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TERNO BESTIÁRIO DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS

1
ANIBAL BEÇA · Manaus, AM
23/5/2008 · 107 · 17
 

O GALO



Aníbal Beça ©



Meu galo se alaga
no lago da noite
meu galo de gala
meu galo do sonho
meu galo guerreiro
pousado de pé
de bico calado
a crista arriada
repousa o guerreiro
caído num galho
sonhando com luzes
de novas ribaltas
batalhas em rinhas
duelos de faca
em campos de liça
torneio de canto
e trompas de caça

Um sonho de nobre
de porte imponente
nos trajes lustrosos
um sonho de imagens
um sonho de vozes
de galo burguês

Seu sono é calado
nem ronco se dá
mas muito falante
no sonho sonhado
dos feitos passados
colar de vitórias
no seu calendário
derrotas não há.

No sonho falante
o velho gogó
do seu velho avô
cantou em pelejas
com Napoleão

Mas não foi à Rússia
(estava gripado)
nem a Waterloo
(alérgico ao fog)

Como bom francês
seu pai entoou
com muita firmeza
— herói da bastilha —
marcha marselhesa

E com seu bodoque
de bom falastrão
o sonho se atira
pedra vaidosa
num toque de mimo
ao galo Le coq
Esse galo símbolo
do orgulho francês
e do alto do cimo
meu galo de gala
diz-que era seu primo.

O que negou Cristo
ao lado de Pedro
não era parente
nem de afinidade

Mas foi Don Juan
salvo por seu tio
numa madrugada
em Andaluzia

Meu galo de gala
de tanto sonhar
se afoga no sonho

Súbito uma gota
de orvalho raiada
cai-lhe sobre os olhos
regando de novo
a eterna tarefa
a simples tarefa
pedrez carijó
de galo operário
acordando o dia
de clara beleza
na festa do sol

Eis meu galo velho
nobre por ser simples
este sim meu galo
galo garnizé
tão esganiçado
querido de guerra
que come minhocas
que cisca o terreiro
que cobre as galinhas
que canta em tom forte
alegre em ser galo
galo simplesmente
o pai-de-chiqueiro
o galo do dia
o galo da tarde
o galo da noite
galo madrugada

O galo de gala
de sonho afetado
tão aristocrátrico
nunca foi nem será
meu galo de fato
que fique bem claro
com toda certeza
o galo de gala
de penas de arminho
deve e será sempre
galo de direito
galo do vizinho

Ainda que meu galo
galo do meu sonho



TRÊS HAICAIS

Aníbal Beça ©


Quando o gongo bate
É hora que aflora a espora
Do galo em combate

O touro na arena
é langue de olhar exangue
nos olés sem pena.

Vôo de bacurau –
candeia em luz que semeia
os grãos do cacau.


O GATO



Aníbal Beça ©


O gato aparece à noite
com seu esquivo silêncio
de passos bem calculados
num jogo de paciência
as garras bem recolhidas
na concha de suas patas

O gato passeia a noite
com seu manto de togado
como se fosse um juiz
de presas resignadas
à sua sentença de sombras
seu apetite de gula

O gato varre essa noite
facho de suas vassouras
vermelhas de olhos ariscos
e alcança nessa limpeza
o movimento mais presto
o guincho mais desouvido

Mais que perfeito no bote
(tal qual Mistoffelees de Eliot)
do pulo que nunca ensina
tombam baratas besouros
peixes de aquário catitas
ao paladar sibarita

Nada à noite falta ao gato
nem a presteza no salto
nem a elegância completa
do seu traje de veludo
para o baile dos telhados
roçando as fêmeas no cio

O gato é ato em seu salto
e a noite luz do seu palco:
ribalta luciferina
lunária ária da lua
na réstia de seus dois gozos
é felix feliz felino

Guardei a sétima estrofe
para o canto do mistério
das sete vidas do gato
e seu tapete aziago
nas noites de sexta-feira
há provas do seu estrago.



