Solidão foi ver o mar.
Foi contente à capital,
Contemplando lindas serras...
De um lado tinha o Sonho
E do outro, a Plenitude.
O Sonho, sorriso puro
De magnífico afeto!
A Plenitude, de olhos verdes
E de cabelos dourados.
Amigos inseparáveis,
Companheiros verdadeiros,
Poetas de um mundo louco,
De loucuras incontáveis,
De amores impossíveis,
De leveza insustentável.
Solidão não tinha pernas
E foi nos braços do Sonho
De encontro àquelas ondas.
O Sonho então carregava
Em seus braços Solidão.
E a fazia sorrir...
E, entre risos, chorar...
E ao contemplar o mar
Nos braços de um poeta,
Percebeu a Solidão
Que nunca estivera só,
Pois em meio à imensidão,
Tinha o Sonho presente.
Caminham lado a lado
Contemplando lindas serras
Em direção ao poente.
Certos de que em frente
A Plenitude os espera.
Gostei, Poeta. Parabéns!
Obrigado, Edna.
Seja bem-vinda!
Meti-me em devaneios e resolvi que seria significativo (ainda não sei bem a quem) que me pusesse a escrever sobre a gestação e o parto desse poema. Então, aqui vai.
Fui privado da sensação de me suster em minhas próprias pernas aos nove anos de idade. Fato bastante significativo para o curso de minha existência: “a vida inteira que podia ter sido e que não foi”.
Nos primeiros anos em que aprendi a viver com um novo eu, pegava-me, muitas vezes, a divagar por cenas de uma época de pernas e aventuras infantis. Uma delas acontecia na praia da enseada, no Guarujá. Morávamos a pouco mais de dois quilômetros do litoral e, aos Domingos, parece-me ainda viva a lembrança, sempre íamos para lá. Era ali que me transfigurava em Tarzan, assim que vestia minha tanguinha preta e empunhava uma daquelas facas de plástico que acompanhavam alguns doces que comprava. Nas aventuras vividas, sempre enfrentei crocodilos enormes e onças e leões que se banhavam naquelas águas. O tempo foi aos poucos apagando as lembranças sensíveis de pés enterrados na areia fofa, de vento salgado no rosto e de pele úmida à milanesa.
Aos oito anos de idade vim embora para a terra de meus pais, minha terra.
Em Nossa Senhora da Glória, a vida foi mais severa conosco e não nos permitia a regalia de viajar 126 quilômetros para ir à praia, na capital Aracaju, de forma que até meus 19 anos estive muito distante daquelas sensações.
Já por essa época cometia meus poemas descaradamente. Lia-os em voz alta para minha mãe, enquanto preparava a comida ou lavava a roupa, mostrava-os aos amigos e pensava seriamente em publicá-los. Sentia-me poeta e escrevia por uma necessidade existencial, era minha forma de estar no mundo.
Inscrito num concurso público, precisei ir à capital para as provas. Fui com dois amigos, também aspirantes a poeta. Dever cumprido, o horário ainda o permitia, decidimos passear pela orla de Atalaia. De repente, todas aquelas sensações começaram a bolinar-me em silêncio. Parado diante do mar, celebrava silenciosamente o reencontro com a paisagem e sentia um dedo de melancolia por não poder dar ao meu corpo o prazer táctil e térmico de comungar com aquelas águas. Percebi então que meus companheiros maquinavam algum plano. Subitamente, um deles arrancou-me da cadeira de rodas e, rindo (os dois) às gargalhadas, começou a me levar para as águas. Surpreendido e apreensivo com a brincadeira, pedia que me devolvessem à cadeira e acabassem com a piada, embora, intimamente, rezasse para que não me atendessem ao pedido até que pudesse sentir novamente meu corpo nas águas. Sensação indescritível. Extasiado, o corpo leve a boiar, tive a impressão de ser abraçado, não só pela amizade, mas também por aquele espetáculo simples e comum da natureza. O sal, o Sol, a leveza do corpo, a suspensão nas águas, as gargalhadas, a lágrima furtiva que consegui esconder naquele momento, me tornaram pleno por alguns instantes. Todo eu. Todo Ser. Não pernas nem limitações, mas Ser, sem limites.
De volta à realidade, devolvido ao meu canto, seguimos nosso roteiro premeditado e fomos, cobertos de areia, ao cinema no shopping. Filme bom? Não sei. Durante o resto do dia, fiquei numa espécie de transe e sentia profundo que um poema havia sido fecundado em mim pelas águas.
Em casa, no sossego do quarto, tentei realizá-lo em palavras. Nada. O momento era grande, eu pequeno (parafraseando Drummond). Era de parar e simplesmente sentir.
Algumas dias depois, novas tentativas. Nada, pelo menos que julgasse à altura do fato que lhe dera origem. Duas semanas depois, veio-me o seguinte poema acima.
Gostei dele, embora não revelasse o que me vinha na alma. Talvez a poesia fecundada naqueles momentos me acompanhe pelo resto de meus dias. Contudo, a personificação do Sonho, da Plenitude e da Solidão obscurecia seu sentido, de forma que possibilitava outras leituras, e isso me agradou.
Gostei demais desse poema.
Foi um prazer lê-lo várias vezes e votar nele.
Depois volto para ler seu depoimento.
beijo
Olha poeta Jorge, este poema tá muito interessante. Parabéns pelo trabalho, poeta.
Carlos Magno.
Obrigado, amigos, pelo carinho.
Um abraço.
Poeta, grande poeta! Que história rica de sentimentos, sensações, superação e expressão poética. Parabéns!
Merecia até estar na fila de edição. Já teria o meu voto.
Achei fantástica a viagem até a origem deste dom, que inexplicavelmente se instala, provocando todos os sentidos reais e imaginários, fundindo sonho com realidade, realizando nas palavras e indo além delas. Entendo a maturação das sensações no silêncio. É como curtir um pouco mais o presente antes de dividi-lo com o mundo; é buscar o canal ideal, a forma, o colorido especial pelo qual será conhecido - maior dos desafios. Você topou o desafio e compensou. Continue semeando emoções.
Obrigado, Edna. Fico lisonjeado.
Poeta Jorge Henrique · Nossa Senhora da Glória, SE 27/4/2007 21:19
Por nada. Seu trabalho é muito bom! manda mais.
Edna Queiroz · Rio de Janeiro, RJ 27/4/2007 21:38
Rapaz... muito bom!!!
Parabéns!!!
Obrigado, Geferson.
Seja bem-vindo!
Um abraço.
Por nada.
Trabalho da nossa terra como este tem q ser valorizado.
É muita riqueza!
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