Sonetos de Mistérios de Alma Welt

A Ronda- Litografia de Guilherme de Faria
1
Guilherme de Faria · São Paulo, SP
10/4/2011 · 2 · 2
 

Minha hospedagem dos poetas mortos (de Alma Welt)

Aqui, no Pampa desta Alma
Os poetas mortos vêm me ver
E hospedam-se com prazer e calma
No casarão que ama os acolher.

E então reunidos no salão
Ou na biblioteca a conversar
Param um momento a confusão
Para em silêncio me ver atravessar

Sorrindo à direita e à esquerda,
Mas na verdade nua como Helena
Para assim poupar-lhes a desfeita

De recebê-los somente bem vestida
E não com a visão que vale a pena
Pois a ela dedicaram sua vida...

09/01/2007



Sonho pampeiro (de Alma Welt)

Pleno pampa poderosa pradaria,
Um céu maior e mais profundo;
De noite as estrelas e seu mundo
A mirar-nos com sobranceria.

Ah! As alongadas sombras das coxilhas,
Pela branca lua cheia a surfá-las
São algumas das tantas maravilhas,
Que eu quisera em sonho suborná-las

E assim, nua, de noite, em desatino
Cavalguei até dormir por sobre a crina
E traída ser trazida ao meu destino,

Pois eu quis perder-me, e feminina,
Ser cobiçada e levada por rei Mino*
Ao seu oculto palácio da campina...

15/01/2007



Noturno (de Alma Welt)

Entre o casarão e o vinhedo
Está o jardim dos meus amores
Que de dia acolhe o folguedo
De guris e gurias entre as flores.

Mas nele eu navego em noite cálida
Sob a luz de uma lua espectral
Refletida e tornando-me mais pálida
Como pequena gôndola irreal

Que singra entre touceiras prateadas
Deixando rastro: cintilantes vagalumes
Companheiros de noturnas caminhadas

Sob a guarda do Negrinho e as Três Marias
Que ainda me protegem dos queixumes
Dos sonhos mortos e das fantasmagorias...

15/12/2006



O espectro (de Alma Welt)

Em noites frias aqui no casarão
Acontece do meu leito levantar
E enrolada num pala ir ao salão
Para sentir o silêncio crepitar

Na lareira, pois ali sou visitada
Por um mundo de imagens agradáveis
Que me trazem poemas inefáveis
Ou alguma coisa inusitada.

Foi ali que num lance inesquecível
O espectro da Mutti afinal veio,
Que fora tanto tempo inacessível,

E que porfim estendia-me os braços
Dizendo:"Filha, faltaram-nos abraços,
Quisera agora sentir-te no meu seio."

16/01/2007



A Mandrágora (de Alma Welt)

"Alma, esta é a mandrágora,
A raíz que grita se arrancada,
Mas não tema, não vou fazê-lo agora,
Pois ainda não estás preparada."

Assim disse Frida, a minha avó
Que tinha um aspecto de assustar
Mas que gostava de encenar
O papel de feiticeira, e era só.

E então, uma noite, eu o fiz:
Fui ao jardim e a arranquei
Puxando pelas folhas a raíz.

Mas o susto foi dela ou o contrário?
Pois o terrível grito eu escutei
Vindo do fundo do meu imaginário...

05/01/2007


Resumo da ópera (de Alma Welt)

Sob o casarão por qual lutava
Foi por mim e meu cunhado descoberta
A grande adega, ao ser aberta
Uma parede secreta que girava.

E foi-nos revelado um tesouro
De toda uma safra dos avós
Que ficara maturando no escuro
Desconhecida de meu pai, de todos nós

Que lutávamos pela casa e os vinhedos
E todos estes belos arredores,
Quando já faltava a temperança.

E foi desta senzala e seus segredos
De infâmia, injustiça e seus terrores
Que surgiu novamente a esperança.

04/12/2006



O Sonho da Alma (de Alma Welt)

Sonhei-me em miniatura e despida
Num berço flutuante e noturno,
Mas eu era guria já crescida
E tornada uma estrela por meu turno,

Que logo revelou-se-me em pavão
Cuja cauda eram contas de mil olhos
Como num mar escuro os abrolhos
Que evitar seria esforço vão.

Mas havia um som vindo do berço
Feito por músicos vestidos de gibão
Que desfiavam as contas como um terço

Dentro daquela nave delirante
Que me punha mais nua a cada instante
À medida que chegava no Sertão.

14/05/2004



O Vento e o Maestro (de Alma Welt)

Ontem soprou forte o minuano
E bateu todas as portas e janelas
E ainda passou por baixo delas
Para fazer vibrar nosso piano

Que pôs-se a tocar feito um espectro
De música, se é que isso houvesse,
Como uma paródia do Maestro
Que legara seu silêncio como prece

Pois pra que este emoldurasse
Sua música e em nós reverberasse
Nosso pai o tocava de outro plano

Então pedi perdão e o dedilhei
Pr'afugentar rei Mino, o tal tirano
Que invadira as cordas do Steinway...

22/06/2006



Memórias do casarão (de Alma Welt)

De noite o velho casarão estala
E geme repleto de lembranças...
Então o imaginário se instala
Nos corações e cobra suas heranças

Que vêm de ainda antes dos avós
E remontam ao "gáutcho" Valentim
Que no comando fez ouvir a sua voz
E teve em si mesmo o seu motim.

No sotão sob a trave onde pendeu
Nenhuma marca no assoalho denuncia
Onde o banquinho rolando se abateu,

Mas o aroma do mate derramado
Quando a cuia tombou sob o enforcado,
Eu julguei sentir quando guria.

