LUMINE
Aníbal Beça ©
Como quem rabisca calçadas remotas
escrevo com os cacos da nossa infância.
Tu tinhas a palidez ruborizada dos anjos
e eu as mãos trêmulas de um tocador de harpa.
Tudo era sacro em céu profano.
Deitados tínhamos nossa própria luz
as sombras nossos lençóis
e o escuro era o mundo de fora.
Essa memória que me assalta
por um instante ilumina tua boca e a minha
úmidas do primeiro orvalho.
MORINGA
Anibal Beça ©
Rego tua língua fresca
com água de sílabas
enquanto pétala de argila
um alfabeto sua poroso
no barro da palavra.
Boca de argila furtiva
carregas um deserto
na aridez do desejo
mas é dentro de ti
que brota o silêncio do cacto.
Falo do meu oásis
(envenenada miragem)
bebes e matas tua sede
samaritana
suicida
saciada.
O BEIJO
Aníbal Beça ©
“Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada”.
Herberto Helder
“Boca ó minha delicia meu néctar eu te amo“
Gillaume Apollinaire
Punhais de nuvens descem com os ventos
Desembainhados nos lívidos lábios
Abrindo à fuga o fogo do momento
Seda e linho se atiçam nesse acaso
Para a chuva de sílaba imanente
Regando a pele fina que se enlaça.
Úmido aço no laço sem tormento
Desfaz todos os nós toda trapaça:
Molhado lambe a língua rio fluente.
A porta se escancara e tudo passa
Sem grãos medindo a hora nua ausente
Enquanto mãos caçando viram caça.
A fala dos afetos frente a frente
Derrete-se ao veludo das palavras
E vai esvaziar o véu silente.
Nervura calipígia denso espasmo
Revira persiana iridescente
Raio de íris fremente em mar de pálpebras.
Estrela negra rompe o céu cadente
Rútila brilha a lira acalentada
Desfalecendo o arpejo umidamente
Suor falaz dos poros pelos flancos
As mãos soletram montes num poente
De um sol mormaço rubro caligráfico
Escrita em arrepio abstinente
A ausência se estertora em ímã sáfico
Um hino de atração soa dolente.
Dois lábios que se encontram num abraço
São asas de avoantes reticentes
Mas sabem do selvagem no céu vasto.
.
"Tua língua
moringa
transbordando
palavras
líquidas
beijando
a imaginação
à flor da pele...
desenhando
esculturas
de sílabas
envolvidas
no barro
e nos rios
do amor... "
Belíssimos versos...profundamente delirantes....apaixonei-me....virei sempre matar a sede aqui....nessa sua moringa ...que guarda o segredo das águas do amor....
Super parabéns,Aníbal!!
Muito prazer em te conhecer!!
Beijinhos azuiszen....
Rai...blue
Raiblue querida, obrigado pela leitura e pela bela glosa ao MORINGA. Você é soteropolitana? Tenho uma sobrinha que vive na Bahia. É diretora e atriz de teatro. Chama-se Nadja Turenkko, conhece?
Ternura e carinho
Nossa, que obra-prima, versos fortes e cortantes como uma asa de mariposa à busca da luz....vo(l)tarei. Parabéns.
Cristiano Melo · Brasília, DF 4/5/2008 18:36
Ler seus verso sé deleite e encanto.
A elegância desses versos, a beleza das imagens, o ritmo se unem para tirar o fôlego.
Como disse Keats:
"A poesia é sempre uma surpresa,
capaz de nos tirar a respiração
por alguns momentos."
Seus versos certamente, nos tiram a respiração.
beijos
Aníbal...obrigada pelo belo poema deixado lá na minha página.....encantada...
Conheço, sim...de vista...grande diretora e atriz..muito famosa por aqui....pelo visto 'talento' é atávico mesmo...
Voltarei com certeza...e com muita sede...heh
Mais um beijo...querido...azulzinho...
Rai..blue
Anibal,
o que dizer, faltam palavras, pois você as usou todas. Agora é só aplaudir!
