesa, a esposa - "parecia tão distinta essa vagabunda", pensava o homem - fizera questão de tornar óbvio o quanto aquele homem mexera com ela.

Afonso, agora mudo e embriagado, olhava fixamente a garrafa vazia. Piscava, sonolento. E Sofia, que não era boba, levantou-se da mesa dizendo "vou ao banheiro, docinho...fique aí...já volto!". Ao passar pela mesa do cavalheiro, fez sinal para que ele a seguisse até os fundos, onde ficavam os toilettes. Os dois sucumbiram a um beijo lascivo e escandaloso assim que adentraram o pequeno corredor. Na primeira porta, trancaram-se. Não era banheiro nem nada. Era uma dispensa. Apertada e cheia de bagulhos - o que tornava a cena ainda mais excitante. Sofia ergueu a saia. O nobre cavalheiro, que também não era bobo, penetrou-a com entusiasmo. Sofia berra. Uiva. Afonso escuta, ao longe, a voz da amada. E pede mais uma taça de vinho, enquanto tenta compreender onde a noiva estaria berrando daquele jeito.

Sofia retorna a mesa. A pele vermelha. A consciência pesada. Mas feliz. Segura de si, faz um carinho no noivo embriagado. "Amor...pra que beber desse jeito? Vem, vamos embora. Vou cuidar de você". E, ao passar pela mesa do cavalheiro, ela desvia o olhar. Não era boba. Aquelas vontades imediatas iam e vinham...e, como uma cadela esfomeada, Sofia as saciava. Por certo, ela sabia que, com uma lágrima, poderia, mais uma vez, agarrar o pobre noivo - tão cansado de fingir não ver - e seguir adiante.

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Cláudia Campello
 

simplesmente demaisssssssssssssssss !
Aff !
to retomando o folego... e votando.
ahhhhh cego é aquele q ñ quer ver, né não ? rs

bjsssssss ;)

Cláudia Campello · Várzea Grande, MT 14/2/2009 17:03
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Ivette G.M.
 

O que os olhos não vem, o coração não sente.
Gostei. Ivette G M

Ivette G.M. · Cotia, SP 14/2/2009 17:35
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alcanu
 

Sofia, a mulher que não ... sofria ( nem sô fria ! )
Que fria pro noivo, hein ?
Um beijo, sem o noivo ver, coitado !

alcanu · São Paulo, SP 14/2/2009 19:03
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Anderson Frasão
 

Inquietante! "Sabedoria" em mulher é perigoso (sem pensamentos pre-conceituosos, claro!) Ah...esssa mulheres nos dão e nos tiram a vida!

Gostei Toscano, gostei demias!

Anderson Frasão · Canhotinho, PE 15/2/2009 09:32
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wancisco franco
 

Vinho com lágrima de mulher lasciva, em doses certas.
Bem escrito.

wancisco franco · São Paulo, SP 15/2/2009 10:06
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Cintia Thome
 

Excelente, fui ao seu blog e li....
Sofias e mais Sofias...
homem cego? apenas mais uma insanidade de carencias vãs....
Ótimo texto, dos melhores desta semana que li!

ab

Cintia Thome · São Paulo, SP 15/2/2009 11:44
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Wellington Coelho
 

Quem seria o mais fraco deste conto, Afonso ou Sofia? Instigante a temática colocada.
Prazer em conhecer sua escrita.
Votos com certeza e abraços.

Wellington Coelho · Belo Horizonte, MG 15/2/2009 11:57
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azuirfilho
 

Thiago Toscani · Florianópolis (SC)
SOFIA

Um texto perfeito.
Sofia bota pra quebrar
parabéns pela autenticidade da cena.
Um belo roteiro.
Abracáo Amigo

azuirfilho · Campinas, SP 15/2/2009 11:59
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

publicado um ótimo texto.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 15/2/2009 12:03
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Doroni Hilgenberg
 

Thiago
Infelizmente retrataste uma realidade
Um homem cego e uma mulher esperta e vulgar
mas nem sempre uma lágrima ou uma bebida
resolvem a situação
bjs e votos

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 15/2/2009 12:16
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joe_brazuca
 

Bom !
abs

joe_brazuca · São Paulo, SP 15/2/2009 12:58
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José Cycero
 

Viva Sophia(Sofia) muito mais que a própria filosofia que ela incerra em si mesmo. Texto bom. Bom texto, denso, substancial e eloquente. Votei com prazer. Valeu amigo.

José Cycero · Aurora, CE 15/2/2009 13:21
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ajursp
 

VOTO MERECIDO UM ABRAÇO AJUR SP

ajursp · São Paulo, SP 15/2/2009 22:10
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Juscelino Mendes
 

Conto escrito com competência.

Juscelino Mendes · Campinas, SP 16/2/2009 00:19
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crispinga
 

Sofia safada...E muito excitante!

crispinga · Nova Friburgo, RJ 16/2/2009 03:24
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Roberto Pelegrino
 

Gostei do seu texto, parabéns!

Roberto Pelegrino · Campo Grande, MS 18/2/2009 00:22
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clara arruda
 

Adorei seu conto...Obrigada por fazer parte desse mundo.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 18/2/2009 21:47
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Raiblue
 

bjks azuis

Raiblue · Salvador, BA 22/2/2009 19:55
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