14/11/2006



A Abantesma (de Alma Welt)

Ó casarão da minha infância
E que me verá adormecida
No último sono, já sem vida,
Para ser a abantesma desta estância,

Por aqui onde vivi a fantasia
De ser mulher-poema e musa errante
Do meu bosque, do jardim, da pradaria
E de todo o meu pampa circundante

E quando estiver morta, que me vejam
A galopar sob o céu da Branca Via
Nua como em vida já se ouvia

Ou mesmo que não muito créus estejam,
Afirmem pra seus piás e filhas:
"Alma vagou esta noite nas coxilhas!"

18/01/2007



A dama da geada (de Alma Welt)


Esta noite caiu grande geada
Num amanhecer quase europeu,
E vi a pradaria esbranquiçada
Como se fora neve e como eu

Que saí pela campina e evaneci.
"Branca sobre branco" diz Galdério,
Que rindo quis dizer que me perdi,
Pois que não me leva muito a sério.

Mas respondi no mesmo diapasão:
"Não me viste, ó peão, a cabeleira
Vermelha, produzindo aquela esteira

De cometa fiel nas pradarias?
Era eu, e por certo não sabias
Que era mulher, estrela-guia de peão..."

12/07/2006



O Território Mágico (de Alma Welt)

Por uma senda do Pampa, invisível
Caminha o rebanho encantado
Para o território demarcado
Das Missões, onde o Sul é imperecível.

Ali, de noite, reunem-se os peões
Com suas bombachas, esporas e tacões;
As lanças farroupilhas ainda açulam
Imperiais que no sonho capitulam.

Anita é avistada, ah! tão bela!
E o bravo Giusepe se revela
O amante fiel e apaixonado

Que retorna ao Sul com sua nave
Para buscar do amor a própria chave
Que restou perdida neste prado...

15/01/2006



Belas noites de verão (de Alma Welt)

Belas noites de verão, no meu jardim
Dançavam fadas, luzes, pirilampos,
Estrelas magas vagavam pelos campos,
E as horas, propícias e sem fim.

E eu levantando do meu leito
Corria entre as sebes prateadas
Sentindo ser também uma das fadas
Com toda a Natureza no meu peito.

E leve, nua, eu como que voava,
O corpo ainda não se concentrava
Em si mesmo, inconsciente do seu pejo,

Eu só seria espírito e alegria
Se já não despontasse a nostalgia
Da futura antiga Alma e seu desejo...

26/11/2006



A Tentação da Alma (de Alma Welt)

Uma vez estando eu a passear
Pela minha dourada pradaria,
Como de hábito imersa num cismar
Que me levava além da alegoria,

Onde coisas, numes, deuses, tudo junto
Cercava-me e querendo-me com eles,
Eu encontrei um tal Mefistofeles
Que não fazia parte do conjunto,

E este rogou-me desnudar-me
Que queria que queria admirar-me
Prometendo-me tesouro todo à parte.

E eu que não me faço de rogada
Fiquei nuínha, e sim, sem querer nada,
Disse: "Eu mesma sou o Ouro e a Arte!

03/12/2006



No Labirinto da Frida (de Alma Welt)

No jardim da minha avó, um labirinto
Foi plantado por ela, eu o sinto,
Embora há quem o diga mais antigo
E que nisso consiste o seu perigo.

No seu centro toda imagem desvanece
Ou talvez encontre o Minotauro,
Pois parado ali o tempo permanece
Sem passado, sem futuro, sem restauro.

Conquanto fui guria até segura
Sempre passei-lhe ao largo com respeito
Pois prezo demais a minha figura.

Creio, no jardim da velha Frida
Mora o segredo, a causa e o efeito
Do amor e da poesia em minha vida...


05/12/2006



O último concerto (de Alma Welt)

Venham memórias e tragam os amores
Que esta noite entretê-los-ei porfim
No jardim noturno em meio às flores
Sob a lua, como gotas de marfim

Entre coruscantes vagalumes
Num concerto de câmera perfeito
No qual regerei meu coro eleito
De fadas, elfos, ninfas e alguns numes.

Não faltará a voz de sopranino
Do meu Negrinho em Pastoreio
Perpétuo com seus lumes de menino

A perseguir o novilho tão bisonho
Que desgarrado vai como um ponteio
A vagar pelas sendas do meu sonho...

17/01/2007



Adeus Pampa (de Alma Welt)

Adeus Pampa, que a galope estou indo
Pra outros pagos, nua e sem a sela,
Escanchada sem pudores no meu pingo
Que como Eva sou sua costela

Antes da maçã e da serpente,
Infanta da Natura e sem pecado,
Alma pura, erótica e inocente,
A quem só amar foi destinado.

Esperem-me na Noite, ó desejosos!
Poetas, sonhadores de passagem,
Que sob suas cobertas liquefazem

Seus corpos, de graça e fina estampa,
Destilando seus fluidos licorosos
Pela Musa derradeira deste Pampa!

19/01/2007

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Cláudia Campello
 

Os poemas de Alma mexe com a estrutura emocional
despertam ternura, tesao, paixao...
sao perfeitos!!!

bjsssssss

Cláudia Campello · Várzea Grande, MT 10/4/2011 21:59
sua opinião: subir
Guilherme de Faria
 

Obrigado, cara Claudia. Que bom que você os aprecia assim, tanto, como ela merece... Estou muito
gratificado com as suas palavras.
Beijos

Guilherme de Faria · São Paulo, SP 10/4/2011 23:31
sua opinião: subir

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