As oito badaladas do antigo relógio ecoaram pela casa. Era o indicativo de que a hora do jantar havia chegado. Silenciosamente, Srª Buckley levantou-se da poltrona junto à janela e caminhou até a cozinha. Lá, tratou de esmagar três ou quatro pedaços de um pão dormido numa tigela repleta de leite. Colocou-a ao lado da porta dos fundos e ali permaneceu, durante cinco minutos, até o gato aparecer. Quando a tigela já estava vazia e o gato satisfeito havia retornado para o quintal com os bigodes brancos denunciando o leite recém tomado, Srª Buckley iniciou o preparo de sua refeição: sob a fraca luz que iluminava a decadente mobília da cozinha, retirou de dentro da geladeira um pequeno pedaço de carne. Embalada por um fino plástico, a carne exalava um odor quase insuportável. Srª Buckley não se importava. Delicadamente, desenrolou o alimento do plástico. O preparo da carne exigia de Srª Buckley uma atenção que beirava a religiosidade, quase um ritual. Sal, temperos, o óleo na frigideira, a forma com que segurava nas mãos o objeto de sua refeição. Acendeu uma das bocas do fogão e levou a carne ao fogo. O aroma – estranho aroma – espalhou-se pela casa, fazendo com que Srª Buckley se desmanchasse em pensamentos. Tímidas lágrimas brotavam de seus olhos. Ao aprontar tudo, calmamente sentou-se numa das pontas da ampla mesa da sala de jantar. Em um delicado prato de porcelana branco, uma folha de alface – que quase sempre não era saboreada, uma mera decoração culinária. Engolia tudo vagarosamente, com o olhar fixo na outra ponta da mesa. O gato aparecera e estava postado ao lado da velha senhora, como que compartilhando o prazer com que ela mastigava cada pedaço. Srª Buckley, hipnotizada, mal notara a presença do animal. Ao finalizar a refeição, levantou-se da cadeira e, com o prato de porcelana em uma das mãos – que o verde da alface fazia parecer ainda mais branco – novamente dirigiu-se até a cozinha. O gato acompanhava os passos da dona. Talvez soubesse o que se sucederia depois. Parada no meio da cozinha, Srª Buckley acendeu uma vela, colocou um véu sob o rosto e iniciou sua caminhada pelos cômodos da casa. Um a um, lentamente, os cômodos eram visitados, iluminados pela fraca luz da vela e com a voz da velha senhora ao fundo, que rezava incansavelmente, baixinho – quase um sussurro. Após a procissão, Srª Buckley parecia aliviada.
Há um ano e três meses a rotina noturna da velha senhora era essa. Há um ano e três meses ela perdera o marido. Câncer nos pulmões. Desde então não saía de casa nem para ir à igreja – costume semanal antes da tragédia que se abatera sobre ela. Srª Buckley passava todas as suas horas, minutos e segundos recordando-se do homem que a acompanhou por mais de 30 anos. Não fosse um antigo freezer que ocupava um espaço dentro do porão da casa, o gato seria sua única companhia. Lá, ela guardava – há um ano e três meses – a razão de seu viver. Lá estava a razão pela qual ela não saía do interior de sua morada e também a razão pela qual preparava com tanto carinho suas refeições, como naquela noite. Dia após dia Srª Buckley descia até o local, abria o freezer e olhava para o rosto pálido, quase desfigurado, de seu marido. Guardado com cuidado, o corpo de Arold Buckley jazia sob proteção incondicional da fiel esposa. Várias partes do corpo do defunto estavam cortadas. Dedos, barriga, peito, pernas, braços. Até o rosto. Todos os dias, no jantar, Srª Buckley colocava para dentro de si um pedaço daquilo que ela julgava ter sido parte dela. Apenas dela.
