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Tratado filosófico sobre a loucura

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Abel de Jesus · Rio de Janeiro, RJ
4/5/2009 · 5 · 7
 

Tratado filosófico sobre da loucura

A loucura é dividida em três estágios: a idiotice consciente, a lucidez plena e, finalmente, a loucura total.

A idiotice consciente tem início na pré-adolescência e vai até aos 22 anos. Há casos em que esta fase só termina aos 35 anos, acompanhada de bastante terapia de grupo. É nesta fase que esses indivíduos se apresentam extremamente vulneráveis a qualquer tipo de ideologia e são disputados a tapas pelas agências de publicidade.

É nesta fase também que vivem a sua maior crise existencial, quando descobrem que nunca existiu papai-noel e que foram enganados por muitos anos. Passam então a não acreditar em mais ninguém que acreditara antes, usando primeiramente os familiares como alvo de sua indignação e, em seguida outras instituições, sendo a escola a mais alvejada delas.

Começam a acreditar em tudo que nunca ouviram falar antes e em pessoas que morreram por alguma causa, sem saberem exatamente quais seriam estas causas. Mudam de comportamento e começam a vestir roupas que antes achavam ridículas. Duendes, Che Guevara, Raul Seixas são alguns dos seus ídolos.

Passam a acreditar no Socialismo de uma hora para outra, mas no Socialismo de Mesada. Talvez uma compensação pela perda da imagem do papai-noel, mas não há nenhum estudo sério sobre isso, assim como a preferência pela cor vermelha nos dois casos.

Já a lucidez plena, que vai dos 25 aos 50 anos, os indivíduos estão na fase de consolidação do seu caráter, ou da falta dele. De posse de bastante conhecimento e “vasta” experiência profissional, social e sexual, passam a montar suas estratégias para os próximos 50 anos, mesmo não tendo certeza do que irá acontecer ao término desse prazo.

Os indivíduos que se sentiram muito enganados por seus ídolos do passado, papai-noel, familiares, bancos, agências de publicidade, adotam, nesta fase da vida, a tática do “agora sou eu”, muito utilizada na infância e também conhecida como “meinha”.

Começam enganando seus cônjuges, depois seus patrões, seus gerentes de banco e por aí vai. Alguns desses, contraem uma doença antiga, mas só recentemente diagnosticada, conhecida como TUCO (Transtorno Um-sete-um Compulsivo Obsessivo) mas, curiosamente, muitos dos indivíduos que a contraem conseguem uma brilhante carreira em algumas áreas de atuação profissional ou no cenário político nacional.

Já os indivíduos desta fase que foram pouco enganados, ou que não apresentaram muitas seqüelas em relação a esse trauma, adotam uma estratégia diferente da dos demais. Começam a refletir sobre tudo que viveram nos últimos vinte e cinco anos e chegam a conclusão que tudo aquilo que viveram, desde a pior desilusão até os melhores momentos de suas vidas, como a primeira transa, fora uma coisa muito positiva, tornando-se obcecados em partilhar suas experiências com outras pessoas.

É nessa fase que se casam, têm filhos e constroem suas carreiras, pautando sempre suas ações em princípios e experiências vividos anteriormente. Alguns desses indivíduos são extremamente inquietos e criativos, a ponto de transformarem suas experiências vividas na mais genuína arte.

Geralmente são pessoas bem sucedidas profissionalmente e bem vistas pela sociedade. Alternam utopia e pragmatismo na administração de suas vidas, tornando-se pessoas equilibradas e solidárias.

Chegamos finalmente ao último estágio, onde a loucura se dividirá em dois tipos distintos: O maluco beleza e o doido varrido. Está fase inicia-se aos 50 anos, somente para aqueles que conseguiram desviar-se das balas perdidas, e se entenderá até os últimos dias de suas existências.
Por tratar-se do último estágio da loucura, essa fase pode ser comparada à pré-estréia do juízo final.

Os indivíduos considerados malucos beleza são todos aqueles que já não levam a vida tão a sério como antes e filtram todas as informações que obtêm, evitando ao máximo as armadilhas contidas nessas informações. Conseguem diagnosticar o momento presente com extrema precisão e com apenas uma taça de vinho, prevêem o futuro com a mesma precisão que suas sogras prevêem a meteorologia.

