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TOC

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Circus do Suannes · São Paulo, SP
14/6/2009 · 16 · 11
 

“Essas recordações me matam!”(Roberto e Erasmo Carlos)

Estou numa festinha de aniversário. Sobre a mesa principal, o bolo a ser futuramente cortado e uma pilha de pratos de louça. O tio da aniversariante aproxima-se da pilha e se põe a arrumá-los com extremo cuidado, um exatamente em cima do outro, sem sobra nenhuma dos lados. Aproximo-me dele e provoco:
- Não resistiu, hein?
Ele cantarola: “Essa minha compulsão me mata!”Há cerca de 20 anos encontrei um colega, cujo aspecto não deixava margem a dúvida: estava numa crise de depressão. Com a liberdade que nossa amizade me permitia, repito, perguntei-lhe se andava chorando sem motivo aparente. Ele ficou sério. Se tinha medo de suicídio. Ele arregalou os olhos: “quem lhe contou?” De depressão eu conheço mais do que você imagina, respondi. Falei de minhas crises e ele, a partir daí, foi cuidar da saúde psíquica dele, tanto quanto eu já cuidava da minha. Agora, ele, já desembargador, apenas me toca no braço e, com alguma dificuldade, deixa escapar: “Você me salvou a vida”.Leio numa dessas revistas que quase não têm matéria para ser lida que o cantor Roberto Carlos declarou publicamente que está bem melhor do TOC, doença da qual ainda não está curado de todo, embora esteja em tratamento há mais de dois anos. TOC? A senhora não entendeu? Eu explico.
Viu aquele filme do Jack Nicholson, Melhor é Impossível?
Pois é. Aquilo é, evidentemente, um exagero, próprio de uma comédia, se é que aquilo é uma comédia. O personagem escolhe os ladrilhos em que pisar pela cor deles, coisa que muitos de nós certamente fazíamos quando éramos crianças; conta as barras das grades dos jardins das casas, quem de nós não fez isso? E repete uma série de atos aparentemente absurdos, como se aquilo dependesse da vontade dele. Ocorre que não depende.
O Transtorno Obsessivo e Compulsivo caracteriza-se exatamente pelo fato de o padecente realizar atos aparentemente sem motivo algum, seja por sua natureza, seja por sua reiteração e demora na sua realização. Todos nós trancamos a porta de casa antes de nos deitarmos, mas há pessoas que se levantam no meio da noite para ir conferir, pela décima vez, se, de fato, trancou a porta. No filme, ele não apenas se preocupa com isso, como coloca várias trancas na porta, num evidente exagero. Quantas pessoas há que se reconheceram naquele personagem?
Eu conheci um juiz que não devolvia os autos dos processos à secretaria, acumulando pilhas e pilhas, todas com os votos prontos. “Ainda preciso dar uma última revisão nisso” era sua explicação. Para todos os efeitos, era um juiz vagabundo.
Uma jovem artista de televisão teve, tempos atrás, o desassombro de confessar que tinha necessidade compulsiva de tomar banho. Eram banhos que duravam horas, disse ela. Imagine-se o mal que isso lhe fazia à pele. Não sei como andará isso, mas a reportagem dava conta de que ela também havia tomado consciência de que aquela preocupação nada tinha com o dever de higienizar-se. Também contou que costumava ficar junto à janela de casa e dali não se afastar enquanto não passasse um automóvel de tal marca e tal cor. Com a padronização das cores de automóvel hoje em dia, pois ou são pretos ou cinza, imagine quanto tempo ela ficaria ali, escrava de seu TOC.
Longe de mim querer diagnosticar a conduta de certos jogadores de futebol que não podem deixar de persignar-se quando fazem ou quando perdem um gol. Ou questionar sua religiosidade, mesmo porque esse tema é delicado. Todos vimos o presidente José Sarney entrar de novo na casa de onde havia saído porque a porta pela qual saíra não era a mesma pela qual entrara. E o câmera da TV ali, registrando aquilo que, oficialmente, se chama superstição. Uma senhora só faltou me bater quando tive o atrevimento de, após uma visita feita a ela, abrir eu mesmo a porta da casa. “Isso dá azar!” berrou ela. O que quero dizer é que seria interessante saber se essas pessoas conseguem ou não conseguem ficar sem aquelas “bengalas”. Certamente, não conseguem.
Esses rituais estão, de fato, acima do entendimento e da vontade de quem os pratica. Dizer que são mera superstição não resolve o problema da compulsividade. Qual a raiz do ritual supersticioso?
Diga sinceramente: qual será sua conduta ao verificar que o pão está sobre a mesa com os fundos para cima? Ou um par de sapatos está com as solas voltadas para o teto? O fato de eles estarem “de cabeça para baixo” e, portanto, deverem ser virados, não explica a providência que a senhora um dia tomou diante daquela “anormalidade”, mesmo porque nem o pão nem o sapato têm cabeça. Concorda? Há na rapidez e inevitabilidade com que muitas pessoas se apressam a “corrigir” aquela postura, eu suponho que também seja a sua, algo que foge à racionalidade. Tente explicar. Provoque seus conhecidos, virando o pão que está sobre a mesa e veja a reação deles.