Sensualidade, elegância, erudição, numa força emocional incrível.
Até mais!
Versos primorosos, sede dos poetas...
Encanto
Quero agradecer aos companheiros e companheiras pela generosidade. Quero aqui compartilhar não só o meu trabalho, mas, sobretudo, dialogar para aprender.Muito obrtigado pela companhia.
Ternura e carinho
Nossa, Anibal, que riquesa de versos em poema maravilhosos!
Adorei todos!
Grande abraço
Branca querida, muito obrigado pela sua visita e por ter gostado. Volte sempre.
Um cheiro da floresta!
Como quem rabisca calçadas remotas
escrevo com os cacos da nossa infância.
um poema que começa assim
tem tudo para ser lembrado.
meu voto
um abraço
anibal, sua poesia é ótima, evoca sentidos e sentimentos, é densa, é rica, é pura expressão do poeta estando no mundo( externo e interior) Li também seus trabalhos lá na edição, as homenagens aos poetas... que maravilha de textos. são parte de livros teus? Obrigado por esses belos presentes!
danlima · Brasília, DF 6/5/2008 19:21
Danilo, são inéditos, mas fazem parte de uma reunião de 5 livros sob o título de PALAVRA PARELHA. A saber: "Cinza dos minutos", "Chuva de fogo", Lâmina aguda", "Cantata de cabeceira" e o que dá nome à reunião. Já está no prelo, e sairá, espero, aida este ano, pela Editora Topbooks. Obrigado pela leitura e pelas palavras sempre simpáticas.
Abraço amazônico
Pela primeira vez lendo seus poemas, depois de ler tantos comentários, entendi a propriedade com que fala das obras dos outros. Você sabe das coisas.
Marcos Pontes · Eunápolis, BA 6/5/2008 20:53
Caríssimo Aníbal,
Estou aqui convicto de que não devia estar noutro lugar. Nestes tempos poluídos, bebi água fresca. Que bom!
Um abraço.
Uma enxurrada de poesia, da boa, coisa de amazonense, perto "daquele" rio, aí já é covardia, pô !
Um abraço, Alcanu
Belissimos poemas, Anibal.
De uma beleza rara e liquida, como as águas da tua terra...
"Lumine" é obra prima...
Abraços!
Poemas que são como boca de perau.
Valeu "seu mano".
Abçs.
Olá Anibal!
Belos poemas amorosos
Sensível_Sensualidade
Em céu cadente ...
Beijos_Meus*
*
Quando fui votar já tinha ido para o banco, eita que o povo tá ávido por leitura boa, fico feliz que tenha um grupo que se dedica a produção de textos de qualidade. Parabéns meu caro.
Cristiano Melo · Brasília, DF 7/5/2008 09:14
O meu agradecimento mais sincero aos colegas que vieram deixar aqui as suas impressões. Do mesmo modo, aos que votaram para a permanência dos poemas. Fiquei temeroso, ao ler o comentário do colega Marcos Pontes, sobre a alusão à minha "sabença". Marcos, querido, não sou o "sabe tudo" não. Estou aqui aprendendo com todos. Pela leitura de seus poemas. Acho que o diálogo crítico é muito proveitoso. Aqueles que tiverem vontade de expor algum comentário sobre meus poemas façam-no, serão muito bem-vindos. Essa é que a verdadeira convivência. Conversando entre os pares, ajudando-os e ajudando-nos. É isso.
Um cheiro de patchuli
Passei para reler este belo poema. Um abraço, Aníbal.
Karimatra · Salvador, BA 8/5/2008 20:38
KARIMATRA, MEU QUERIDO, OBRIGADO PELA REVISITA E RELEITURA. ACABEI DE POSTAR NOVOS POEMAS. GOSTARIA DE SUAS IMPRESSÕES POR LÁ. VOU VER O QUE VC. ANDA TRAMANDO TAMBÉM.
ABRAÇO AMAZÔNICO
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