Sonhos de um Mochileiro Solitário, 03/10, 1o dia

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Renato Amado · Rio de Janeiro, RJ
21/5/2009 · 5 · 2
 

03 de outubro de 2008. Último dia de trabalho antes das férias. Sou convocado à sala da chefia.

- Reinaldo, o que você acha de ficar mais uma semana para terminar suas pendências, tirar férias em seguida e quando você voltar já pode ir direto para a outra área da empresa na qual você quer trabalhar?
- De forma alguma. Já estou com passagem comprada e reservas feitas.

Esse início de dia com uma negativa ao meu chefe encheu-me de confiança. Tinha certeza de que esse fato me daria uma dose de coragem para enfrentar a lata voadora. E, somado à sessão de terapia que haveria no fim do dia, tinha quase certeza – ok, na verdade uma esperança - de que minha viagem beiraria a tranqüilidade.

Cheguei ao psicólogo pontualmente. Sessão extra marcada em função do meu vôo que seria poucas horas após eu abandonar o divã. Aproveitando-se do meu desespero e usando o horário extraordinário como argumento meu mercenário terapeuta cobrou o dobro do preço convencional. Canalha! Usa o fato de conhecer minhas fraquezas para extorquir-me. Mas tudo bem. Num humilde ato de reconhecimento de sua perspicácia deitei-me no divã tentando convencer-me de que uma máquina de ferro de algumas toneladas cheia de gente e mala voar a mais de onze mil metros, onde a temperatura externa é de cerca de cinqüenta graus negativos, é a coisa mais normal do mundo. Sim, coisa mais normal. O que tem demais nisso? Há décadas a humanidade o faz com freqüência e até um mineirinho do interior conseguiu realizar este simples feito há cerca de um século. Ora, plenamente natural. A dois palmos de quem está na janela cinqüenta graus Celsius abaixo de zero. Dentro do avião cerca de vinte e cinco graus positivos. Tudo explicado pela mais comezinha física Newtoniana que qualquer moleque secundarista entende. Natural. Naturalíssimo. Não sei como a humanidade demorou tanto tempo para desenvolver este trivial aparelho. Tivesse eu capital construiria um na área de serviço de minha casa.

Além de me convencer da trivialidade do avião, o que certamente me deixaria tranqüilo, meu terapeuta, como segundo recurso, falou-me para lembrar, em caso de medo, de alguma cidade para a qual eu já tivesse viajado, para desviar o foco do meu pensamento, de modo que eu não ficasse imaginando o aeroplano caindo ou se desfazendo no ar após chocar-se com um OVNI invisível. Pensei então na minha menina dos olhos: Ouro Preto, lugar no qual estive já seis vezes e do qual trago memórias suficientes para ocupar minha mente, me apartando de pensar no fim dos meus dias dentro de uma lata gigante.

Dito e feito. Na decolagem busquei não imaginar que se aquele treco não decolasse e seguisse reto talvez ele batesse no muro que tem no final do aeroporto, atravessasse a avenida que há na frente e parasse na Baía de Guanabara, o que me levaria à morte devido ao impacto ou em razão de trinta infecções generalizadas que contrairia na fétida água da baía que banha parte de minha cidade. Também me esforcei para não pensar na taquicardia que ora me vitimava, nem nas turbinas explodindo logo após a decolagem ou numa gaivota entrado por uma delas, nem no piloto e co-piloto tendo um infarto fulminante simultâneo, ou ainda nas asas se descolando. Muito menos nos flaps dando tilt e ficando para cima e para baixo como que a bater asas, ou nos spoilers se auto-acionando fora de hora ou até no trem de pouso se descolando e caindo sobre um transeunte; tampouco num bug do milênio atrasado ou num homem bomba seqüestrador de aviões reivindicando a independência da Caxemira em troca de nossa libertação. Essa última situação era muito assustadora, mas superada em grau de pânico auto-induzido quando imaginado um gaúcho pilchado, com bombacha e tudo, ameaçando a todos com terríveis boleadeiras e com a horripilante possibilidade de obrigar-nos a beber chimarrão ou tererê e dizendo que só nos libertaria quando fosse declarada a independência do Rio Grande do Sul, que formaria a República dos Pampas, onde o Congresso teria acalorado debate sobre a legalização do casamento heterossexual. Mas mais do que tudo isso me apavorava a possibilidade de batermos em um OVNI invisível. Todas as outras hipóteses pareciam-me, embora temíveis, pouco prováveis. O avião não daria defeito, pois isso é dificílimo de ocorrer. As gaivotas não seriam tão tolas para aproximarem-se tanto daquele algo enorme a menos que o julgassem ser o messias das gaivotas, mas nesse caso tentariam segui-lo e não chocarem-se contra ele, salvo se um grupo destas aves o considerasse um subversivo e decidisse tentar pará-lo para crucificá-lo. Mas isso exige capacidade de contestação e não me parece que gaivotas e cariocas sejam dotados de tal aptidão. Infarto simultâneo do comandante e do co-piloto tampouco me soava provável, bem como não havia alguém com cara de terrorista ou pilchado dentro do avião. Sobrava então, a aterrar-me, a iminência do choque com um objeto voador não identificado e invisível. Ora, esta possibilidade era real! Os alienígenas têm tecnologia avançadíssima e seus discos, trapézios, retângulos e quadrados voadores não conseguem ser identificados a olho nu e nem por radares. Se o piloto E.T. dormisse, portanto, e não visse o avião no qual eu me encontrava aproximando-se o choque seria inevitável e fatal. Ah... mas Ouro Preto.

