É que de repente me deu um medo todo ressabiado, como o do cão que já foi abandonado, e farejando mudanças pressente instintivamente a iminência de mais um provável abandono do seu novo dono.
Não sei o que é, e se algo mesmo virá a ser, senão a alucinada propagação de mais um fugidio querer.
Eu de caçador sou caçado e surpreendido, finjo que sou o que sou, a presa da caça,e eu não fujo. Eu ao menos tento convencer como caçador, e bravo, brado nos prados ou florestas ao meu modo, esboço um sorriso lacônico, e mantenho meus olhos bem vivos.
Estou aqui, não estou?
Você na sua cilada de amor armada traz na boca as palavras como iscas sedutoras, e assim, captura-me, rapta-me, ata-me!
E eu, cão andante sob a luz de mercúrio que em amarelo acobreia as calçadas, desenhando e dando vida às sombras desencadeadas, espero indolente aquele seu afago solícito, implícito no jeito de falar comigo, e eu, explicitamente irracional, quase em ganidos, te mostro a minha necessidade carente em querer ser o teu amigo, companheiro de verdade. Nem mais, nem metade.
Mas por que tocar nesse assunto com tanta humildade, de orelhas baixas, olhar de soslaio, e rabinho entre as pernas?
Não!
Estou aqui, não estou?
Você agora é isca viva que de longe faísca em desejo e amor. Eu sou caçador, acompanhado do cão domesticado que sou.
É disso que tenho medo dentro deste outro começo.
Você me chamou de volta, eu ouvi, gani arredio, e depois, aos poucos, fui soltando meus latidos em lamúrias, até que levantei os olhos, apurei as orelhas, arreganhei os meus caninos, e de rabo teso, e faro apurado, capturei o perigo, e sigo o caçador acossado que agora sou.
E, embora temendo o fantasma do abandono, me encorajo a entrar na sua armadilha, me transmutando de presa para atrair a caça camuflada em saborosa isca.
Do que era mesmo que eu estava com medo?
Ah, sim, do depois resultar em outro abandono das minhas carcaças deixadas ao relento para o deleite das hienas.
Abra Ao, junho de 2008.
Não sei jogar xadrez nem cavalgar com elegância.
Mas filho de Oxóssi Caçador, que sou, monto no meu cavalo, desembainho uma flecha pontíaguda, letal e envenenada com essências, e ameaço galante, o trono da Rainha sem rosto.
Nada melhor do que o tabuleiro que ao final vc utiliza como arena. A caça descuidou da rainha, provavelmente pq ao sair com as brancas numa clássica Ruy Lopez 1e4 e5 2.Cf3 Cc6 3.Bb5, durante o jogo descuidou da defesa de sua Rainha.
E o caçador contra-ataca com seu cavalo negro, num eficiente e clássico Gambito Espanhol, ao som de uma das línguas da paixão
Prefiro sempre as pretas que contra-atacam.
Maravilla, Sr! Olé
Compulsão Diária · São Paulo (SP) · 28/6/2008 02:24
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Bea,
Um dia um amigo tentou pacientemente me ensinar a jogar xadrez.
Perdemos a paciência ambos, e descamabamos na cerveja.rsss
Mas a vida me ensinou a ser caçador sem prededar inutilmente a caça. Caço apenas o suficiente para o meu sustento de alma.
Depois hiberno. Se algum perigo acena no meu caminho, aí, já é outro "Porém..." Oxóssi me toma, e aí... já era.rssss
Beijo e obrigado. AbraAo · Rio Branco (AC) · 28/6/2008 02:43
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Fantástico... Simplesmente fantástico.
Boa, Abraão. Benny Franklin · Belém (PA) · 28/6/2008 07:05
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Cinematográfico, como sempre, Ab, ouso sugerir-lhe uma trilha incidental para essa Obra-prima: http://www.youtube.com/watch?v=Nwp77sIfFcI
A temporada de caça está aberta, meu brother !
Um abraço ! alcanu · São Paulo (SP) · 28/6/2008 16:13
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Benny Franklin,
Obrigado, assim você me enche de mais entusiasmo.rs
um abraço. AbraAo · Rio Branco (AC) · 28/6/2008 22:57
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Al, que bom você ter vindo aqui e querendo me convencer que tenho vocações cinematográficas, é muito bom para quem é um cinéfilo como eu.
Uma questão mínima, talvez um pedido de sugestão ou opinião, quem você acha que dirigiria esta cena deste conto?
E mais, qual seria o nome do filme?rs
Obrigado pela sujestão da trilha sonora, mas a Donna Bea chegou primeiro.rssssssssss
Um abraço. AbraAo · Rio Branco (AC) · 28/6/2008 23:45
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"A temporada de caça está aberta"
Reitero as palavras de Alcanu.