Conheço pessoas que não conseguem ir para casa antes de arrumar todos os objetos que estão sobre a mesa no escritório. Reconheço que a ordem é importante para eu saber onde está isto e aquilo. Facilita o meu trabalho. Mas o que aqui se registra não é a escolha da ordem, mas a imposição feita pela ordem. A rigor, não sou eu que mando nela, é a ordem que manda em mim. O que é um rematado absurdo. E eu não posso deixar de fazer o que ela quer, eis o que a pessoa diria, se tentasse explicar essa compulsividade.
Não sei se a senhora conhece a série Monk, exibida na televisão. Não vi os primeiros episódios nem acompanho com fidelidade os diversos capítulos daquele drama, vencedor de muitos prêmios, desconhecendo, por exemplo, por que motivo o personagem se chama Monge. O fato é que ele era um policial excelente, que entra em crise quando a mulher morre numa emboscada. A partir daí, tornou-se vítima do TOC. Imagine um policial com a mania de limpar o local do crime, apagando eventuais pistas datiloscópicas, para concluir que, como ocorreu no filme, ele acaba sendo aposentado por invalidez. Mas, como era muito eficiente, é chamado pelos colegas para cuidar, em off, de casos difíceis. Que ele resolve precisamente por ser obsessivo, eis a ironia do filme.
Tenho também minhas pequenas manias, mas o que quase me levou a uma aposentadoria precoce foi a síndrome do pânico, um distúrbio tão escravizante quanto aquele. Curioso é que os meus comarcanos ficaram sabendo disso – e o que os comarcanos não sabem a respeito da vida do juiz? - e tome visita de solidariedade, que eu recebia na certeza de que eles iam à minha casa menos para saber de minha saúde e mais para verificar se eu já estava babando na minha excelentíssima gravata. Desculpe, mas tenho essa mania de desconfiar das pessoas.
Um desses gentis visitantes era um modesto comerciante que havia entrado em uma crise profunda de depressão depois que sua empresa havia sido autuada, com aplicação de uma multa astronômica que o levaria à falência, segundo ele. Eu nunca vim a saber exatamente qual o valor da tal multa. Conto apenas o que ele me contou.
Outro visitante era um padre, com aspecto saudável, corado, que conversava normalmente. Ele estava naquela cidade gozando de “férias forçadas”, depois que, como ecônomo de sua congregação, algo que os mortais comuns chamamos de tesoureiro, havia caído num conto do vigário, olha a ironia, e causado um prejuízo enorme à tal congregação, que ele pretendera ajudar quando contratara o bem falante economista, especializado, veio ele a saber depois, em mutretas e coisas afins. E ali estava ele, já que, depois daquele rombo, se recusava a sair da cama. Quando me ouviu falar dos meus sintomas, ele não se agüentou e, a batina que me perdoe, soltou um desabafo inesquecível: “pois eu passo por tudo isso e aqueles filhos da pátria dos meus colegas dizem que não tenho nada!”
Sugeri a ambos que fizessem o que eu estava fazendo para superar a depressão: viagem de trem até a capital uma vez por semana, sessão de psicoterapia por uma hora e nova viagem de trem de volta à minha comarca, pois, dirigir automóvel?, nem pensar. Espero que o tenham feito.
Posso afirmar, meu caro leitor, que pelo menos cinco por cento dos que estão lendo esta crônica padecem de depressão. E olhe que estou sendo otimista. E posso apostar também que mais de cinqüenta por cento dos familiares desses depressivos não dão a menor importância a isso. “Isso no meu tempo se chamava frescura” é como grande parte dos amigos e parentes se referem a uma das doenças mais insidiosas que existe.
Eu vivo cruzando com depressivos e posso dizer que já ajudei a alguns a procurar tratamento. “Você, com esse espírito brincalhão, vem me dizer que é sujeito a depressão? Não acredito!” é o que geralmente ouço. E quando eu passo a descrever os sintomas todos, a resistência deles baixa, como ocorreu com aquele colega, cuja vida minha orientação teria salvo.
A ultima pessoa com quem cruzei e que se encaixa nisso é a mais recente faxineira que tivemos em casa. Educadíssima, fala mansa, mas não aceita “imposições”. Imposição? É, a senhora me mandou arrumar a sala mas eu só arrumo quando tenho vontade. No fim do ano, sintomaticamente, não compareceu ao serviço porque passou na cama, “sem a menor vontade de ver ninguém”. Daí à tentativa de suicídio é um pulo, como sabe quem já teve alguém depressivo na família. Um dia a tal empregada resolveu que não viria mais e não veio mesmo.
Por que falo disso tudo? Para dizer que o Roberto Carlos, que tem uma belíssima música, pouco conhecida, mas que inspirou o nome de um jogador de futebol, até com passagem pela seleção brasileira, talvez não tenha consciência do bem que fez a tanta gente falando de algo que as pessoas preferem silenciar.
A tal música chama-se O Divã, o que produziu o nome do jogador Odivan. Teriam os pais do jogador conhecido a letra daquela música? Ali já se poderiam notar as tendências à depressão naquele admirável compositor, ao recordar o acidente que o aleijou, como narrado numa sessão de psicoterapia. Depois de tanto tempo de tratamento, ele ainda não consegue usar roupa que não seja azul. Vejam o que é o poder do TOC.
E vamos à bela música referida.
Aliás, "Divã" é um dos melhores filmes que vi este ano.