Já os doidos varrido são aqueles indivíduos que falam o tempo todo, geralmente com quem não está presente, mas que eles acreditam estar. Adoram escrever cartas aos jornais e acham que naquela semana vão ganhar na loteria, mesmo cientes que naquela semana não jogaram. Compram medicamentos na farmácia, mas é só em casa, com muita paciência, é que escolherão o sintoma da doença. Acreditam que o INSS sempre conspirou contra eles e que o grande problema do Brasil são as “Perdas Internacionais”.

Alguns desses chamados doidos varridos, mesmo com fortes indícios desse tipo de loucura, conseguem mandatos para administrar diversas cidades pelo Brasil afora a até cadeiras nas maiores casas legislativas do país. Tem muito louco por aí que ainda vota nesses caras, acreditam? ...Mas isso já é outra história.

Mais textos em: www.blogdoabeldejesus.blogspot.com

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Abel de Jesus
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Doroni Hilgenberg
 

Abel,
estou só rindo...
não é de admirar que esta vida seja uma loucura
composta por 3 atos; começo, meio e fim.
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 4/5/2009 18:12
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Zeca Avelar
 

Booommm Diaaa menino Abel!

Eu que simples mortal de loucuras criado
ouço a todo o momento que sou alienado
e pior (ou melhor) foi ter um dia ouvido:
que além disso tudo, sou "doido varrido"!

Só porquê acredito em meu semelhante
Só porque nas paredes, bato a minha cabeça
já me chamam adoidado... aloprado... maluco
e me achando isso mesmo, quieto não retruco...

Será que sou assim louco por me fazer honesto?
Será que sou com certeza um maluco beleza
por dizer: - Eu Te Amo! - A todo semelhante
sem importar o momento, a hora ou instante?

Ah... já nem sei o que sou o que eu serei,
e de minha lucidez até duvido um pouco
mas, reflito e me aquieto pois sei afinal
que me sinto mui bem, sendo um "Louco Normal"!
...
abraSSos de ponta cabeça...
ZecaFeliz - gaDs!

Zeca Avelar · Florianópolis, SC 5/5/2009 13:44
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Abel de Jesus
 

A "Zecaloucura" é o seu PE e isso lhe faz muito bem, pois vi isso claramente nas suas fotos. Também, com aquela fufura de neto qualquer um fica louco. Mas a doce loucura, ou melhor a "Zecaloucura".

Abraços.

Abel de Jesus · Rio de Janeiro, RJ 5/5/2009 14:14
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menina_flor
 

Olá Abel,
Chego aqui por intermedio do Zeca Avelar[ [este poeta acima]
E adorei o seu texto. Analisando cada fase me enquadro dependendo do meu momento.
Mas uma pitada de loucura dá graça a vida.
Prazer em conhecer você!

Com carinho,
Patty

menina_flor · Rio de Janeiro, RJ 5/5/2009 22:13
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raphaelreys
 

Abel! vou colar aqui uma crõnica que fiz sobre a loucura para poitencializar os comentários!





