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TRÊS CANTARES BACANTES E OUTROS POEMAS FESCENINOS

Salvador Dali ©
1
ANIBAL BEÇA · Manaus, AM
16/6/2008 · 96 · 14
 

TRÊS CANTARES BACANTES
E OUTROS POEMAS FESCENINOS

Aníbal Beça ©


CANTARES BACANTES

- I -

O mar lava a concha cava
e cava concha lava o mar
como a língua limpa lava
tua concha antes de amar.

Delírio da estrela d'alva
mistério da preamar
vinda e volta abrindo a aldrava
da concha do paladar.

Oh minhas parcas de mel!
Eu me afogo em mar vinho
à espera de algum batel.

Sou cantador de cordel:
estórias sabor marinho
bacantes da moscatel.


- II -

Canto a lira dissonante:
como custam meus cantares!
os cantochões dos solares
mais remotos que um levante.

Tua branca primavera
lança-perfume dos ares
profundo nácar dos pares
mas verdes ramas da hera.

A cigarra morta canta
tua tarde de passagem
que a voz do bronze levanta

louvores a teu passeio
de gazela: leve aragem
ao coração, meu anseio!


(III)

São Mateus bebo teu verbo
conjugado na tintura,
semi-breve partitura
na regência d'um Efebo.

Ocarina chora uvas
esmagadas no sermão,
e esconde no coração
gotas vermelhas de chuvas.

Um pombo pousa na taça
evangelho vivo de asas:
traz ao bico, verde salsa.

A boa nova rascante
que me entra pela boca
doce beijo da amante.


EQUU

(para o poeta Rafael Courtoisie)

Nos astros me perdia logo cedo
enquanto a luz vestia-me de noites.
Então chorava no meu ombro o enredo
grave galope breve com seus coices.

As éguas do destino cospem medos
sabendo-me alazão de muitas foices,
ou pangaré lunar dos meus degredos.
Por isso perseguiam-me nas noites

àquelas mais escuras sem estrelas
nas quais sou presa fácil sem que fosse
porque flechando verbos sei contê-las.

Não eram éguas mouras dos desertos
senão potrancas férteis com seus roces
estas que vinham mansas muito perto.

DIONYSIO

Ungido para o fado e a nova festa
Meu carnaval profano já celebra
As quarentenas dívidas da carne
Na cela de costelas das mulheres.
Como devasso réu, confesso fauno,
No vinho das delícias me declaro
Sem culpa e sem pecado original
Pois nessa pena sou igual a tantos.
Já disse certa vez em cantoria:
De nada me arrependo e reconfirmo
Agora que o meu tempo é só de gozo.
A vida que me dou não dá guarida
Nem guarda desalentos de tristeza
Somente na alegria é que me morro.


CURTA PAVANA

O dorso que se curva arco elegante
desenha na memória a leve dança
da bailarina grácil, celebrante
de rito sedutor, que me balança

toda vez que me vejo tão distante,
torcendo meus desejos na lembrança
dos momentos vividos, no constante
aprendizado vasto da mudança.

Posto que a vida corre em curtas curvas,
transitória paisagem, vário atalho
que vai modificando linhas turvas.

Mutante claridade me agasalha:
no casulo do gozo de sussurros
sei-me bicho saído dessa malha.


SONATA PARA IR NA LUA



Desnudo já me dou de mim doendo
na doação das folhas da floresta
que vão caindo sem saber-se sendo
pedaços de nós na noite deserta

A lua imponderável vai ardendo
cúmplice em nossa luz de fogo e festa
Meus braços são dois galhos te dizendo
que o forte às vezes treme em sua aresta

Esta outra face frágil de aparência
que só aos puros é dado conhecer
no abraço da paixão e sua ardência
.
Mesmo cego de mim eu pude ver
e sentir no teu beijo a clara essência
que faz do nosso amor raro prazer

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clara arruda
 

Deixando aqui meus votos.Com sinceridade meu querido,não tenho preparo para comentar.
Deixei-me levar por suas palavras e as entendi do meu jeito simplista.
me perdoa por não estar preparada para comentar,me permita apenas sentir.
Um enorme beijo desa amiga que te admira e respeita.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 15/6/2008 13:13
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Alice Poltronieri
 

Anibal deixando meu voto com louvor...

Alice Poltronieri · Porto Velho, RO 15/6/2008 13:22
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ANIBAL BEÇA
 

Clara e Alice queridas, obrigado pela visita, pela leitura e pelos comentários. a leitura do poema é muito pessoal e única. Clara vc. sentiu ao menos a intenção das palavras e o ritmo do poema.