Sobre a obra

A primeira condição para enfrentarmos um inimigo é não termos medo de dizer o nome dele.

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Zé Preá
 

Belíssimo texto e de uma utilidade que o autor nem imagina. Eu falo de cátedra porque sou um toquista. Vou dar um pequeno exemplo: quando tiro a roupa pra lavar, enfio a mão nos bolsos da calça, camisa ou bermuda, umas vinte vezes procurando dinheiro, comprovante de algum pagamento etc.

Ao sair de casa e quando toda a família sai também, verifico janelas, portas, aparelhos de som e imagem, gás do fogão, lâmpadas acesas, olhar debaixo das camas e verificar se as descargas do banheiro não estão abertas. Refaço isso um bocado de vezes e a família no carro esperando. Quando chego lá se me lembro que algum item não foi chequado, volto de novo.

Mas é uma doença boa e que tem algumas vantagens. Eu, por exemplo, adoraria me encontrar com aquela belezura da Luciana Vendramini para falarmos dos nossos dramas. E enquanto ela se banhasse, eu ficaria olhando a beleza do seu corpo. Quem sabe não nasceria daí um tórrido caso de amor? Eu sou doidim por ela!

Zé Preá · Recife, PE 14/6/2009 13:11
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raphaelreys
 

Oitenta por cento do mal estará desaparecendo quando o adimitimos! Segundo Jesus a compreenção é tudo! Belo postado mestre!

raphaelreys · Montes Claros, MG 14/6/2009 15:17
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joe_brazuca
 

Adauto

Ja passei por tudo isso...( não cheguei a padecer enormemente pelo TOC, mas pelos transtornos da ansiedade e por conseguinte resvala-se pela sindrome do pânico...)
Não o Joe Brazuca, que é alter ego, que é personagem....Mas quem está por traz dele...Quem sabe o Joe Brazuca não veio por salva-lo, né mesmo ?...rsrs
Não sei onde pelo seu texto, voce diz "..um distúrbio tão escravizante...", falando da sindrome...Não poderia descrever melhor conceito...
By the way, a respeito do preconceito da sociedade com tudo que lhe é estranho, jamais esquecerei quando, de volta ao trabalho no estudio, depois das tormentas todas sanadas, uma cliente que voltava aos nossos serviços, disse "estar estupefata", por eu, que sempre fui descontraido, falante, comunicativo, empreendedor e que tais, pudesse passar por tal coisa, uma vez que para ela, "isso" (as sindromes) só acontece com "pessoas fracas"...
Acredite se puder..."Ecce Homo" !

abraço
( a mùsica é bonita tb...)