Sentada novamente na poltrona junto à janela, Srª Buckley, satisfeita, agora alisava com carinho os pêlos do bichano que lhe fazia companhia. Do lado de fora, uma fina garoa descia do céu, misturando-se com a névoa cinza que cobria a rua. O vento soprava por entre as frestas da antiga casa. Era inverno. Uma das estações preferidas de Srª Buckley. Concentrada nos carinhos que fazia no gato, nem percebeu quando Arold Buckley apareceu do lado de fora da janela. Sim, seu velho marido, encharcado pela fina garoa, estava ali. Olhava fixamente ela. Não tinha pedaços do corpo cortados; tinha apenas uma expressão de saudade. O gato foi o primeiro a notar a presença do velho. Num salto repentino, o animal correu na direção contrária, indo se esconder pelos escuros corredores do casario. Observando o bicho se afastar, Srª Buckley suspirou e, ao erguer a cabeça, percebeu seu velho marido no quintal. Ele continuava fitando-a. A chuva, agora mais forte, dificultava que Srª Buckley percebesse o olhar de saudade do companheiro. Sem nada falar, abriu a janela. Um forte vento gelado invadiu a casa, empurrando um vaso da prateleira ao chão, espatifando-o. Assustada, Srª Buckley olhou para trás. Ao voltar seus olhos para o quintal, não encontrou mais o velho. Naquele instante, a solidão de Srª Buckley tornou-se tão doída e desesperadora que ela, sem pensar, correu até o porão. As lágrimas escorriam pelo rosto e a única coisa que Srª Buckley queria era abraçar o corpo retalhado de seu amado. Ao abrir o freezer, a velha puxou o defunto para junto de si. Seu choro era constante. O gato a observava. De repente, como que num ato impensado, Srª Buckley atirou-se para dentro da gélida caixa. Permaneceu por alguns instantes em cima do corpo do marido, em silêncio. Só as lágrimas continuavam a cair. Em seguida, puxou a tampa do freezer e lá se trancou com o esposo. Por todo o porão, ouvia-se apenas o choro abafado da velha, que foi diminuindo...diminuindo...até o silêncio absoluto – que então passou a competir com o som dos pingos d’água que caíam naquela fria noite de inverno. Indiferente ao momento, o gato de Srª Buckley deitou-se perto e, logo, adormeceu. Srª Buckley não se alimentaria mais de sua própria dor.
"Srª Buckley" é um dos meus "xodós" e foi um dos contos vencedores do "6º Concurso Conto e Poesia", promovido pelo Sinergia (Sindicato dos Eletricitários de Florianópolis/SC), em abril deste ano. Será publicado em livro.
Caramba, cara! Antropofagia explícita da mais alta qualidade...
Parabéns! Votarei
Abraço
do cordelista
Obrigado pela leitura, Guilherme!
Grande abraço
Eeeee!!!
Sou fã da Sra. Bucley!
Depois volto pra votar!
Rendo-me á Sra. Bucley
Iniciando sua votação com louvor! Aplausos de pé!
votadissimo!
Beijos poéticos!
Max, que conto arrepiante e bem bolado. Pensei que ela fosse morrer de indigestão, mas a dor também mata. Gostei! meus votos e Parabéns. Bjsss
Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 20/6/2008 10:49Desculpe Thiago, me enganei com o seu nome. Lá esta o Max recebendo os louros pelo admiravel conto que já tem dono. Bjssss
Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 20/6/2008 10:51
Thiago, quase ia perdendo seu texto, que pecado seria...
Rapaz que escatológico e passagens fortes de uma maneira delicada, com tremenda riqueza de descrição conduz o seu leitor pelos infortúnios de uma viúva solitária e seu gato, uma espécie de alter ego indiferente. parabéns...
Votos e abços.
conto estranhíssimo !!!..dá um interessante roteiro de um curta...
casarios...gatos...refeiçoes macabras...amor possessívo...espiritos errantes vagando no inverno...gostei da "tigela repleta de leite"...muito bom !...votadíssimo !
abs
Parabéns pelo conto.
A tristeza da sra. Buckley com a perda de sua companhia de tanta jornada foi muito bem retratada por você, Thiago.
Grande abraço.
Como sempre falo... eita que nóis sô.
Bom demais o conto e confesso, depois de algum tempo sem ler contos me foi muito prazeroso esse reencontro.
Eu agradeço.
Abraços.
Thiago, por instantes, vivi o seu conto.
A tragédia transformou o amor imortal.
Perfeito demais.
Abraço, lindo contador de estórias.
UM amor saboreado de colher, rs (desculpe, mas precisei escrever isso, pois até um pouco medrosa fiquei)
excepcional, um amor insano, só Lacan ou Freud...uma tragédia skespeareana com gosto de Hitckok (mais ou menos)...
Parabens pelo prêmio, bem escrito, fluindo legal, tema muito sério, já que hoje temos tantas barbaries e loucuras,ab.Uau!
Nossa... Bárbaro, Thiago. Parece mesmo um roteiro de cinema. Impressionante e muito bem escrito.
Abçs.
A trama é meio exagerada, mas muito bem tramada, chega a parecer verossímil. Parabéns pelo prêmio - certamente bem merecido.
Abraços.
Nossa, menino!!! Adorei! Li de um fôlego só!! Um "filme" perfeito! Votado, né? É o mínimo que posso fazer diante de um texto maravilhoso como o teu!!Beijos
Lena Girard · Belém, PA 21/6/2008 11:31
Conto muito bem ambientado, com a escrita da modernidade. Parabéns.
Abraço amazônico
Muito bom... narrado de forma bem moderna, como falado anteriormente... o conto se passa de forma leve e ao mesmo tempo tensa... muito bom mesmo!
Eric Araújo · Belo Horizonte, MG 1/7/2008 19:22Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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