Espanto e riso quando Zig chegou para depor. Orgulhoso como sempre fora, dispensou o auxílio da enfermeira e caminhou apenas apoiado em sua “Frida” – a bengala de marfim que o conduzira, já desde os tempos das esquinas da zona leste – até a cadeira destinada às testemunhas.
Causa ganha!
Foi esta a primeira idéia do advogado de defesa, que deixou transparecer um indelével ar de felicidade por julgar o quão irrelevante seria o seu testemunho.
O titular da acusação não carrega consigo a condenação como favas contadas. A muito que se esforçava para continuar acreditando na justiça, mas completamente desiludira-se com os homens das leis após tantas sentenças esdrúxulas, pareceres tendenciosos e a odiosa prática da procrastinação; cada vez mais constantes. Embora jamais abrisse mão de debater até a derradeira batida do martelo.
O ilustríssimo juiz parecia ter pressa e, de alguma forma aparentava não estar ali. O corpo que se via sob aquela toga transparecia estar abandonado de qualquer senso de dever.
Expressões de ar enfadonho ou incontáveis olhadas no mostrador do relógio que se encontrava instalado sobre as cadeiras da platéia lembravam um guri desinteressado que, por obrigação, vai à aula de catecismo e passa o tempo a contar minuto a minuto à espera pelo fim da aula e pela restituição do seu direito de poder pecar.
E toda aquela monotonia e encenação foi quebrada pela presença e atitude do mendigo.
- Um júri dividido, porque é isso que de um júri se espera. Já que júri unânime beira a formação de quadrilha. Disse um Zig zombador - que poucos ali imaginavam que pudesse existir - e que trouxe à encarnação o meritíssimo ao indagar contra todos os presentes:
- O que mais precisaria um juiz ter além de seus títulos, honradez, nome e sobrenome; se não, tão e simplesmente, juízo?
Ao advogado de defesa – invertendo a mecânica de que a uma testemunha só cabe responder – coube a seguinte indagação:
- Onde compras seus travesseiros, também podem lá comprar as vitimas ou os parentes delas, as testemunhas, e a opinião genuinamente pública; ou só aos bacharéis é outorgado o direito de dormir, independente de que existam omissões, má fé, calúnias, imperícias, fraudes, corrupção, vandalismos, lenocínios, latrocínios, estupros, tráfico e tragédias?
De olhar arregalado sobre a armação grossa dos óculos, ficou o promotor público, que não pode ficar imune à lâmina filosófica de Zig.
- Me permiti vir aqui por acreditar em mim mesmo, e não nos seus conceitos de justiça. Não vim fazer justiça e acredito que o senhor também não a faça, embora saiba que é dela que sobrevives.
- Hoje estou a permitir que me uses como um instrumento do seu sustento, mas espero que ao colher seus outros futuros frutos, dê a devida importância para as suas raízes.
O réu foi contido pelos agentes e levado embora sob os gritos de “assassino”, “assassino” e Zig não se sentiu o herói - como se supunha entre a platéia que acompanhara o que ele descreveu como um espetáculo da lei – fazendo questão de declarar à imprensa que se acotovelara na porta da comarca:
- Vi mortos na guerra e mortes que não eram crimes, porque crime é forjar e fomentar guerras.
- Vejo mortes nos jornais e todo mundo também as vê nas TVs e toda uma indústria que dessas mortes se alimenta. Mas por essas não sei a quem chamar de criminoso porque tanta gente envolvida há.
- Vi morte por um gole de pinga ou por um pão duro mal repartido, mas nunca soube a quem na verdade poderia eu acusar, se ao Ministro da Habitação, da Educação, da Saúde ou da Economia.
- Mas vi alguém morrer, apenas por ter nas vestes cores diferentes. E quem, esse sim pude identificar como criminoso, foi por essa morte responsável não era um simples ser daltônico e sim um homem intolerante.
- Assino o que digo como Ziguefredo, que faz tempo nasceu sem nome, deu seu suor em combate onde também poderia ter dado a vida, vida que a duras penas foi vivida, mas que faz questão de morrer na paz dos decentes.
Este texto já estve aqui, e acho que ele merece uma segunda chance.
Faço aqui um comentário,se não ético ao menos humano.
