TEMPO DE TRANSIÇÃO
Sou homem de um tempo de transição. Mas ainda hoje as marcas dos velhos métodos de ensino superados pela racionalidade me trazem recordações nada agradáveis. Atualmente quando alguma dor me confrange a alma, vêm-me à lembrança os castigos sobre os grãos de feijão ou de milho. Nunca esse castigo foi capaz de gravar pacífica e rapidamente a tabuada em minha memória, mas deixou indelével a sua associação com a dor. Esclareça-se: quando ainda menino, no colégio não havia mais essa prática. Mas ela resistia em casa como um ranço autoritário que necessitou de quase uma geração para findar.
Quando minha mãe dava-me a tarefa de ir à venda, era um tormento.
— Vai lá e compra um quilo de feijão.
Ia entristecido. Voltava para casa com o embrulho de um quilo de feijão, sopesando-o e refletindo. “Quantos destes grãos serão usados no castigo?” Por vezes desejava jogar o embrulho em alguma sarjeta e tartamudear uma desculpa qualquer. Mas sabia que seria desmascarado e aí não seriam cabíveis horas e horas sobre os infernais grãos. Apanhava de cinturão até os vergões de sangue denunciarem a hora de parar.
— Vai e prepara a salmoura — dizia minha mãe apontando a cozinha para a cura.
Ia fungando, o choro mal contido querendo convulsionar-se.
A ordem vinha ríspida, quase gritada:
— Entope agora, ou queres mais?
Determinada vez, talvez um domingo, pois eram nessas ocasiões que minha mãe perfilava a prole de sete filhos, à tardinha na alta calçada de casa, banhados, penteados, bem vestidos, dóceis e obedientes em suas cadeirinhas preguiçosas, vi um faquir. Foi numa revista O Cruzeiro que folheava ao colo. Estava o homem magérrimo deitado sobre uma cama de pregos. Pensei assustado no quanto devia sofrer naquela posição expiatória. Não? A sua expressão angelical contradizia as minhas apreensões. Olhando as outras crianças e os adultos desfilarem na rua como se estivéssemos num cinema assistindo a um filme, pensei numa saída. E se aprendesse com um faquir a sua técnica de resistir à dor? Seria o máximo. Poderia passar horas e horas sobre grãos sem amofinar, sem render-me incontinenti à obrigação de decorar a tabuada ou os nomes dos planetas do Sistema Solar.
Virei para minha mãe que acalentava o irmão caçula e perguntei:
— Mãe, a Índia é longe daqui?
— Por que essa pergunta, menino?
— É que gostaria de conhecer um faquir.
— E por que isso agora?
Chateei-me e senti também o sangue gelar. Em casa toda pergunta dos filhos gerava uma outra dos pais antes de uma resposta. Devia ser o “olho vigilante dos pais sobre os filhos”, como minha mãe dizia à vizinha cada vez que esta vinha comentar e choramingar as peraltices do filho mais velho com ela.
— Por nada...é que ele me ajudaria na dor dos joelhos sobre os grãos de milho — rendi-me ao olhar intrigado de minha mãe.
Num safanão a revista voou de minhas mãos.
— Para evitar a dor, estudas direito; só isso. Não vais querer ser como o filho da dona Carmelita, peralta e burro, vais?
Abaixei a cabeça, pus as mãos entre os joelhos e pressionei-as em sinal conciliador.
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Conto maravilhoso, Leandro.
Bom mesmo!
Abçs.
jjLeandro,
estou lhe mandando merecidamente para o banco.
Um forte abraço
Conto excelente delatando a vida autoritária na educação de uma geração que quando jovem gritava "Liberdade", pois era essa que queríamos, liberdade dos castigos. Recebi esse tal de ajoelhar em milho na escola, mas em casa, só meus irmãos mais velhos tiveram esse sofrimento, mas sempre eu tinha o receio de chegar a minha vez. Não sei se essa educação foi tão boa, que não podíamos olhar "olho no olho" e um olhar dos mais velhos, já era "uma sentença", não havia diálogo. Traumas e traumas que não sei até que ponto sanamos no decorrer dos nossos anos??? Hoje acho que os pais recebiam esse modo de agir, uma herança não tão boa...
JJ Leandro, perfeito. Adorável fim, menino...
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