Eles pecavam. Ela sabia que era pecado.
Mas não conseguira evitar, nem fugir, nem negar.
Era simplista dizer que apenas acontecera?
Não. Ela não tinha resposta alguma.
Acontecera.
Era simplista pensar que era apenas coisa do destino?
Inevitável? Marcado? Escrito e irremediável?
Acontecera.
Ela era casada. Devia amor e devia viver uma história de amor apenas com seu marido, seu homem, seu par – perante Deus e os homens.
Mas aqueles olhares que se encontraram, num relance, enquanto voltava para casa – fizeram-na esquecer de tudo isso.
Ônibus cheio. E o olhar entre um balanço e outro, uma freada e outra, um grito de “vai descer” e outro...O olhar... Alguém se colocava entre eles...Mas o olhar...
Ele permanecia e vencia, sem dificuldades, aquelas pequenas barreiras.
Era cola, era imã, era gosma.
Ainda bem que sua parada era a próxima. Também precisou gritar “vai descer”. E naquela luta para chegar à porta, à fuga, esqueceu-se de olhar – pela última vez, quem sabe – esqueceu-se do olhar.
Já fora daquela loucura, respirou fundo, puxou a roupa daqui e dali para se recompor, passou um brilho nos lábios, pensou um pouco para qual lado deveria seguir e seguiu. Mas logo percebeu estar sendo seguida.
Por um olhar. Pelos donos dos olhos.
Ficou afobada. Vermelha. Sentiu um rubor, um calor...
Andou mais rápido. Agora pouco se importando com o lado que deveria seguir.
Chegou a se perder. Perder de si. Perder o rumo. Perder o prumo.
Ele a alcançou. Queria saber seu nome. Queria ouvir sua voz. Queria marcar um encontro. Queria o número do seu telefone.
Ela disse o nome. Ela falou. Ela titubeou, mas aceitou pensar na idéia do encontro. Ela passou o número do telefone.
Depois disso – como incrédula – ela correu. Sumiu.
Queria fugir dela mesma. Era como se o vento que seu corpo fazia pudesse afugentar aquilo que acabara de acontecer. Ia empurrando as pessoas como se empurrasse os últimos minutos de sua vida.
Na pressa de evitar o que já acontecera e barrar o destino, o inevitável, o marcado, o escrito e irremediável, deixou cair o celular.
Alguém que passava logo após viu o objeto. Apanhou-o do chão. Pensou em como poderia devolvê-lo. Estava perto de casa. Entrou. Pegou o pequeno objeto. Tentou adivinhar como seria seu dono ou dona.
Pouco depois, decidiu olhar a agenda. Queria um número com o qual pudesse localizar o dono ou dona do telefone.
Mas àquela altura, várias mensagens já escorregavam na tela. “Meu amor, meu amor...como foi importante conhecê-la...Quero vê-la de novo... Não posso esquecer do nosso encontro... Depois de hoje minha vida é outra... É plena e sua...Você é minha... Eu amo você...Quando nos veremos de novo – hoje ainda? Agora? Quero a luz dos olhos teus na luz dos olhos meus”...
E ela não pôde evitar aquela leitura. Achou bonito. Romântico. Pensou que se tratava de um casal recém-enamorado. Pensou no quanto era bom estar apaixonado...Sorriu...
Voltou para a agenda. Achou um número identificado como sendo de “minha mãe”. Ligou. Explicou a situação. A mãe agradeceu a gentileza, perguntou onde o telefone poderia ser resgatado e pediu desculpas, pois teria que delegar a missão à outra pessoa. Ao marido de sua filha que até trabalhava perto dali.
Sim, seu genro.
Ela ficou atônita. Sentiu-se parte daquilo. Viu ali uma situação perigosa. Apagou aquelas mensagens. Apagou todas com pressa. Não sabia se ajudava ou atrapalhava.
Teve a certeza de que havia uma terceira pessoa. Um marido. Um genro.
Havia, ali, em suas mãos, a prova de um pecado.
O telefone tocou. Ela assustou-se. Anunciava a chegada do marido. O homem traído.
Como? Ah, sim... Meu senhor, por favor, me perdoe... mas acabei de marcar para entregar o telefone a sua esposa. Ela vai passar por aqui...
Por nada... Passar bem...
Muito interessante. A virada da narrativa é mesmo inesperada. Cria expectativa e então tangencia o que parecia inevitável, rumo ao apenas imaginado. São tantas as coisas que acontecem só no imaginário da gente, não é mesmo?
Abraços do Verde, e continue publicando coisas boas assim :D
O imaginário é onde tudo acontece, na verdade, você não acha, Verde? Obrigada pela visita, pela leitura, pelo comentário e pelo incentivo.
Outros abraços
Poisé... o imaginário é terreno rico de aconteceres, de haveres, de existires...
Seja sempre bem vinda, e publique sempre mais. O Overmundo é feito por todos nós. :D
Abraços do Verde.
Meio Nelson, meio Clarice. Interessante, Waleska. Parabéns!
Fábio Fernandes · São Paulo, SP 22/1/2007 08:17
O Fábio sabe o que fala, Waleska!
Seus escritos são mesmo muito bons.
Abraços do Verde.
A narrativa me levou, mas o que me fisgou mesmo foi esta imagem: "Ia empurrando as pessoas como se empurrasse os últimos minutos de sua vida".
Beijo grande!
Cida,
que bom que foi levada e fisgada!
Abraço!
Olá, parabéns.Fui conduzido mas antes do fim caí...
Não sei, talvez não tivesse de ter fim...
Um abraço.
pode, corte, diminua... a história é até bacana.
Mão Branca · Brasília, DF 24/10/2008 15:38Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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