Eu parecia mesmo muito frio; quase como um conto de Piñera.
É que meu tio Lino morreu, e eu não quis saudar-lhe as carnes.
Preferi imaginá-lo em sua câmara mortuária (ele sim muito frio), se negando a reger o coro das lágrimas hipócritas, ou mesmo as de obrigação.
Pois se até as realmente sentidas, talvez julgasse não merecê-las, o que iria eu fazer ali?
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Se não me traem as sensações, tio Lino fora um homem de boas carnes, certos desgastes com o vinho, e muita renúncia de espírito.
E das carnes resultaria prole farta e uma viúva inconsolável; do vinho, uma abstinência triste e responsável; e disso tudo, a Renúncia a que o espírito obrigou-se.
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Técnico de construção, para não dizer simplesmente pedreiro, trabalhava como poucos, o meu tio.
Na cama aumentava a prole, sem escrúpulos de planejamento. Mas no canteiro de obras, era capaz de erguer paredes e mais paredes bem cuidadas e, muitas vezes, por ele mesmo planejadas, com a ajuda de não mais que um ou outro servente.
O acabamento então, parecia coisa de artista.
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Assim tio Lino garantia muito bem as carnes da crescente família.
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Nos trabalhos de empreitada, quase sempre recorria aos préstimos meio que forçados do filho-homem mais velho e o irmãozinho menor, serventes que só funcionavam à base de muito grito.
Para sua renúncia de espírito, sua personalidade carnal, viver era trabalhar; fazer filhos, trabalhar mais para sustentá-los, e torná-los maridos e esposas prestimosos – capazes de repor mais carnes na corrente interminável da vida.
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Ah, tio Lino!
Enquanto choram-lhe o corpo, o espírito libertado me suscita as palavras que se organizam em lembranças.
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Às vezes meu pai (típico João Romão da Rua Nove) o contratava, a preço de parente, para tentar corrigir a má edificação de seus quarto-e-cozinhas sobre o jardim da falecida.
Tio Lino então vinha só; até pela pouca paga, desobrigava-se de obrigar seus rebentos – seus mal dispostos serventes de família.
E o pai me tirava da rua à força, para servir nos trabalhos do irmão.
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Eu ia com mais má vontade que os moleques de tio Lino.
Mas comigo ele nunca gritava – e também nem precisava.
Nunca esqueço de sua tática infalível pra fazer-me funcionar.
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Com má vontade do espírito e do próprio corpo franzino, eu preparava-lhe o material; o grude das paredes, a disposição dos tijolos, etc...
E, enfim, estava sentado pra fumar um cigarrinho inconsolável.
Era impressionante, a maestria e rapidez com que ele trabalhava.
E logo achava o jeito de me repor na labuta com a mesma frase infalível:
– Vandin, enquanto cê discansa, aproveita e pega aquele prumo, aquele balde, outra carga de..., ah, e traz mais água também.
O olhar nem dava conta da simpática ironia.
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Ah, tio Lino, tio Lino! Enquanto cê discansava lá na câmara mortuária, cê sabe que eu tive lá; mesmo com o olhar quieto e as carnes muito distantes daquela cena macabra, cê sabe que eu tive lá.
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Wancisco Franco
Vandin recorda seu tio
Wancisco, adoro seus contos......esses que trazem Vandin mais ainda....ele é partidario da paz e tambem das cisrcunstancias especiais....e descubro mais uma afinidade minha com ele..... o descobrir poder de ir em mente e coração dar adeus a quem parte pro andar superior.
Uma avalanche de bençãos a vc, pela intençao de amor e respeito a familia q seu personagem (?) nos traz. ta ?!
... a continuação que Amanda tbm queria.
bjssssssss;)
Wancisco, esses tios educadores nos deixam muitas saudades. É tão gostoso ouvir esses casos de família, quando elas ainda existiam e tios e tias eram tão educadores quanto nossos pais, e, com muito amor.
Parabéns. Ivette G M
Entrar no coração das pessoas! Beleza de texto meu caro!
raphaelreys · Montes Claros, MG 2/4/2009 16:09
Este Vandin sempre um menino esperto.Com muita sensibilidade e coração.Só podia mesmo virar um poeta,um contador de "causos" incrível.Continue nos prendando com suas aventuras.