Cherry Blossom diz:
__Todo predador um dia vira presa em alguma esquina oculta do coração.
Que Deus então me livre de mim, pois me faço escravo dessas doces algemas...
Eu caço e sou caçado, me faço de presa do que caço.
Um canto-conto de encantos, de entrega, sujeição e submissa altivez
Lindo de viver!
beijos
Cherry Blossom · Dracena (SP) · 29/6/2008 02:51
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'Caça e caçador' que és, tua presa está em apuros. Como caça, até podes fingir ser uma indefesa presa, mas jamais se entrega ou "abaixa as orelhas" em obediência ou submissão.
Como caçador, hum... acho que a tua caça é uma presa fácil dos teus 'ganidos e latidos'. Só resta saber se como 'caça ou caçador', tornam-se bons amigos e companheiros. Ou será que tudo vira carcaça para as 'hienas'?
Bravíssimo!
beijinhos Branca Pires · Aracaju (SE) · 29/6/2008 08:47
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Hum.. Abraão, que legal essa caça misturada de caçador e cão, com o mesmo fim, mas colocado no risco de ser caçado!
A vida muito bem refletida em seu escrito denso, circular espiralado de túneis labirínticos, e, ainda uma alusão ao jogar xadrez, metáfora rica da estrada/caminho/tabuleiro da nossa existência.
parabéns
abços Cristiano Melo · Brasília (DF) · 29/6/2008 11:11
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Cherry, menina.
Olha eu ontem mesmo me vi dançando pela casa, cigarro entere os dedos e sorriso satisfeito na boca cantante.
Pois bem, hoje, numa dessas esquinas de corações ocultos, senti no pescoço um roçar de uma laçada, ainda sem apertar, ainda roçando.
e te digo, nem sei se vou saber me disvencilhar, ou se vou preferir que o nó seja apertado de vez, e eu de caçador, sou caça, sou dor.
Beijo, e obrigado por sua vinda e suas palavras. Bem a tempo. AbraAo · Rio Branco (AC) · 29/6/2008 20:00
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Cristiano,
É meu amigo, a vida é labiríntica e se você perde por um segundo o fio da meada, Ariadne distraída e descuidada, dá um aceno de mais nada, e quase nada aconteceu.
Bem, de jogo de xadrez sei apenas o nome das pedras, as cores, e alguns movimentos, mais nada, não tenho saco, nem disposição, nem interesse por jogar xadrez, mas penso que deveria, então eu sairia ileso dessas caçadas onde eu sou cão e caçador apenas sabendo ser estratégico e usar bons argumentos.rsssssssssssssssss
Acho que viajei, mas ficou bonito, vou deixar, preciso massagear meu próprio ego, já que hoje não tem que o faça.rsssssssssssss
é foda!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Um abração. AbraAo · Rio Branco (AC) · 29/6/2008 20:08
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Branca,
Sabe que agora eu não sei mais de nada dessa caçada?rsssssssss
Bem, só pesso encareçidamente, que deixem as minhas carcaças para as Hienas, ao menos elas são as únicas que sabem agradecer com deveras alegrias alimento que lhes são deixados, resfatelam-se dando risadas.
Também gosto da opção "Crocodilo" que divinamente vertem águas dentro das águas de tão felizes em estarem devorando as suas presas.
Lembrei do Al Capone do D'Palmakkkkkkkkkkkkkkkkkk
Ouvindo ópera chorando emocionadíssimo, enquanto seus capangas fodiam com quem ele mandasse.kkkkkkkkkkkkkkkkk
La Doce Vida!!!!!!!!!!!!!!!!
Branca, desculpa, nem era para tudo isso, só peguei teu gancho para dizer que é isso mesmo, "Um dia da Caça, outrro do Caçador" nessa trilha sem mais sonrosa armadilha, eu de Maravilla, fui ísca e não sei mais quem sou.rssssssssss
Beijão obrigado por ter vindo.
Repetindo o mestre Benny: Fantásticos teus trabalhos, sempre, AbraAo.
É mesmo tênue a linha que separa a caça do caçador...
abraço Nydia Bonetti · Campinas (SP) · 29/6/2008 22:03
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Oi Nydia,
é bem tênue mesmo, tanto a que separar a razão da loucura.
Um abraço e obrigado por sua visita, Mestra. AbraAo · Rio Branco (AC) · 29/6/2008 22:09
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O caçador fingindo ser caça ou a caça fingindo ser caçador?
Gostei do seu trabalho.
