TCHAU
Pela porta entreaberta ele disse:
- Vou sair pelo mundo em busca de mim mesmo. Como sou um cara meio confuso e meio perdido, acho que vai demorar um tempo pra me encontrar.
Ela só teve tempo de desgrudar os olhos da reprise do ultimo capitulo da novela, que tinha perdido no dia anterior, e olhar com aquela cara de tonta para ele.
Enquanto ele tirava a chave do apartamento de seu molho e a jogava em cima do sofá, ela se esforça para dar um tom de suplica, de “não me deixe, não me abandone” ao seu olhar; mas não deu tempo.
- Tchau
Foi a ultima palavra que ela escutou saindo da boca dele.
Pelo menos nos últimos 20 anos; pois agora, 20 anos depois, na sua frente, bem na sua frente, esta ele, com uma sacola da Livraria Cultura, no meio da praça.
Ela repete sua cara de tonta amargurada, com duas décadas de atraso e ele vem com uma única palavra.
- Oi
O cérebro dela elabora mil sinapses, todas sem um objetivo definido, criando uma confusão que vageia pela sua cabeça até emergir em seus olhos.
- Que que é? Você esta bem?
Pergunta ele, se esforçando pra deixar claro que aquele encontro inesperado não significa muito pra ele.
“Desgraçado, filho da puta, lazarento,...” pensa a metade esquerda do cérebro dela.
“Quero de abraçar, beijar, trepar, engravidar e ter um monte de filhos teus, antes que você se vá por mais 20 anos, seu “desgraçado, filho da puta, lazarento,...””, pensa a metade direita de seu cérebro.
- Que que é, não vai dizer nada?
Pergunta ele, enquanto ela só não se divide em milhões de pedaços e cai esmigalhada no chão da praça, porque não sabe como se auto-esmigalhar e cair em milhões de pedaços no chão da praça.
- Ahn,..., é que.....
E para, pensando que deve estar parecendo patética. Não consegue falar mais nada, pois tem certeza de estar parecendo patética.
- Vai, fala mulher!
Brinca ele, a chacoalhando pelos ombros.
- Parece que viu um fantasma...
Ela tem certeza que esta vendo o pior de seus fantasmas. E o melhor deles também. O mais odiado, o mais amado, o mais desejado, o mais indesejado dos fantasmas.
Vinte anos de amargura, solidão, desprezo, lagrimas solitárias e tudo mais que uma mulher abandonada pode sentir, são condensados nos poucos segundos que se passaram desde que ele disse ‘Oi’.
Seriam necessários uns dez anos para que pudesse se recompor e responder ‘Oi’, mais ai ele já estaria longe. Esse é o único pensamento que seu cérebro consegue elaborar. E não é um pensamento tranqüilizador.
Seu pânico aumenta. Ela balbucia:
- Ahn,..., é que.....
E para.
Ele da um sorriso – ou ele esta rindo dela? – e diz:
- Acho que você já falou isso.
E agora sim, após ter dito isso ele ri. Dela?
- Ta bom, já que estamos em meio a uma conversação muito variada, vou repetir “Vai fala mulher!”.
Diz isso e continua rindo.
“Desgraçado”. Quando sua língua esta prestes a pronunciar o veredicto que vem lá do fundo do seu cérebro, chega outra ordem contraria – “Meu amor”.
E assim o tempo passa, enriquecendo, construindo e solidificando o relacionamento entre os dois ali no meio da praça.
Até que ele, já farto de ficar sorrindo sozinho, diz.
- Tchau.
E se afasta, calmamente.
Mini-conto sobre dificuldade de se 'abrir' ....
Oi Heraldo, eu já conhecia esse conto e acho que é um texto original (pela dualidade entre pensamentos e diálogos) e muito interessante. Votado e espero encontrar outros textos de sua autoria no site.
Isabel Furini · Curitiba, PR 8/1/2009 09:20Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!