DE LOBOS E CAVALOS


Aníbal Beça ©


Cavo a cova como um cavalo os cascos cava
se no cavá-lo invoca a fúria de ferir
E tanto mais se cava que a alma não se lava
e as águas já me levam léguas a fingir

Cava costura cavo à cava enviesada
e o talhe tinge a sombra em descaída pena
Nessa escritura a sina foge desgarrada
e o corte torce a mão e a garra do poema

E dono não sou mais senão o torto artífice
dessas linhas traçadas a dois e por um
E assim me assino esse uno e esse outro Majnun
que por louca paixão da noite é seu partícipe

mesmo sem Laila veste a dor e se vislumbra
nos lobos do deserto donos da penumbra


O CÃO

Aníbal Beça ©


O cão da caravana acoita sarnas
pelos pêlos tragados de suor
que encarnam carnaduras já de cor
na salteada costa descarnada

O cão da caravana esconde as armas
o fogo e a cinza dessa cauda cor-
rente ao dorso de estrelas apagadas
se acendem cimitarras para a dor

Ao relho e aos ossos pó entre mil noites
dita a desdita escrita: Maktub!
E o cão se assenta dócil para o açoite

Mas lhe aguarda a tarefa de quem ladra
e exorcisa a baraka dos impuros
enquanto a vida caravana passa


PIRILAMPO BOCAGIANO

Anibal Beça ©


Caga brasas lampeiro o pirilampo
perdido nas faíscas pela noite;
luz e lanterna, círio do meu campo,
varre em vassoura o lume, seu açoite.

Corcel de fogo, chispa em sua fina
chuva de mica, esmalte de verão;
vaga música, flauta tão varzina,
que fenece ao seu ato em claridão.

Semeador de estrelas mais cadentes,
exercita o labor no maior brilho
em rasantes passeios fluorescentes.

Nesse rastro que deixa é que vagueia
a chama dos possessos e poetas
esteira estelar, múltipla candeia.


GALO BAUDELAIRIANO

Anibal Beça ©



O canto que inauguras para o dia
soa a furto das horas mais escusas.
E um dó-de-peito trai a melodia
como o punhal de um Brutus frio que usas

para assassinar a última estrela.
Dualidade estranha que se encerra
nessa canção agônica que, pela
marselhesa, no canto livre enterra

a derradeira valsa monarquista?
E a Pedro por três vezes balançaste;
e ao amante anunciaste-lhe a conquista?

O sol é que celebras por inteiro
na rima do teu canto em cinco notas:
dobrado militar, galo guerreiro!


BARATOLÁRIO

Aníbal Beça ©


Herança de tio –
Por ser de letras restou-me
baratas e livros.

Abro o velho livro –
Barata finge-se morta
junto à rosa seca.

Nem com naftalina
consigo afastar seu cheiro –
Barata cascuda.

Torneio de cuspe –
Corre de um lado para outro
a barata tonta.

Barato de hippy –
Quem será que envernizou
a asa da barata?

Ah, Barata maldita!
Quantos séculos e séculos
vens me atormentando.




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graça grauna
 

...menino Beça... esse terno bestiario franciscano quer ler, degustar com bem calma e voltarei e votarei e baterei novamente à porta da tua doce poesia. Ontem ao ler uma monografia de uma aluna minha, sobre Direitos Humanos e Literatura deu alegria de ver seu nome lá; orientei um trabalho intitulado "a poetica dos diretitos humanos em Thiago de Mello". Muito bonito. Bom mesmo. E vontando ao doce bestiário, confirmo que vou voltar...Bjos de luz, meu querido poeta amazônico. Com abraçares, Grauninha

graça grauna · Recife, PE 20/5/2008 13:06
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Lena Girard
 

Adorei teus textos! Gatos, galos, baratas, cães, pirilampos, touros, bacuraus. Brincas com as palavras magistralmente. Os bichinhos quase parecem como nós, iguais. Dá-nos a sensação de sermos íntimos deles. Volto, viu?