Não estou fazendo sátira e nem pilhéria; pois como diz a sabedoria popular: de palhaço, de rei, de médico e de louco, todos nós temos um pouco. Isto indica que a vida tem duas faces diversas.
Muitos são os autores e filósofos, mesmo os clássicos, que falaram do tema da loucura ao longo da história. Guerra dos ratos e das rãs, o Mosquito, Ulisses e Grilo. E um ilustre desconhecido que escreveu o diálogo de um porco chamado Grúnio Corocotta.
Os loucos, ou tantãs, como eram chamados e ainda o são, povoaram a minha infância. Barulhentos, apalermados ou agressivos, circulando no centro comercial, na Rodoviária e na Estação Férrea dos Montes Claros de antanho. Vieram trazidos de outras cidades, donde foram expulsos sem direitos e lançados nas nossas ruas. Sem piedade, como um lixo humano.
Muitos deles construíram, e mesmo fizeram parte da nossa história, alguns foram até eleitos como políticos, de paletó e gravata. Ajudaram a povoar de medos e temores as minhas emoções da infância. Pude compreendê-los ao ler o Elogio à Loucura, de Erasmo de Roterdã. Dei-me conta de que a insanidade mental pode ser sinal de genialidade, de coerência, e mesmo de sabedoria. Relata-nos Fromm: As vítimas de doenças mentais realmente arruinadas encontram-se entre os que parecem normais.
Os loucos vão da terra para a lua ao sabor das suas imaginações.
As janelas do meu inconsciente foram abertas ao ler as histórias fantásticas de Poe. Acompanhando a descrição da Atlântica, no Timeu de Platão. Lendo os sete volumes da Doutrina Secreta de Blavatsky, e dela também, a tradução do poema épico dos iniciados tibetanos; As Estâncias de Dziam, em que consta a loucura do Criador, ao fazer manifestar e nos legar este planeta insano, no qual habitamos em nome da evolução.
Eles, os chamados lelés da cuca, ficavam nas entradas das fazendas de antigamente enquanto transcorria a era do romantismo e eram considerados patrimônio da casa onde moravam. Podíamos vê-los desfibrando a tenra palha do milho para pitar o paieiro. Tomando café com rapadura no interior das cozinhas, onde escutavam, sem entender no racional das suas mentes, os relatos da vida íntima dos donos da casa, com suas loucuras e as máscaras de falsidade dos que se diziam normais.
Esses registros repassados em seus inconscientes de forma inconseqüente são como o relato de Panomina: retidos da mesma forma que a eternidade usa para registrar o sangue derramado por um mártir, ou o ato de um vil!
Na reflexão dos Estóicos, entretanto, ser louco é deixar-se levar pelas emoções.
Pela doideira da vida, tentando dominar os meus temores e medos, aprendi a decodificar as loucuras alheias, observando o semblante das pessoas. Erasmo diz que; tudo que o louco trás na alma está escrito no rosto.
Já adulto observo um mundo de loucos buscando um panegírico milagroso. Um planeta entupido de dependentes exógenos, que carregam dentro de si a Bela e a Fera. Uma geração entorpecida, inebriada, construindo verdades falsas, aparências, e sob o estupefaciente das emoções efêmeras e das roupagens multicoloridas do Ego-Cambaleante. Falsos moralistas atormentados pelo pecado da carne!
Dormimos, enquanto a química dos medicamentos hipnóticos ingeridos nos conduz a portais dantescos, a realidades oprimidas pelo pensamento seletivo, a mundos construídos de bolhas coloridas. Bem razão tinha Calderon de La Barca, ao se perguntar: a vida, sonhos são?
O desembargador Alberto Silva Franco no prefácio “Mundo às Avessas” que fez para o livro “Justiça e Caos” do escritor Adauto Suannes cita a indagação de Eduardo Galeano: “si el mundo está, como ahora está, patas arriba, no habría que darle vuelta, para que pueda parrarse sobre sus píes?”
Romperam-se as fronteiras de uma tribo global, constituída quase na totalidade de covardes que recusam a se olharem com a cara limpa. Apega-se a tudo o que é ilusório. A loucura é o boom de nossa civilização moderna e atormentada.
Essa triste herança foi construída pela falta de amor fraternal, da negativa das simples razões que emanam do coração. Encerro a crônica com a observação de Erasmo: A loucura é que governa a seu bel-prazer o universo.

raphaelreys · Montes Claros, MG 6/5/2009 08:56
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Abel de Jesus
 

Olá, Raphael!
Bastante elucidativo o seu texto. A loucura é o boom de nossa civilização moderna e atormentada, como você mesmo diz.

Quando escrevi este texto ainda não havia lido "Elogio à loucura" de Erasmo e confesso que fiquei perplexo ao saber que o livro foi escrito em 1509. Constatei então, que a loucura em que vivemos hoje já havia se estabelecido desde o início da civilização. Portanto, na qualidade de louco consciente (e plugado), ouso parafrasear Descartes: "Penso, logo sou louco".

Prazer em conhecê-lo e grato pela contribuição.

Abel de Jesus · Rio de Janeiro, RJ 6/5/2009 11:56
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Abel de Jesus
 

Olá, Patty!
Agradeço a visita e espero que você assuma de vez a sua loucura, pois só assim será realmente feliz.

E lembre-se: "A maior loucura que cometemos é acreditarmos que somos normais".

Grato pela visita e pelo carinho.

Abel de Jesus · Rio de Janeiro, RJ 6/5/2009 12:05
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