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Ter ou não ser. Eis a consumação.
Sérgio Franck · Belo Horizonte (MG) · 9/8/2007 10:28 · 118 votos · 5 comentários ·  
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overponto
Franck

Ter ou não ser. Eis a consumação.

As lojas vendem sonhos eletrônicos de consumo em mil enganosas suaves prestações que são, aparentemente, irrisórias quantias. Nunca foi tão possível ter em casa um pomposo aparelho de TV colorido de vinte e nove polegadas. É o que pensa o assalariado, sempre às franjas da sociedade elitista consumista. O refém dos exaustivos anúncios empurrados aos lares pela mídia televisiva.

A mulher, cobra do marido:
_Como assim num podemos ter? Até a Maria, que num tem nada, tem uma televisão maior. Quero ver a novela bem grande e coloridona.

O marido, sem reação, no mesmo dia segue acompanhado da esposa até uma das trocentas lojas de eletrodomésticos situada ao centro da cidade.

Lá, o vendedor empunhado de calculadora e de uma poderosa lábia treinada, propõe dividir em trinta e seis parcelas iguais, o valor do aparelho de TV. Sorri, como se estivesse fazendo um grande favor ao humilde casal.

Pouco importa a esposa, saber que estariam pagando o preço de nada mais, nada menos, que dois aparelhos invés de um.

O marido, ao fazer algumas continhas, percebe o preço abusivo cobrado pelo vendedor e, choraminga meio que envergonhado, um descontinho nos juros cobrados. De repente, um medo danado de chamar para si as atenções alheias, o deixa retraidamente envergonhado. Pensa o humilde homem que, embora estivesse prestes a reivindicar um direito de cidadão, a vergonha estava ali instaurada e irredutivelmente implacável.

A mulher o belisca no braço, a dar um tiro de misericórdia em sua anêmica reação:
_Zé, mas que coisa feia. Os outros tão vendo a gente. Deixa de ser pão duro, homem!

Zé, humildemente impotente, aquietou-se sob duras broncas da mulher, que concluia os cochichos compreensíveis do marido:
_Quem não deve não tem...

A esposa sentiu-se tão poderosa quanto qualquer outra indivíduo no interior daquela loja. Só faltou a ela escrever na própria testa e, de batom vermelho:
"Eu acabo de comprar e, não é da conta de ninguém, se de trinta e seis vezes, um aparelho de TV de vinte e nove polegadas".

O marido Zé, sentindo-se legalmente roubado, só faltou escrever no peito e com lágrimas:
“Eu acabo de ser assaltado, e não é da conta de ninguém, se de trinta e seis vezes, um aparelho de vinte e nove pauladas”.


tags: Belo Horizonte MG textos-ficcao textos-literatura
 
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Autoria   Sérgio Franck
Ficha Técnica  

A expansão do setor dos eletro-eletrônicos no mercado interno e, o juros que beneficia somente aos grandes empresários do país.
Os preços maquiados e abusivos dos aparelhos vendidos no varejo dominado pelas mega-redes varejeiristas de podres de ricas.
Utilizam da Tv para alienar os desinformados consumidores de baixa-renda.

Contato  

ser.s@ig.com.br

Data   09/8/2007
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Franck.
Belo texto amigo e contiamos pagando pelo poder dos donos do dinheiro.
Abraços.
Noélio Mello
Noelio Mello · Belém (PA) · 8/8/2007 15:05 
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FRANCK,
ótimo texto, cena comum de todo dia nesse mundo consumista. E com doses de humor.
Abçs de Betha.
BETHA · Carnaíba (PE) · 8/8/2007 19:51 
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Aposto que voce viu isso nas Casas Bahias, mais precisamente na Rua Tupinanbás, bem no centrão de BH. Votei, viu, vizinho. Que pena não ser mais perto pra te mandar um bolim quentim com cafezim.
anamineira · Alvinópolis (MG) · 8/8/2007 19:53 
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Infelizmente é o dinheiro todo-poderoso que rege a sociedade...
B.Cardoso · Curitiba (PR) · 9/8/2007 11:15 
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É o cotidiano difícil de retratar, vc tem este dom. Tornar o comum, uma história deliciosa. Muito bom.
giselle sato · Rio de Janeiro (RJ) · 18/11/2008 15:13 
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