Lena Girard · Belém, PA 20/5/2008 13:10
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ANIBAL BEÇA
 

Grauninhae Lena, obrigado pela visita e leitura. Sou um apaixonado pelos animais.

Beijos

ANIBAL BEÇA · Manaus, AM 20/5/2008 19:23
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brigitte
 

Anibal,
odeio baratas e amo os gatos e sou admiradora de São Francisco de Assis ( o verdadeiro santo).
Fantástico como descreves cada animal, em detalhes de atitudes e significados!
Até o voto!

brigitte · Goiânia, GO 21/5/2008 23:03
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Patipetista
 

Puxa vida !
gostoso de ler...[:)]
Bom feriado !

Patipetista · Santo André, SP 22/5/2008 03:43
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Raiblue
 

Maravilha,Aníbal!!

Amei todos,mas ressalto 'O galo'....muito linda a construção...que cenário que vc pintou...as personagens que foram surgindo....o jogo de palavras...a poética... demais!
Encantada....
Muitos beijinhos azuis e ternurinhas..meu querido...
Rai..blue

Raiblue · Salvador, BA 22/5/2008 08:49
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Noelio Mello
 

Anibal.
Teus versos de tão sensíveis são como almas que partem rumo aos céus. Li teu perfil. Maravilhoso. É uma honra para o overmundo a tua presença.
Forte abraço
Noélio

Noelio Mello · Belém, PA 22/5/2008 10:18
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ANIBAL BEÇA
 

Agradecendo em bloco às minhas queridíssimas visitantes e leitoras:Brigite, Patipetista e Raiblue. Obrigado pela leitura e pelaos elogios. Eles é que são, críticos ou não, o combustível para que nós continuemos.

Beijos muitos

ANIBAL BEÇA · Manaus, AM 22/5/2008 10:30
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Sandra Fonseca
 

As fontes do grande escritor são infindáveis. Maravilhoso esse Terno de São Francisco. Há uma ternura latente em todas as "personalidade" que esse galo incorpora. Fala de homens, falando de galos.
Hà que se ler mais, degustando a beleza do texto.
É muita informação poética!!! maravilhoso!
Votei, mas voltarei!...
Beijo.

Sandra Fonseca · Belo Horizonte, MG 22/5/2008 13:50
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ANIBAL BEÇA
 

Sandra querida, obrigado pela visita, leitura e palavras generosas;

Beijos carinhosos

ANIBAL BEÇA · Manaus, AM 22/5/2008 14:34
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brigitte
 

Aniba, voltei com gosto para reler e votar!
Parabens!
Abraços!

brigitte · Goiânia, GO 22/5/2008 17:12
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Náthima Danel
 

Anibal, sempre escrevendo especiárias.
Belas composições.
Parabéns por mais este, afinal, tanta inspiração merece apláusos.

Náthima Danel · Boa Vista, RR 23/5/2008 11:24
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Cherry Blossom
 

Fantástico esse título-solução que você escolheu para abrigar essa "bicharada"!!!!. Bem "Barroco" e em perfeita sintonia com todos os textos. Falar mais o que!___Quem sabe sabe!___
beijos

Cherry Blossom · Dracena, SP 23/5/2008 12:44
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Nydia Bonetti
 

Beça
Que beleza de trabalho o seu.
O BARATOLÁRIO achei um primor.
Abraços!

Nydia Bonetti · Campinas, SP 23/5/2008 14:56
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ANIBAL BEÇA
 

Cherry e Nydia, obrigado pela visita e pela leitura.

ABRAÇO AMAZÔNICO

ANIBAL BEÇA · Manaus, AM 23/5/2008 17:55
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Regina Lyra
 

Aníbal,
Passo, paro.
Leio e gostei.
Beijos e votos,
Regina

Regina Lyra · João Pessoa, PB 24/5/2008 12:26
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Raiblue
 

Voando pelos seus re cantos mágicos....e votando c carinho...
bjks azuis
Raiblue

Raiblue · Salvador, BA 24/5/2008 16:54
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