(Respira) Sete horas, acordar. (expira) 7h15, pegar jornal (inspira), 7h30, ler o jornal enquanto está sentada no vaso sanitário (pára!) - se lembra que viu há pouco, que ler enquanto defeca provoca, a longo prazo, o aparecimento de hemorróidas.
(Respira) 7h45, escolher a roupa legal, sair de casa. (Expira) Telefone de casa toca...é engano.(respira) Celular toca: é problema. (expira) Atende. (respira) Dar comida ao cachorro, pegar as chaves do carro. Sai.
Meio-dia, volta para casa. Almoçou antes no restaurante? Nem sei. Pediu marmitex, fez um guisado de última hora. Quem sabe? Corre! Já são 14h. Tem que voltar.
É noite. Esqueceu-se de alguma coisa? O que era? Fez tudo certo. Chaves estão no bolso. A agenda do dia foi cumprida. Olha no relógio e passam das oito da noite. É tempo que corre.
Pensa: "quem inventou o relógio?" Maldito seja. O tempo é cíclico ou linear? Lembra-se de uma aula de Semiótica.
Linear, conclui. “Caminhamos para a morte”, diz, sentencialmente, a si mesma. Ela sabe disso. Quem lê agora também sabe, “mas fingimos que é cíclico”, pensa.
Alguém já disse isso, agora penso eu. Inventamos um relógio cujo tempo se repete, é ela quem pensa. Um calendário onde há quatro segundas-feiras, quatro domingos, por mês. "Esse fim de semana acabou, mas semana que vem tem mais", pensa ela e todos os outros. Nunca um domingo será como o outro, cada domingo é único - alguém também já disse isso. Não importa.
Celular toca. Pausa. Atende ou não? Privado. Deixa tocar. "Quem seria?". Dormiria sem saber. Podia ter atendido. Pra quê? "Quem inventou o celular?" (Agora diz baixinho). Quem inventou a pressa?
Mas há algo errado. Falta alguma coisa. Ela olha... Não se lembra. Tanta coisa, tanta coisa, tanta coisa para lembrar: conta de telefone, água, luz, esmalte velho na unha, filhos, lanchonete, dieta, celular. Cabelo sem escovar. Dia dos namorados. Aniversário da mãe. Uma anotação que ficou sobre a mesa... A mente não capta mais. Está lá. O que seria? O dia chegando ao fim, um ritmo no peito que acompanha todo o resto do corpo. O que ela esquece?
_O que é?
É noite. Não dorme.
(Expira) Lembrou! Agora é tarde. Já era.
Muitom bom mesmo. Entra com este texto no Festival de roteiros da ACI. Manda ele tem muita chance de ganhar tambem.
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Muito bom!
muito bom o seu texto, gostei do fato de o mesmo mostrar que muitas vezes estamos tão ocupados como coisas secundárias na vida que esquecemos até de descansar.
Robson Coelho · Trindade, PE 14/6/2008 07:37
Bem no meu último mes aqui no over.Aproveito para ler,ouvir e ver tudo.
Um dia quem sabe eu posso defecar minhas mágoas e retornar.Ou me despir dos compromissos que por hora não me permitem estar mais presente.
Aqui deixo meus últimos 9 pontos e meu carinho.
espero que cada um continue a propagar seu canto nesse espaço que vale à pena.
Um grande abraço
è tarde, é tarde, é muito tarde ( coelho maluco de Alice no País da s Maravilhas de Lewis Carroll ) !
Um beijo !
Glês, mas que vida agitada menina. Bem estruturado seu texto.,. gostei!!!! Meu voto com carinho
Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 14/6/2008 17:09
Amiga..vc sabe q eu sou adepto do texto "com movimento", né? Vc mesma já me disse isso certo dia...Volto a dizer que gostei do seu texto...rápido...ofegante....
Bj
Ramiro
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