A lei não foi feita de igualdde.lamentável!
um código penal cheio de brechas,advogados e juizes comprometidos.Essa sim é a lei que impera no Brasil de muitos anos e sem democracia.
de cujos podemos alimentar a perda.mas sem dúvida justiça não há em igualdade.Seu texto maravilhoso,com atenuante,agravos,recursos....uma infinda burocracia jurídica.
meus 6 votos e meu carinhoso obrigado.
Seu texto nem devia pedir 2ª chance...era pra ir pro Banco na 1ª chamada...
vo(l)to !!!
Luis...
Abri a votação!
parabéns pelo maravilhoso texto.
Beijos
VOTADO PARABENS.
http://www.overmundo.com.br/banco/a-essencia-de-mulher-e-o-amor
Em votação...
Visite ..
Aqui estou para a segunda chance.
Parabéns.
Conto de qualidade de um autor que considero genial. Já tive o prazer de ler outros textos, um melhor do que o outro.
Swet · São Paulo, SP 12/4/2008 17:39Muito bommmmmmmmm Luis.ó...dou carinho e voto!!Devia ter passado de prima!!!Carinho carioca!!
nina araújo · Rio de Janeiro, RJ 12/4/2008 18:03
Poxa, deveria ter sido publicado na primeira chance. Mt bom, parabéns!
Carlos Parrini · Rio de Janeiro, RJ 12/4/2008 19:27
Sem dúvida, o texto é muito bom, embora careça de uma outra parte para dar o completo entendimento de quem são os personagens.
Acho que não foi publicado da primeira vez por falta de publicidade. O pessoal por aqui condena bastante a publicidade. Eu não, acho essencial para quem deseja ter a publçicação publicada. Ir a cata de quem aprecie o seu trabalho, convidando para a leitura. Acho que é uma boa publicidade.
De minha parte pode convidar sempre.
Grande abraço Guaicuru!
Votado e publicado!
Parabéns! Um fraterno abraço!
Muitissimo bom meu amigo, é com prazer que deixo meu abraço e voto. Abraços
Falcão S.R · Rio de Janeiro, RJ 13/4/2008 01:55
Luís, gostei do teu conto. Inteligente e muito bem escrito.
Letícia L. Möller · Porto Alegre, RS 13/4/2008 08:29
Luis,
Muito bom. Faltou o Ver Gente Morrer por Ter na Pele Cor Diferente. Mas está sub-entendido. Muito lega,.
um abraço, andre.
HUUUMMMM... apesar de um ou outro "escorregão" gramatical, a estória é bem construída, argumentos sólidos e esclarecidos. Mas, na vida real, eu/você/Zig seríamos calados já na primeira oração e (re)tirados do Tribunal se insistíssemos.
BELO TRABALHO... a insistência do personagem e também do Autor nos dá a oportunidade de conhecer um "shortstory" policial muito bem desenvolvida. (E mestre André aproveita para "vender seu peixe"! Sou "branquelo", caro amigo, e aqui no Pará ainda não vi Justiça em nenhuma DAS 6 VEZES nas quais apelei para ela.)
O peixe dessa vez foi bem votado. Ótimo texto meu caro!
raphaelreys · Montes Claros, MG 14/4/2008 07:15
Ôhhh grande!
Gostei muito do pobre Zig,
reflexo de uma justiça que
se faz, ordinariamente,
omissa, desde os primórdios...
Grande abraçooo!!
Gosto do seu estilo, escreve com clareza, transparência e objetividade !
Um abraço, meu amigo !
luís,
que exercício de liberdade
trazes nessa pena
que, mais do que leve e pesada,
rompe, mostrando a riqueza que está (embora muitas vezes desperdiçada)
entre as tolas e preguiçosas dicotomias
que reduzem tanto o nosso presente (cotidiano)
esse gesto é maravilhoso!
tornar visível o que muitos querem manter na invisibilidade...
tornar crível o que muitos querem descredibilizar...
bravo!
abraços ternos!
Luis Santana · Rio de Janeiro (RJ) ·
Tribunal
Cada texto seu a gente sente que é parte de um Livro.
Desenvolve bem os temas.
Descreve com perfeição.
Na leitura dos seus escritos a gente ve a cena.
Parabéns Escreve muito bem.
Fixa a gente na leitura.
Muito Merecimento.
Abraço Amigo
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