Beijos muitos

ANIBAL BEÇA · Manaus, AM 15/6/2008 13:32
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Compulsão Diária
 

Anibal (nome de gerneral cartaginês dos mais ferozes e corajosos). OPrimeira visita, primeiros votos. e aqui fica a boa impressão de uma leitora que quase lê Camões em sua lavra. aníbal, fortes versos impecáveis, plenos de significância e imagens. Poeta-pintor-performático só pela palavra?`Poderoso, poderoso!

Compulsão Diária · São Paulo, SP 15/6/2008 14:17
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Raiblue
 

Uma delícia de viagem pelo mundo dionisíaco...uma representação dos cultos de forma poeticamente linda!!!

Um brinde, com vinho tinto e suave!!Tim-tim!!
E viva Baco!!!rsssss...

Difícil escolher o mais bonito...mas adorei o 'sonata para ir na lua'...perfeito!!!

Parabéns,querido,supe rvotado!

beijinhos azuisinfinitos...
Raiblue

Raiblue · Salvador, BA 15/6/2008 14:21
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Cintia Thome
 

Anibal
Belos versos espumando o vinho das delícias e, danças, pavanas de contentamento consigo mesmo e aos luares, que a Lua tem suas fases e às vezes nos traz uma alegria, uma bonança e às vezes triste prata, mas sempre luar....
Abraços.

Cintia Thome · São Paulo, SP 15/6/2008 17:42
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graça grauna
 

ah, meu amigo Beça, tudo que você escreve me faz bem... tanto que até me atrevo a sair do triste abandono. Neste restinho de domingo faço de conta que está tudo bem e assim mesmo brindo a Dionysio pra não esquecer que o fazer poético também pode ser uma festa. Obrigada por você existir. Qualquer dia eu volto. Bjos.

graça grauna · Recife, PE 15/6/2008 17:45
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Cherry Blossom
 

Hoje é dia santo... E eu cá fazendo essas leituras... Valei-me de mim, meu Pai valei-me de mim...
Quero eleger um que valha o pecado, mas o páreo é cerrado.
No entanto...Cantares Bacantes III Que o santo vinho me proteja da minha libertinagem no templo de Baco!

Beijos no seu fim de domingo meu querido!

Cherry Blossom · Dracena, SP 15/6/2008 19:06
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victorvapf
 

Quando jogava xadrez, achava que jogava bem. Fui jogando, jogando, um dia participei de uma simultanea com um Mestre Internacional de Xadrez, Eugenio German. Ele jogou com uns doze enxadristas inclusive eu. Ele foi derrotando um a um, jogando mecanicamente, sem pensar, eu inclusive fui um dos primeiros a ser derrotado...Lendo seu poema, nao sei porque me ocorreu este causo, talvez porque voce seja o Mestre, como o Eugenio German, e eu me sinto estar jogando com voce e saindo de imediato desta simultanea...Parabens Mestre, votado

victorvapf · Belo Horizonte, MG 15/6/2008 22:59
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Compulsão Diária
 

Aníbal, esta Compulsão está em festa desde sua honrosa visita que, gentilmente, retribuiu a minha primeira para leitura e voto. .
Ô, poeta! Li Camões dentro dos seus versos. Que fazer? Aceitar minhas bvacantes portuguêsas? rsrs Livre-associação que não pára de dizer :(...)que, pois a minha pena é sem medida/Ali triste serei em dias ledos/E dias tristes me farão contente. Camões
Toda a admiração!

Compulsão Diária · São Paulo, SP 16/6/2008 10:04
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Sônia Brandão
 

Anibal, interessante o seu trabalho com o soneto, as várias formas com que pode ser tratada essa forma que não é tão fechada no tempo como parece.
Abraço.

Sônia Brandão · Bauru, SP 16/6/2008 11:56
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ANIBAL BEÇA
 

Agradecendo a todos pela leitura e comentários.

Abraço amazônico

ANIBAL BEÇA · Manaus, AM 16/6/2008 17:25
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Saavedra Valentim
 

Caro Aníbal,
Todos os poemas são maravilhosos mas a Sonata para ir à Luz, achei de uma sensibilidade e com expressões fortes e profujndas:
"Esta outra face frágil de aparência
que só aos puros é dado conhecer
no abraço da paixão e sua ardência"
Votado com muito prazer.
Abração

Saavedra Valentim · Vitória, ES 17/6/2008 22:17
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ANIBAL BEÇA
 

Saavedra querido, obrigado pela leitura e pelas palavras.

Abraço amazônico

ANIBAL BEÇA · Manaus, AM 21/6/2008 13:27
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