Três homens e um destino
“Eneida, você me mataria se eu te traísse?” Era a quinta ou sexta pergunta estranha que Bruno fazia à sua mulher nos últimos dias. “Eu hein, Bruninho, você sabe que eu não mato nem barata.” Não era bem isso que ele queria ouvir. Andava muito carente. Já perguntara à esposa se ela sentiria sua falta se viesse a ser abduzido. De manhã cedo questionara sua indiferença a seu corpo, enquanto urinava e escovava o dente ao mesmo tempo no banheiro. “Você nem repara mais em meus atributos físicos, Nidinha.” Ela mesma, a rainha da paciência, já estava perdendo a calma. “Meu amor, não peça para eu sentir tesão vendo você mijar com a boca espumando.” Bruno lera no jornal o caso de um homem assassinado por encomenda de uma mulher enciumada. “Puxa vida, nenhuma mulher que já tive pensaria em me matar”, pensava. “Uma surra, pelo menos, Nidinha, nem um corretivozinho?” O casamento já durava 20 anos, estava naquela fase se-passar-desta-semana-não-acaba-mais. Bruno já não se sentia como antes, além de ter uma característica de filho do meio: recalque de sempre ficar com as roupas usadas do irmão mais velho; ter menos de meia dúzia de fotos no álbum de criança, enquanto os irmãos – maior e caçula, possuíam coleções repletas de fotografias de aniversários, férias e batizados; ser sempre considerado o culpado pelos pais quando o caçula chorava ou quando enchia o saco do irmão maior. Enfim, Bruno já trazia uma bagagem emocional complicada, que se juntava com a insegurança natural da idade. “Nidinha, e se nosso vizinho de porta fosse o Brad Pitty.... você me trocava por ele?”
Bruno andava se sentindo muito acabado. Velho, feio, enfim, sua auto-estima estava colada no chão. Vivia pensando nos homens que tinham sua idade: George Cloney, Brad Pitty, Tom Cruise. “Pôrra, todos mais bonitos e elegantes”. Via filmes com esses astros no cinema e não se conformava. “Perto deles de mim parece que são meus sobrinhos”. Para piorar, Eneida adorava alugar o DVD de doze homens e um destino. Via e revia esse filme. Em suas crises de auto-estima sempre imaginava perder a mulher para qualquer um desses artistas. Bastava um deles se mudar para a vizinhança. Como se o Matt Dylon fosse se mudar algum dia para a Tijuca.
Por conta dessa crise toda, Bruno resolveu tirar umas férias e convenceu a família a se isolar dez dias, acampados na Ilha Grande. “Ok, Bruno, você venceu. Esse teu stress está deixando os meninos nervosos. Será bom para todos nós. Vamos levar uns repelentes e nos divertir”. E assim partiram o casal e os dois filhos. Foram de carro até Mangaratiba e pegaram o barco até a Ilha Grande. Nesta última etapa da viagem a estimativa era de uns trinta minutos até a Praia do Abraão. Após dez minutos de travessia, umas ondas mais rebeldes - nada que causasse qualquer preocupação e risco para os passageiros, começaram a fazer um balanço incômodo para quem não está acostumado a passear de barco. Bruninho, “fresco até a alma” – segundo sua mulher, começou a enjoar. Primeiramente ficou um pouco pálido. De branco para verde não demorou muito para passar. As gaivotas que acompanhavam o passeio despencando em vôos rasantes sobre as ondas incrementavam o clima dramático da cena: Bruno debruçado no parapeito do convés colocando os bofes para fora. “Pai, você está pescando?”, comentou o filho mais novo, sem compreender a posição estranha do pai.
Apesar de nunca ter ocorrido nada parecido nessas águas protegidas pela Restinga de Marambaia, uma onda gigante - do tipo tsunami, invadiu violentamente todo o convés da embarcação. Os filhos e Eneida, por sorte, foram jogadas para dentro da cabine, já Bruninho foi lambido por aquela imensa língua molhada e atirado no mar revolto. Em poucos minutos desapareceu e perdeu contato com o barco. Inicialmente tentou nadar, mas a barriga malhada de chope deixou bem claro que ele não poderia contar com ela. Após algumas braçadas se desesperou com as diversas ondas que iam e vinham. A força foi acabando e só restou para ele a fé de acreditar num milagre. E não é que aconteceu! De repente ele sentiu um empurrão para cima. Alguém o estava erguendo. Quando atingiu a superfície, pôde dar aquela respirada funda e sentir o ar penetrar nos pulmões. Virou-se e viu que não era uma pessoa e sim um peixe grande. Um boto ou um tipo de golfinho, não importava no momento se o bicho era peixe ou mamífero. O bicho começou a empurrá-lo com o bico e percorreram muitos metros até avistar um tronco boiando. O boto o deixou em segurança e antes de ir embora ainda virou-se para ele pulando, como que se despedindo e desejando boa sorte. Bruno, então, percebeu que o mar voltara à calmaria. Porém se encontrava muito longe de qualquer vestígio de terra firme. Foi quando, para sua surpresa, outro milagre ocorreu. Passou por ele uma tartaruga gigante que atingiu e destruiu o tronco em que se equilibrava. Só restou para ele a opção de montar no bicho e seguir viagem. Eram centenas de tartarugas imensas “seguindo para algum compromisso muito importante”, pensou. Viajaram cerca de 30 minutos e Bruno avistou um estreito pedacinho de areia com muito pouca vegetação. Em pouco tempo estavam desembarcando num pequeno paraíso ecológico. Quando desmontou do bichão, percebeu que todas as tartarugas estavam caminhando para cavar ninhos. Depositavam centenas de ovos, os cobriam, e retornavam para o mar. Avistou uma placa fincada no pequeno terreno com vegetação rasteira ao lado de um coqueiro carregado de frutas onde um aviso indicava: Área ambiental protegida. Proibida visitação ou permanência. Projeto Tamar. E agora? Pelo que já tinha ouvido falar, o tal Projeto era de preservação das tartarugas marinhas.