( Zé Preá : só voce, eu e mais 15 milhoes adoravam "La Vendramini"....rsrsrsrs...umm abraço, amigo !)

joe_brazuca · São Paulo, SP 14/6/2009 15:28
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Doroni Hilgenberg
 

Adauto;

" Essas recordações me matam
essas recordações me matam..."(RC)

Bem interessante e produtivo seu texto,

Depressão, TOC e Sindrome de Pânico
são três casos distintos.
Minha irmã teve depressão e nada parava no estômago dela,
foi uma reação adversa a problemas que ela pensava insolúveis,
e ela quase morreu por causa disso.
Tenho um amigo que Lava tanto as mãos que a esposa dele
diz: " esse TOC ainda v ai acabar com nosso casamento,
ele levanta 10 vezes da mesa para lavar as mãos.
e por fim minha futura nora não pegava elevador de jeito algum, enfrentava sete andares subindo escada nesse calor danado,
O medo do elevador era maior que a confiança em meu filho, só que...ele não deixava de vir de elevador por causa dela e com o tempo ela foi enfrentando o medo e se enfrentando.
Hoje, nem lembra mais...
Mas é como vc diz, é preciso enfrentar o inimigo sem medo.
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 14/6/2009 15:48
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Ivan Cezar
 

Também ando ausente
Depois de 25 anos no interior
estou com escritório em POA
Excelente texto
Parabéns !

Ivan Cezar · São Sepé, RS 14/6/2009 15:53
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azuirfilho
 


Circus do Suannes · São Paulo (SP)
TOC

Como sempre um Trabalho bem feito que abrange o nosso interesse e nos leva a reflexão.
Trabalho que nos atualiza e nos faz por um pouco de ordem e atenção nas coisas da vida.
Parabéns.
Abração Amigo

azuirfilho · Campinas, SP 14/6/2009 17:02
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JGomara
 

Caro Adauto: Nós só achamos que os outros fazem, nós não. Dificilmente vamos encontrar pessoas de que dizem não saber do que estamos falando mas,.....
Tambem, se vamos examinar as nossas vidas nos detalhes, não vivemos. Abraços. Gomara.

JGomara · São Paulo, SP 14/6/2009 19:03
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Claudia Almeida
 

Claudia Almeida · Niterói, RJ 15/6/2009 08:32
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Eldo Meira
 

Segundo dizem na novela das oito na Globo: "São fatos não auspiciosos". Acho que se não todos, a maioria dos humanos tem ou tiveram TOC. Parabéns Mestre Adauto pelo texto. A música do Rei só veio a acrescentar um toque de magia que nos leva ao passado. Essas recordações me matam de tanto me fazer reviver o passado. Um abraço.

Eldo Meira · Carazinho, RS 15/6/2009 15:46
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victorvapf
 

Geralmente as manias, os movimentos repetitivos estao ligados a um pensamento negativo, tipo: Vai acontecer algo de ruim se nao fizer isto ou aquilo. 'Mas tem um antidoto: E so contrapor ao pensamento negativo: Se eu fizer isto ou aquilo, e` que vai acontecer algo...Ai voce termina de vez com as manias...

PS. O antidoto sugerido, vai ficar sendo sua bengala, que nao deixa de ser uma nova mania, mas pelo menos, da menos mao de obra...

victorvapf · Belo Horizonte, MG 15/6/2009 23:28
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Adroaldo Bauer
 

Depois de um mês de umas folgas inesperadas, retorno amanhã à psicóloga, a quem visito quinzena sim, quinzena não desde há um ano. Também achava que não ir era ser forte. Bobagem pura. Depois do IAM (nominho suave que dão ao infarto agudo do miocárdio), a retirada súbita do cigarro, coma crise de abstinência, garrei a puxar os restos de cabelo, cofiar a barba e ter um certo zelo maior pelo amanhã e à mesa menos sal, amidos e, até, menos, vinho.
Pânico pós iam identificado... vou me recuperando como de uma ressaca forte, mas é, sim, doença psíquica, elaborada por componentes medicamentosas também, e, portanto, física, igualmente.
Belo texto Suannes. Grande e agradável retorno.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 16/6/2009 19:06
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