Beijo. Sônia Brandão · Bauru (SP) · 29/6/2008 23:18
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Sônia,
Sempre o ambivalente, o ambíguo, o antagônico, completando o todo da gente.
Um abraço e obrigado por ter vindo. AbraAo · Rio Branco (AC) · 29/6/2008 23:20
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boa caçada : caça ou caçadora Compulsão Diária · São Paulo (SP) · 30/6/2008 01:13
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caçador, ops Compulsão Diária · São Paulo (SP) · 30/6/2008 01:14
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alcanu · São Paulo (SP) · 30/6/2008 01:43
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Votando!
beijos poéticos celina vasques · Manaus (AM) · 30/6/2008 08:15
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Beijos nessa linda manhã! Cherry Blossom · Dracena (SP) · 30/6/2008 09:08
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Mineiramente ( votando em silêncio, rssssssssss ), comendo um delicioso pão de queijo ( mais mineiro é impossíver... ) nesta espendorosa & Shakesperiana manhã de verão ( ah, estamos no Inverno ? me esqueci ) e ouvindo doces trinados de pássaros que insistem em fazer ninhos, aqui perto da Marginal...
Quem odeia as segundas ?
Um abraço !
alcanu · São Paulo (SP) · 30/6/2008 11:30
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Imaginei você dançando,mas se estivesse perto tiraria o cigarro e o acompaharia na dança
Beijos e votos Ailuj · Niterói (RJ) · 30/6/2008 12:51
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"Do que era mesmo que eu estava com medo?"
É sempre assim. Caminhamos, fazemos, acontecemos e acabamos por esquecer os malditos medos.
Seu texto faz doer por dentro, mas, é muito, muito bom.
Abraço! Beto Mathos · Vitória (ES) · 30/6/2008 13:45
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Deixei meu carinho!!
Gostei!
Beijossssss Ilia Noronha · Manaus (AM) · 30/6/2008 14:50
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Mais um texto simplesmente único! Escrito com alma e caneta... parabéns Abraao!! Eric Araújo · Belo Horizonte (MG) · 30/6/2008 14:56
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Abrãao
Gosto do seu estilo na prosa.
É contundente.
Um abraço EdimoGinot · Curitiba (PR) · 30/6/2008 20:15
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Sua prosa poética e flecha certeira do Cavaleiro de Aruanda. Eu, como bom filho de Ayrá, irmão do rei Xangô, admiro o que é belo. E o teu texto é belo.
Abraço grande. Peterso Rissatti · São Paulo (SP) · 1/7/2008 01:00
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Ps: É flecha certeira... rs Peterso Rissatti · São Paulo (SP) · 1/7/2008 01:00
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VALE MESMO É TER A CORAGEM...
Em tudo na vida! Enfrentar com altivez, sem medo de arriscar...
Voto certo.Um bj
Sílvia silviaraujomotta · Belo Horizonte (MG) · 2/7/2008 11:53
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Dora Nascimento, caçadora caçada. Compulsão Diária · São Paulo (SP) · 2/7/2008 12:14
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Gostei do texto. Parabéns! Nattércia Damasceno · Rio Branco (AC) · 2/7/2008 17:26
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Abrão, ótimo conto
Esse medo de ser abandonado é inerente em todo o ser humano. Mas as vezes somos submissos demais o que facilita a temporada de caça e um descarte iminente.
Bjssssss
Doroni Hilgenberg · Manaus (AM) · 7/7/2008 18:03
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Votei,pq adorei,bjssss e boa noite!!! Elliana Alves · Petrolina (PE) · 7/7/2008 22:57
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ABRÃO,alas que "um deus do olimpo anuncia a sua chegada'' e permanência também! NUNCA LI,OUVI,OU VI,NADA MAIS SEDUTOR...faltava vc entre os humanos,para verter o mel da terra,a vida seria impiedosa,se nos ocultasse essa bela fera,que dilacera as entranhas latejantes, das fantasias das fêmeas e dos ditos machos,pois em se tratando de um texto,delirantemente delicioso e fêbril,todo o resto fica fora de contexto,e a dualidade existente em cada um de nós,arrebenta as grades de qualquer estrutura,aparentemente bem concebida(sem pecado,amem!) ODORE DI PECCATO,INTORPIDENDO LA MIA MENTE,ANIMA SELVAGGIA,LACERANDO LA CARNE ARDENTE...IO VOGLIO É RIMARE PAZZA,DI QUESTO NE HO CONSCIENZA!!! POICHÉ LA VITA È VOLATILE E SOLTANTO LA MORTE È CONSISTENTE...(Jacinta Morais) JACINTA MORAIS · Cascavel (PR) · 6/10/2008 05:03
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