Parabéns.
Wan,
delicioso texto.
tem gente que deixa saudades e mais saudades no coração da
gente e dai, nada melhor do que imortaliza-los num texto não é?
bjs .
Wan,
Emocionante e muito prazerosa leitura.
Abs
wancisco franco · São Paulo (SP)
TIO LINO
Tio Lino será inesquecível, um Guerreiro Trabalhador
De uma cultura baseada no intenso e pesado Trabalho sem fim.
Agora, daqui pra frente ele vai virar lenda e não se admire se virar também uma lida canção.
parabéns.
Abração Amigo
As histórias de vandin são sempre irresistíveis.
Como deixar de votar nas impressões desse menino? Eu que não sou bobo já deixei meus votos para ele.
Parabéns.
Como sempre, gostoso de ler, mais um belo texto.
Votado
abçs
Gostei do "a preço de parente !...rsrsrsrs
Genial, mais uma das suas !
Vandin que se cuide....rsrs
abraço, amigo !
Wancisco.
Muito interessante! Bem-vindo os contos de bom gosto.
Parabéns
Wandim e a filosófica empreitade entre carne e espírito! Muito bom! Eu adorei este texto delicioso! beijos poéticos e votos com alegria!
nina araújo · Rio de Janeiro, RJ 4/4/2009 11:26bom ler um conto tão complexo. Gostei, admirei e votei! Parabéns!!
Chico Piancó · Fortaleza, CE 4/4/2009 11:31
um grande texto no sentido exato da palavra, votando.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 4/4/2009 12:23Tudo que vem das memórias desse menino é muito bom !
André Calazans · Rio de Janeiro, RJ 4/4/2009 12:40
o Vandin está se criando ...
Cada vez mais sabido !
abraço
Vandim contou muito bem a história de tio Lino trabalhador. abraços e votos.
Pat Borato · Rio de Janeiro, RJ 4/4/2009 13:08Apreciei, gostei, votei e tá votado. Valeu amigão por mais uma lavra poética de puro bom-gosto.
José Cycero · Aurora, CE 4/4/2009 18:02
Vc deu sentimentos maravilhosos a Vandin
adoro
bjssssssss:)
Wancisco, mais um texto fluido e envolvente. Realmente não dá para parar de ler, a vontade é ir até o fim para saber o desfecho. Poesia e prosa se misturam em seus textos. Um grande abraço.
Franco, Vandin e suas lindas histórias...
Nem precisava estar lá presente porque estava de coração.
Você prende a gente com uma maestria deliciosa!
Parabéns por mais essa!
Beijos,
Aube.
Wancisco, adorei além do VADIM, claro, os verbetes usados:
Se não me traem as sensações, tio Lino fora um homem de boas carnes, certos desgastes com o vinho, e muita renúncia de espírito.
E das carnes resultaria prole farta e uma viúva inconsolável; do vinho, uma abstinência triste e responsável; e disso tudo, a Renúncia a que o espírito obrigou-se.
Adorei. Você se supera a cada conto. parabéns amigo, lindo
Bjs, Mirtes Carvalho
Vandin não cansa de aprontar. Bom. Sinal de vida
abs
Que descansa em paz o competente "Técnico de Construção" e mestre na arte de fazer os serventes trabalharem,
adorei
andre
Wancisco,
que "causo" bom. Essas hostórias de família, verdadeiras ou ficcionais que nos trazem memória gostosa de infância. Infância antiga, não essa que vemos por aí...
Grande Abraço,
Wancisco
Parabens e sucesso!
abraços
Andre Luiz Mazzaropi
O Filho do Jeca
www.andreluizmazzaropi.com.br
A construção da memória do Vandim , sua identidade e o resgate dos seus sentidos, rs, é fonte inesgotável de inspiração...rs. Contas muito bem, de forma que a gente visualiza cada cena com riqueza de detalhes... Não sei se é Vandim que inspira mesmo tudo isso ou se é o poeta que dá vida ao Vandim...
Abraço
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