Soterrado - Crônica ou poema em prosa

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marcio rufino · Belford Roxo, RJ
6/1/2010 · 12 · 13
 

A fúria do mundo explode diante de mim. É duro ver a tera deixar de ser a mãe conformada, resignada; e passar a ser a fêmea irada, revoltada em sua razão. Puta contestadora, indgnada a se rebelar, a esbravejar contra a exploração abusiva de seu corpo. E nós não passamos de vírus, de bactérias amargando sua auto-defesa.

É bom se sentir sozinho na Baixada Fluminense, pois assim quando ela estiver submergida sob as águas das enchentes - Atlântica contemporaneizada entre o teatro do absurdo e o humor negro - o controle de mim mesmo que implica na cruel sensação de não ter feito o suficiente, de não ter amado o suficiente vai doer menos. Assim como vai doer menos a descoberta de que não se é parte do mundo e sim o próprio mundo.

Os livros soterram palavras, pensamentos e sentimentos, mas a natureza soterra pessoas e livros. As casas viram capas de livros semi-abertos sobre o chão, desabados sobre histórias inacabadas; tramas não concluídas; personagens que não se definiram.

Quantas vezes fiz amor com meu travesseiro para calar o faminto felino predador que tentava sair de dentro do meu coração-jaula e devorar sua petitosa presa sobre as poças d'água, sobre os pântanos, sob a chuva. Quantas vezes violentei meu travesseiro para no fim acreditar que era um passarinho a se equilibrar sobre o mais leve graveto, na mais alta abóbada de uma gigantesca árvore qualquer na esperança de poder presenciar melhor a promiscuidade dos relâmpagos e das trovoadas. Tudo isso antes das catástrofes fugirem das telonas de cinema norte-americano e me ameaçarem. Mas agora lembro que não é a todos que meus pensamentos e sentimentos interessam.

Os morros-bibliotecas-encostas desabam sobre casas-livros-enciclopédias onde vivem pessoas-sentimentos-pensamentos-idéias.

Marcio Rufino
Todos os direitos reservados

Sobre a obra

Poema em prosa ou crônica livremente inspirado nas calamidades naturais dessa virada de ano.

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informações

Autoria
Marcio Rufino
Ficha técnica
Poeta e historiador. Integrante do grupo cultural Pó de Poesia.

http://emaranhadorufiniano.blogspot.com
http://po-de-poesia.blogspot.com
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Cintia Thome
 

Somos o mundo não parte e nem a parte.

Muito bom sua eflexao...
bjbj

Cintia Thome · São Paulo, SP 6/1/2010 18:29
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Doroni Hilgenberg
 

Pois é Márcio ...
quando estive no Rio e passei pelo aterro do Flamengo,o taxista nos
falou que ali tudo era agua, foi soterrado ( um trabalho escravo) para dar lugar a cidade.
Por isso e por tanto mais a natureza se vinga.
Pobre dos inocentes, cuja história registrada em livros,
ficará para a posteridade.
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 6/1/2010 19:18
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Juscelino Mendes
 

O mundo intenso e fulgurante em nós
em essência. Muito bom.

Juscelino Mendes · Campinas, SP 6/1/2010 23:08
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azuirfilho
 

marcio rufino · Belford Roxo (RJ) ·
Soterrado - Crônica ou poema em prosa

Belo Texto, Poesia pura sobre a vida.
A Realidade é uma luta danada pelos bens da Terra.
Não há um respeito de a cada um, deacordo com as suas necessidades e sim um processo galopante de acumulação desenfreada e até predatória.
Um salve-se quer puder pelo ouro que até nem precisa de tanto e falta em tantos lugares.
Chegamos a um ponto que falta pra uns e jogam fora em tantos lugares.
Todo mundo não foi atendido mas já há um esgotamento.
Falta organização, falta humanidade.
Há muito saber mas falta compromisso de irmandade.
Em meio a este caos de desentendimento e amor, até a natureza é levada além dos seus limites, e a corda arrebenta em algum lugar.
Geralmente é em cima dos mais humildes.
Uma coisa é certa tem de respeitar senão um dia o barco vira.
Um belo Trabalho que é uma grande Lição de vida.
Parabéns pelo Tema tão Atual e Universal.
Abração Amigo a Todos.

azuirfilho · Campinas, SP 7/1/2010 06:40
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alcanu
 

A Natureza se vingando implacavelmente !
Nada adiantou assistir ao Planeta dos Macacos !
Um beijo !

alcanu · São Paulo, SP 7/1/2010 15:34
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opoertadabaixada
 

Caro Amigo desfilando o realismo cruel duma "Sociuedade" Incauta, pore tantos e tantos ceculos, um sofrido sentimento em tormento, So Deus noo Ceu nas Almas, so Seu filho o Cristo nos acalma!
Nos Seus ensinammentos, no Seu Novo mandamento,
esta o Bem que ha de levar ou trazer a salvaçao para Nos Humanidade, Legiao da Boa Vontade!

votado!
Abraços opoeta!

opoertadabaixada · Belford Roxo, RJ 7/1/2010 17:45
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kfarias
 

Fico triste ao ver a Baixada Fluminense sob a água, as pessoas sorridentes, alegres e felizes que habitam esse rincão agora choram e lamentam, mas so podemos orar, agradecer A DEUS CRIADOR DE TODAS AS COISAS, dobrar as mangas e TRABALHAR, coisa que essa boa gente sabe fazer.
Tenho certeza que dentro em breve a alegria e o sorriso voltará a estampar esses rostos lindos.
Morei em Duque de Caxias, quando criança, e entendo que a falta de diversos melhoramentos faz falta a baixada Fluminense.
Abraços amigo parabéns pelo seu trabalho e vamos a luta
kfarias.

kfarias · Águas de Lindóia, SP 7/1/2010 19:55
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Cintia Thome
 

A fúria está rondando...
Temos que nos unir em orações
e atos do bem
ações já!

Muito Deus nas nossas ações...
abs

Cintia Thome · São Paulo, SP 8/1/2010 08:34
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Greta Marcon
 

Muitas desgraças ainda estão por vir... Os homens não respeitam mais a mãe natureza. O progresso desenfreado é que causam as enchentes.
Quanto mais desmatam, quanto mais asfaltam, mais os rios transbordam. A chuva cai e não encontra terra para sugá-la. Não adianta rezar... o homem tem que se conscientizar...
Abs

Greta Marcon · Ponte Nova, MG 8/1/2010 11:15
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Greta Marcon
 

Votando...

Greta Marcon · Ponte Nova, MG 8/1/2010 11:16
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Adroaldo Bauer
 

os que não se respeitam
predadores são
foram antes soterrados
profanadores são
sem qualquer alarde
exploradores são
de toda a humanidade

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 11/1/2010 16:53
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Andre Pessego
 

Hoje, agora, estou pensando no Haiti. ........
abraço
andré

Andre Pessego · São Paulo, SP 14/1/2010 15:27
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ayruman
 

"Na primeira noite eles aproximam-se e colhem uma Flor do nosso jardim e não dizemos nada.
Na segunda noite, Já não se escondem; pisam as flores, matam o nosso cão, e não dizemos nada.
Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua e, conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E porque não dissemos nada, Já não podemos dizer nada".
(acho que é de Vladimir Maiakóvski)


Bom estar aqui! jbconrado.

ayruman · Cuiabá, MT 15/6/2010 21:06
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