Lembro-me como se fosse ontem eu com uma menina em um beco, bem como do quinto de ouro que vi na Casa dos Contos, do vômito giratório de cima do obelisco da Praça Tiradentes, do ouro da Igreja do Pilar, do bunda lelê para a procissão, da bem trabalhada fachada da Igreja de São Francisco. Estes pensamentos aliviavam minha fobia, que era fortalecida quando involuntariamente voltava a pensar na aeronave invisível. Desse modo, durante a primeira hora de vôo minha mente vagou entre Minas Gerais e Marte. Mas a partir de então o desconfortável assento passou a ser o foco de minha atenção. Como poderia a cadeira do avião ser tão mais inconfortável do que a de ônibus? Nestes tempos de Acelerador de Partícula foi inevitável indagar-me sobre isso. Ora, se ambas são feitas da mesma partícula primordial, qual seja, o Bóson de Higgs, como pode haver tamanha diferença em conforto? Isso me intrigou. Esqueci das mineiras – aliás, nem deveria pensar nelas, mas nas paranaenses, catarinenses e gaúchas - e dos marcianos. A pergunta sem resposta começou a enervar-me. Tenho a infeliz mania de querer resposta rápida para tudo. Minha mente gira até encontrar uma solução, que pode até ser absurda e desafiar toda a lógica estabelecida, mas é um desdobramento final de um raciocínio, o fim de uma linha. Mas como eu ficaria sem um final para aquele pensamento? Sem uma conclusão, uma resposta? O ser humano não concebe conceitos como "sempre", "nunca", "infinito". Não! Somos lineares. Precisamos de início, meio e fim. E assim deveria ser com as minhas reflexões. Afinal de contas, a única coisa que realmente existe é o pensamento e sendo ele o que há de mais essencial não pode fugir à idéia mais humanamente basilar, que é a de finitude. Mas aquela minha meditação parecia infinita. Isso me irritava em progressão geométrica. Talvez a aeromoça pudesse me ajudar.

- Por que a cadeira do avião é tão mais desconfortável que a dos ônibus?
- Senhor, infelizmente não sei responder a essa pergunta.
- Mas, veja bem, se ambas são compostas pelos Bósons como podem ser tão diferentes?
- O senhor deseja alguma coisa?
- Sim, que você me ajude a achar alguma solução para essa questão.
- Infelizmente não posso ajudá-lo, senhor.
- Claro que não, pela simples razão de que essa questão é insolúvel. Meu Deus! Como o universo é misterioso...
- Algo mais senhor?
- Sim. Vocês possuem algum dispositivo para evitar uma colisão com um OVNI invisível.
- Senhor, nossa aeronave possui todo o equipamento de segurança necessário. Com licença.

A desgraçada foi embora sem pronunciar sequer uma palavra sobre as duas questões que mais afligiam minha doravante agoniada existência. Pousamos. Graças a Deus não houve qualquer colisão. Sorte. Duvido que eles tenham dispositivo de segurança para evitá-la. Dirigi-me ao albergue, onde já havia três franceses hospedados no dormitório coletivo. Já passava de meia noite. Coloquei roupa de dormir e deitei-me. Não reparei muito nos homens do Velho Continente, mas uma coisa era certa sobre eles: também eram compostos pelos Bósons de Higgs.

Sobre a obra

Trata-se do primeiro capítulo de um romance atualmente em desenvolvimento e que pode ser acompanhado em www.renatoamado.blogger.com.br. O romance é livremente inspirado num mochilão feito pelo Sul do Brasil pelo meu alter ego, Reinaldo Amaro.

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André Calazans
 

Caraca, mermão, que maravilha de texto com pensamentos obsessivos e delirantes !!! Nota dez !

André Calazans · Rio de Janeiro, RJ 21/5/2009 23:09
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Juscelino Mendes
 

Longo e incrivelmente belo tais linhas românticas. Abs.

Juscelino Mendes · Campinas, SP 26/11/2009 23:31
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