Tirando o capacete
Você que já ficou preso no vio-lento trânsito da cidade, zapeando impacientemente o rádio do carro onde o assunto principal não é outro se não o próprio trânsito (com direito a ruidos de helicópteros de fundo e tudo), certamente já deve ter se perguntado:
Quem será esse desgraçado que passa por mim como um louco por entre os estreitos corredores - se não poloneses, pelo menos paulistanos - arranhando quase sempre o meu reluzente retrovisor como se quisesse desafiar as leis da física, tentando encurtar o espaço entre o tempo e a distância?
Quem será esse marginal das marginais que sempre acha uma "brecha" de escape por entre a trama de luxuosos e imponentes símbolos de status - aquele alí tem airbag até no teto (vai que cai um avião...)?
Quem será ainda esse "cavaleiro negro" que montado em seu cavalo de duas rodas trava uma verdadeira batalha diária contra enormes dragões cuspidores de fumaça?
É... mas hoje eu vou lhe contar, ou melhor, vou tirar o capacete:
Eu sou aquele que acorda cedinho pra levar a informação fresquinha à sua porta enquanto a maioria ainda descansa sonhando com boas notícias (não me culpe se só te levei más)!
Eu sou aquele que leva o que você vendeu para aquele que vai receber o que acha que comprou (...na foto parecia ser maior)!
Eu sou aquele que morre todos os dias em nome dos seus papéis e embrulhos (que você julga tão importantes) presos às minhas costas, como um fiel mensageiro medieval que agoniza no chão enquanto agarra com a própria vida a carta do rei!
Confesso que às vezes levo sorte e apenas dou trabalho ao ortopedista e meu colega é quem morre no meu lugar.
Também sou aquele que numa chuvosa, fria e violenta noite de sábado te levou pizza, refrigerante barato e até cigarros que você - covarde e preguiçosamente - pediu usando apenas um "esfregar" de mãos na lâmpada mágica da tecnologia enquanto me aguardava na sua segura e confortável fortaleza.
Eu ainda sou aquele que leva suas idéias de um canto pro outro para que você tenha mais tempo de ter novas idéias!
Muito prazer! Sou o "motoboy" e estou presente neste texto escrito apressadamente (ainda tenho mais duas entregas) e que você por não ter nada melhor a fazer ou apenas pra passar o tempo, no seu computador portátil começou a ler.
Assim que você conseguir se livrar do trânsito e chegar com segurança em casa, pense nisso!
Mas não precisa ter pressa, pense com calma!
Afinal de contas, o apressadinho aqui sou eu.
* * *
Enquanto cantava e tocava nos bares da vida, durante o dia eu passei por várias atividades e profissões, entre elas a de motoboy (só não me lembro se foi antes ou depois de ser vendedor de flores).
Sabe meu menino,seu belo texto me fez chorar.
Um dia na Av.Brasil,estava no carro.E a via toda engarrafada.Até helicoptero baixou na av.
Era meu sobrinho motoqueiro,que perdera a vida.
Acho que os motoristas deveriam ser mais solidários .Lindo seu textoUm fraterno abraço.
Oi, Clarinha!
É... como músico eu até ganhei alguns prêmios em festivais, mas foi mesmo como motoboy que eu ganhei a "platina" (metade do meu rosto foi reconstituido com o metal).
Em compensação, perdi minha primeira moto e consequentemente o emprego: ninguém emprega um músico sem instrumento e muito menos um motoboy sem moto.
Mas driblei as estatísticas fatais e hoje tô aqui agradecendo pelo seu comentário e lamentando a vida do seu sobrinho que não teve a mesma sorte.
Eu costumava dizer que um motoqueiro nunca morre, ele vai pro inferno atormentar o capeta. Hoje, penso bem diferente e tenho certeza que seu sobrinho está num lugar lugar muito bom: no céu dos motoqueiros, onde a única coisa que não existe por lá é a pressa!
Beijos, Clarinha!
Dáblio,você tem o dom de materializar pensamento e sentimento em palavras e música.
E nesse texto, "apressado" (por conta do efeito que vc quis dar) e eficaz, você escancara o drama de homens e mulheres que operam no núcleo da circulação do capital e são discriminados(as) e marginalizados(as). Um(a) motociclista movimenta milhões e é tão mal tratado(a) nas ruas.
Parabéns pelo protesto.
* mal tratado(a), sobretudo, por todos e todas mais que detém esse capital.
Compulsão Diária · São Paulo, SP 12/7/2008 02:17Mais que justa e merecida homenagem , sem contar que a maioria deles trabalham com suas próprias motos, que são furtadas covardemente. Abraços
Falcão S.R · Rio de Janeiro, RJ 12/7/2008 04:26...chocante, meu amigo. Nem gosto muito do termo, mas me pareceu inevitável usá-lo; foi em função do texto. Já vivi os horrores de me ver quase esmigalhada entre ônibus, ainda bem que estou aqui pra contar a história. Muita boa sua visão da vida dura dos nossos motoboys que afora a loucura do transito têm a vida cortada por uma linha com cerol. Barbaridade.
graça grauna · Recife, PE 12/7/2008 11:36
Uma justíssima homenagem a essa classe malvista, mas fundamental, numa cidade como a nossa !
nota dez pra você, Dablio !
Se beber, não escreva !
Um abraço !
Abro sua votação meu menino.Agradecida a Deus por sua vida e seu talento.
Ainda espero poder ouvir outras belas canções de sua autoria.
Parebéns!
Gosto muito da sua forma em tirar das experiências as melhores coisas.
Certa de que me entenderás.Meu carinho enorme para o povo do capão redondo.Um beijo em seu coração.
NOSSA! CARAMBA!!!!
MEUS VOTOS !
beijos
Dáblio,
Bom domingo!
Votado!
Abraço
impressionante, gostei e votei).
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 13/7/2008 13:01
Verdade Dablio?
E eu tenho uma cicatriz em meu rosto, que apesar de duas plastica teima em ficar visivel. Eta vida louca no trânsito gente! E não foi em SP. foi aqui, que também está uma loucura.
Mas estes motoqueiros se expõe sim, e é um perigo. Aqui temos até moto-taxis. Dois ou três perigos juntos. Um absurdo!
Bjssssss e votos
Gostei muito.
MEU VOTO É CERTO.
Um beijinho doce, Sílvia.
BH.MG.Brasil
Salve, Poetas, Escritores e Leitores!
Obrigado por mais uma vez vcs terem permitido que esse texto fosse publicado!
Obrigado pelos comentários, pelos votos, pela atenção e principalmente pela leitura!
Não sei se esta é, de fato (como outros textos meus), uma coloboração cultural, mas tenham certeza de que é muito mais que uma simples homenagem à injustiçada classe:
é um desabafo pessoal!
Sempre grato,
Dablio... Boa Tarde!
Me surpreendestes duas vezes. Pensei que vc fosse
somente músico. Não sabia que escrevias tão bem!
A segunda foi tua narrativa.... Me comovestes de verdade!
Luis Fernando Veríssimo e Arnaldo Jabor que se cuidem!
Mereces PARABÉNS MESMO! Adorei tua crônica: NOTA DEZ!
Fechastes teu ORKUT? Teus coments em minha página sumiram.
Desejo que a palavra SUCESSO seja uma constante em tua vida
porque... VOCÊ MERECE!
Sua amiga e fã
Verluci Almeida
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