1
Quem sou eu
se o espelho do banheiro me mostra a língua
e ninguém me mostra as entradas
somente as saídas?
E até mesmo minha sombra zomba de mim?
De onde vim
se estou plantado no meio de um jardim
Imaginário repleto de quinas e lixo?
Para onde vou
se meus bolsos perdem perdão
aos roncos de minhas tripas
e os meus dentes fantasmas reclamam
o tempo todo a falta de um palito amigo?
E se cadáveres de um futuro arcaico
se desmancham rente a bustos
de histórias duvidosas?
2
O pau
que não nasce torto
não importa
- Entorta-se.
3
Homens se arrastam
em direção ao céu
carregando blocos de mármore,
cimento, vidro, aço
e depois
retornam à superfície
sob o peso de suas sombras
e depois
se arrastam pelas ruas
despossuídos e envergonhados
- pelas ruas da cidade
que é seu suor, mas não é sua.
Três curtos e muito bons poemas. Devo confessar que o primeiro me causou a melhor impressão.
Marcos Pontes · Eunápolis, BA 2/11/2008 13:27
Concordo com Marcos.
Os poemas são ótimos, em especial o primeiro.
beijos
Errata: em vez de "perdem perdão" o certo é "pedem perdão"
Obrigado Marcos, pelo toque. Obrigado Saramar.
Achei todos os poemas ótimos, como tudo na vida é uma questão de identificação o terceiro poema foi o que mais gostei, me fez lembrar do poema de Vinicius de Moraes O operário em construção, o teu terceiro poema é sencível ao tratar das pessoas que trabalham e não são donas, talvez nem do que produzem nem donas de si.
claudia gomes · Salvador, BA 3/11/2008 20:49
Obrigado, Cláudia,
ser dono de si é sempre complicado como se vê nos 3 poemas: nem nascer "reto" garante a posse de si mesmo. Na maioria das vezes, trabalhamos apenas para sobreviver: trabalhamos apenas para poder trabalhar mais e assim garantir nossas vidas, com direito ao churrasco, ao futebol de fim de semana, torcendo por quem não torce por nós, aliás torce apenas o nariz.
Como mudar isso? Eis a questão.
Abraço, Cláudia.
Ótimo texto Fernando, nem as ruas que construímos nos pertencem, eu ainda acredito que pode mudar.
Um abç...
Fernado,
Tres pérolas. Todas elas nasceram retas...
Um abraço
Excelentes! Grande abraço Fernando!
Stella Tuttolomondo · Rio de Janeiro, RJ 5/11/2008 12:17
Três poemas distintos...
três feições diferentes...
Um, é o homem na mata (do seu ser)... entortando-se ao amoldar-se à vida...
Outro é um homem urbano... numa cidade que não é sua...
E o primeiro, numa busca inútil de sua essência, indaga ao tempo do espelho perdido...
Parabéns.
Gostei muito dos dois últimos...
Mas o primeiro lembra alguns ares de Cecília.
Abraço.
Lustato
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