Bruno ficou duas semanas comendo ovos de tartaruga. Tomou cuidado em só comer os ovinhos atacados por predadores. Por sorte havia coco suficiente para beber água. Não entendia muito o porquê daquele “terceiro pequeno milagre de existir um coqueiro por perto, além de pequenas lascas de pedra que possibilitavam abrir os cocos”. Em volta deste pedacinho de praia intocável passavam muitos barcos de pescadores. Durante esses dias intermináveis Bruno acenava desesperadamente para eles. No entanto, pensando em se tratar de um fanático biólogo responsável pela proteção da reserva, os homens desses barcos fugiam rapidamente. No fim desse período de cerca de 15 dias, uma embarcação do Projeto Tamar finalmente chegou e ele pode ser resgatado. Antes, porém, ouviu poucas e boas dos biólogos que o acusaram de ameaçar a cadeia ecológica da região devido à enorme quantidade de cascas de ovos quebradas.
Bruno foi deixado em casa pela equipe de biólogos, já satisfeitos com a sua explicação a respeito do excessivo consumo de ovos da ilha. Quando entrou em casa achou tudo muito diferente. Móveis novos, arrumação nova. Subiu as escadas e viu a cena mais chocante de sua vida: Eneida estava deitada ao lado de um homem estranho, muito parecido com o Tom Cruise. “O que é isso, Nildinha?” Sua mulher deu um pulo da cama e olhou para ele como se visse um fantasma. “Bruno. Você está vivo?!” Seguiram-se horas de tensão. Bruno queria explicações; Eneida tentava explicar; o Tom Cruise não entendia nada. “Bruninho, meu amor, eu casei com ele porque achei que você estivesse morto”. Eneida falava e choramingava ao mesmo tempo. “Sua ingrata, foi só eu morrer por duas semanas que você me troca por esse bonitão aí”. O tal bonitão já estava pensando nas conseqüências da anulação do casamento. “Pôxa, Eneida, você me disse que ele havia morrido há dois anos. Que mentira foi essa?” Bruno, num misto de sentimentos, retrucou com rispidez: “Não a chame de mentirosa porque você mal a conhece”. Nisso, para piorar a situação, os dois maridos começaram a discutir. E o sentimento de animosidade foi crescendo na mesma proporção que o tom de voz de ambos. Não poderia dar em outra coisa: o pau comeu, e Bruno se deu mal. Levou um soco e desmaiou.
Bruno ouviu uma voz de mulher chamando de longe: “Acorda Bruno.... Bruninho, meu amor, acorda“. Foi um susto só. Bruno despertou de um sono profundo. Tudo estava confuso. Aos poucos percebeu que tudo não passara de um sonho. Onda gigante, boto, tartaruga, ilha, Projeto, coqueiro, Tom Cruise. Nada disso existiu. Ele desmaiara no caminho entre Mangaratiba e Ilha Grande de tanto passar mal no barco, e estava deitado no cais de desembarque da Praia do Abraão. Estava cercado pela mulher, filhos e outras pessoas que o acudiam, tentando desperta-lo do desmaio. “Graças a deus, Bruninho. Puxa vida, que susto você me deu. Estamos há horas tentando te acordar. Ainda bem que este moço simpático aqui ao meu lado me ajudou. Ele é médico americano e está de férias no Brasil. Você está bem?” Bruninho levantou meio zonzo e viu bem a figura do turista que o ajudara. Era a cara do George Cloney.
Apesar de nunca ter ocorrido nada parecido nessas águas protegidas pela Restinga de Marambaia, uma onda gigante - do tipo tsunami, invadiu violentamente todo o convés da embarcação. Os filhos e Eneida, por sorte, foram jogadas para dentro da cabine, já Bruninho foi lambido por aquela imensa língua molhada e atirado no mar revolto.
INicio sua votação!
gostei muito do seu texto!
Beijos poéticos
Amigos, preciso da ajuda de todos !
A situação é séria !
http://www.overmundo.com.br/forum/caca-aos-fakes-2
Obrigado, Alcanu & Compulsão Diária
{ Não somos paranóicos }
Gostei e votei em seu texto.
Um bj doce,
Sílvia
Lui,
Pelo exército já tirei serviço noturno nessa restinga, lá o bicho pega mesmo. Abraços e voto.
Que conto! Adorei e ainda vou reler. O que não faz a imaginação!!!
É com prazer que te edito.
Bjsssssss
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