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Conheci a Edith de uma maneira pouco usual.
Moro no sexto e estava na sacada pintando uma das pernas da mesa, ainda desmontada, que tinha acabado de comprar na Ikea. Movimento brusco, o pedaço de madeira soltou-se no espaço e despencou lá de cima. Menos mal que no primeiro andar, onde ela mora, as varandas são enormes e com grandes jardins.
Como era de noite, não dava pra ver bem onde tinha caído. No dia seguinte, bati na porta. Abriu uma simpática e sorridente senhora, cabelo pintado de vermelho, sessenta e poucos anos.
- Bonjour madame.
- Bonjour.
- Moro no sexto andar e deixei cair um pé de mesa ontem. Acho que está no seu jardim.
- Ah bon?
Aí ela me convidou pra entrar e não me deixou mais abrir a boca. Desembestou. Falou por longos minutos. Sem respirar, aposto. Fomos procurar a madeira na varanda, ela falando. Achamos, ela falando. Entramos de volta, ela falando. Me mostrou a casa, ela falando.
E falava. Do perigo que era eu ter derrubado aquilo, pois podia cair na cabeça de alguém. Da sorte da peça não ter se quebrado. Do tanto de lixo que os vizinhos jogam pela janela e que acabam no seu jardim. Do ano de construção do edifício. Eu mudo.
Tomou um gole d’água. Era a brecha que eu precisava.
- Merci pour tout madame. Tenho que ir.
- Já?
- Já!
- C’est dommage...
- Oui. Mas obrigado. Disse em português, pra ser simpático.
Foi um erro. Sua mão, que já estava na maçaneta, recuou.
Perguntou de onde eu era. "Bresilien?". Arregalou os olhos e iniciou um outro monólogo, enquanto me mostrava as reformas que fazia em casa.
- Tenho muitos amigos no Brasil.
- Esse banheiro foi todo quebrado pra construir um novinho.
- Adoro o café de lá.
- E a música.
- E a comida.
- Aqui na sala eu vou trocar o piso.
- Já tomei Guaraná Antártica.
- Minha bisavó era brasileira.
- Quero conhecer o Rio.
- A cozinha tá cheia de poeira.
- Acho Copacabana linda pela televisão.
- Pena que eu não fale português.
Pena nada, pensei, enquanto a metralhadora verbal atirava sem dó. Vinte e três mil palavras depois, consegui a segunda trégua.
- Madame, merci. Mas preciso vazar agora mesmo.
- Quer mais alguma coisa, mais água?
- Não, obrigado. A propósito, Je m’appelle Daniel.
- Ah, prazer. Je m’appelle Edith.
- Obrigado, ela disse em português, invertendo quem devia agradecer. Pensei em corrigir, mas acho que mostrava gratidão por ter alugado meus ouvidos.
- De nada. A bientôt.
Na outra semana vi Edith na feira perto de casa. Achei mais seguro acenar de longe.
tags: Brasília DF textos-ficcao daniel-cariello cheri-a-paris paris franca tagarelice textos-literatura
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informações |
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| Autoria |
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Daniel Cariello |
| Ficha Técnica |
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Esta crônica foi retirada do blog Chéri à Paris (www.cheriaparis.blogspot.com), onde conto as "desventuras de um brasileiro da terra do fromage"
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| Link |
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www.cheriaparis.blogspot.com
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| Contato |
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danielcariello@gmail.com
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| Data |
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01/12/2007 |
| Arquivo |
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7 Kb ·38 downloads |
| Licença |
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