Dormia. O relógio marcava onze horas quando soou o alarme estridente, despertando-o de mais uma noite insone. Pulou do sofá com os olhos semicerrados e tateou um caminho incerto até o banheiro, como se resistisse ao dia e aos seus acontecimentos. À beira da pia, pôs-se a examinar com os dedos a sujeira dos azulejos e um vazamento recém-descoberto, enquanto enfrentava com resignação o ritual de espuma, barba e corte no rosto. Tinha sangue no espelho, onde avistava, sem espanto maior, profundas olheiras e algumas novas rugas.
Era-lhe comum atravessar as tardes com roupas e cabelos em desalinho, que se amoldavam à desordem do apartamento. Naquele dia, entretanto, vestiu seu velho fraque para ouvir um disco de Chopin, percutindo a borda da mesa com as pontas dos dedos e bebendo vinho tinto.
Resignara-se em ser pianista sem teclas e sem som. Nenhum aplauso
descompassado, nenhum sorriso de falsa admiração lhe cativaria, iluminado por luzes tremeluzentes. Por certo, nenhuma platéia bêbada de cabaré tornaria a ouvir seu repertório morno e seu bis cansado.
Aproximando-se da janela, ainda incomodado pelo excesso de luz, olhou o céu que vazava entre as persianas empoeiradas. Viu, com remorso tardio, um pouco dos dias de sol que o sono lhe roubara nos últimos anos. Talvez fosse abril.
Na desordem da mesa, entre pautas riscadas e meias de dançarina, conferiu a lista de compras que não faria para o consumo parco da semana.
Morreria antes da sexta-feira. Era naquelas noites sem fim que tocava à meia-luz de um clube qualquer, onde tantos olhos e mãos deslizavam na penumbra. Ao som da música, pulsando, serpenteava a mulher esguia e nua sob o foco de luz azul.
Após o último acorde nunca recebeu aplausos da platéia voraz, mas somente o olhar de fogo e a última peça de lingerie da
dançarina, jogada como prêmio sobre o piano.
Morreria naquele dia. Tinha a fé dos santos e a certeza dos ateus. O público, ansioso pelo número principal, aglomerava-se impaciente na calçada. Enfim atenta, a platéia veria seus últimos dedilhados no espaço vazio, sem piano, ao som de uma nota derradeira de Chopin.
Na pauta, um beijo de batom vermelho e uma fermata rabiscada com lápis delineador. Na rua, uma primeira e última ovação. Aplausos de pé.
"Talvez fosse abril."
belíssimo texto, Jairo.
Muito bem escrito, narrativa clara e sem exageros.
Perfeito!!!
Parabéns!
abaração,
Ob, Gabriela. Estou aqui, novato, apanhando do Overmundo. Postei uma opinião vazia para Marcos André (o vizinho de cima) e não consegui alterar o arquivo para download depois de alterar o texto visível em html. Mas algum dia eu aprendo!
Jairo Oliveira Ramos · Aracaju, SE 7/1/2008 23:30
Marcos, você tem aqui um conto muito bem escrito e encadeado! Parabéns!
Você conhece Caio Fernando Abreu? Minha dissertação de mestrado foi sobre sua ficção. Sabe que seu texto me lembrou Caio logo de cara?
Muito interessante!
Parabéns!
Um grande Abraço!
Belíssimo, contido, melancolicamente real.
Adorei.
beijos
Bárbaro. Prendeu-me. Engraçado lembrei de Clarice...
Abçs. Muito bom. voto.
Pessoal, obrigado pelos comentários. Vocês estão suportando uma conta do meu rosário de maldades!
Existe um meio de responder diretamente cada post ou eu tenho que falar no espaço de cada um (tenho feito assim)?
Obrigado Jairo, mas se quiser pode ser por aqui, apesar que muitas vezes uma resposta na colaboração não é visto pelo que já comentou...tenho as vezes repetido no recado.
Obrigado mesmo. abçs...
Teu texto é sensacional...
Dá pra percber muito talento na maneira como você organiza as idéias. Prende a atenção naturalmente. Muito bom. Nunca é tarde para votar. Grande Abraço.
Eduardo de Oliveira · Teresina, PI 10/1/2008 15:36
Amigo Jairo!
Teu texto é muito rico de emoção, sentimento e poesia.
Parabéns
Um show de verdade. Cervantes da música, o seu personagem... E a mulher esguia e nua sob o foco de luz azul... imageticamente lindo.
(sim, Eduardo, nunca é tarde demais pra votar)
Beijo.
Convido-o a visitar minha última poesia...
http://www.overmundo.com.br/banco/com-paixao
Obrigado, Regina. Votei e comentei lá no seu espaço.
Jairo Oliveira Ramos · Aracaju, SE 26/1/2008 21:42Nossa, Jairo! Muito legal, gostei deste, tambem!
heldi dantas · Aracaju, SE 15/2/2008 02:32Que bom você ter gostado, Heldi. Pelo material que você tem, sua opinião pesa muito.
Jairo Oliveira Ramos · Aracaju, SE 15/2/2008 23:05Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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