O segundo dia de novembro é a data que todos cultuam, com maior sentimento, os seus parentes amados que o caminhar traiçoeiro da morte escondeu para sempre nas profundezas frias da terra. No calendário da vida é o dia mais triste do ano, enfeitado pelas flores das recordações e umedecido pelas lágrimas das saudades. É momento de desarrumar corações, de reabrir as feridas da alma.
A vida, em contraste com a imobilidade eterna da população que repousa a sua matéria no chão dos campos da paz, é tumultuada nesse dia pela visita de tantos viventes aos túmulos e às valas comuns onde jazem pais, mães, filhos queridos, irmãos, amigos, anônimos. Ricos e pobres, bons ou maus, incultos e letrados, a morte na sua aula diária, inexorável, nivela-os no silêncio e no mistério dos cemitérios igualando todos na natural decomposição orgânica da matéria, de tão insignificante valor, que produz a mesma luz nascida do lodo, a chama azul do fogo fátuo.
Finados! Dia de sombra emoldurado pelos ciprestes que se perfilam como fiéis guardiões das entranhas do descanso do corpo. Dia de relembrança de tantos que passaram em trânsito para o nada e de muitos que partiram do efêmero porto da terra para se deliciarem com as musicas celestiais na eternidade.
A profunda filosofia chinesa diz "que depois da floração tudo volta à sua origem". É a lei da reversão eterna. Para alguns a vida é apenas a sucessão monótona e fria dos segundos assinalando o sofrimento e a incansável luta pelas coisas materiais da vida. Para muitos, entretanto, é um passo além de todas as estrelas, uma passagem para a verdadeira vida no mundo de Deus, sem dores, sem desventuras, onde o amor e a verdade são intensos raios de luz, doces abrigos que acolhem o divino, o sobrenatural, o mistério da fé.
Viver e morrer são fenômenos tão antigos que contam a idade do próprio tempo. Contudo, grande parte da humanidade teme a morte porque pensa que é o fim, porque nada sabe do seu mistério insondável, porque não acredita nos ensinamentos de Cristo, na suprema bondade de Deus, ofertando para todas as boas almas o privilégio do Paraíso, a paz da Casa da Vida.
Que todos nós, com os corações partidos de tantas saudades, consigamos lembrar que as lágrimas de dor que são derramadas nos mausoléus de mármore, têm a mesma intensidade, os mesmos sentimentos daqueles que choram nas covas rasas e simples. Que possamos não acender no dia destinado aos mortos a chama da hipocrisia, diferenciando dores, sentimentos, o silencio do vazio interior. Hoje o pranto é igual para todos. Se todas as orações sobem ao céu, todas as lágrimas caídas seguirão um mesmo caminho formando o mais triste dos mares ou o mais silencioso dos remansos.
Dia de Finados! Data comemorada pelos prantos das velas em procissão, pelo perfume das flores, pelo soluço da saudade que tem morada no coração. Dia de respeito e veneração, da alma sobre a matéria, das orações que sussurram nos lábios e vão ecoar nos céus. Dentro dos que vivem, vive um silêncio de catedral, da nave soturna e confortadora.
Paz às almas que nos antecederam na infalível viagem sem regresso e sem exceção aos que já voltaram ao seu lugar!
Noélio, apenas você, com essa doce sabedoria, com a alma angélica, eivada de carinhos, pode assim nos confortar, relevando a própria e perene dor.
O dia mais triste do calendário, com suas palavras, fica mais leve, menos cinza, porque antevemos nelas, a promessa solene do Santo Filho.
Obrigada.
beijos
Olá,Noélio,
essas duas últimas crônicas mostram o tamanho da tua fé e uma enorme vontade de desvendar os segredos divinos. Talvez nem seja desvendar... é acreditar mesmo nos mistérios de planos superiores.
Já perdi muitas pessoas queridas, não gosto desse dia e nem visito muito os túmulos, acho tudo muito triste. Mesmo assim, esse dia não consegue passar despercebido por mim, porque a saudade aflora ainda mais.
Ler o teu texto me dá mais esperanças.
E como sempre, muito bem escrito!
Bjs de Betha.
Noelio, parceiro e amigo!
Esta página (ingrata) do livro anual da vida, eu já a extirpei
de mim - e para sempre. Nego-me a folheá-la.
Força, amigo! Está entendido o porquê...
Abçs.
Benny Franklin
estou com Benny, eu não cultuo este dia, apenas continuo a oração, mas não faço dese dia tão triste assim...ainda mais que é o mes de aniversario de meu querido filho e tive dias tão lindos com ele, nestes dias tristes do calendario...adorei o textoN
Cintia Thome · São Paulo, SP 30/10/2007 17:11Noelio...todos os dias são para orações para os que vão e para os que aqui ficam...bjubju
Cintia Thome · São Paulo, SP 30/10/2007 17:12
Saramar e Betha, obrigado por suas presenças sempre doces e que lêem com profundidade tudo o que escrevo.
Beijos no coração de vocês.
Noélio
Cíntia, querida amiga.
Deixei um recado no seu perfil. Eu também não preciso da compulsória do dia 2 de novembro para derramar prantos de saudades. Meus pés também não pisam a terra encharcada de lágrimas dos cemitérios, até mesmo, porque meu filho querido tem sua matéria repousada nas terras frias de Campinas. Sua alma, entretanto, voa longe, com asas alvas que lhe foram dadas por mãos divinas.
Acontece que quando escrevo não posso ter o egoísmo de escrever somente para mim. Escrevo para quem precisa. Existe uma infidade, uma legião de pessoas, que cultuam esse dia como um momento de reverência aos seus mortos. Acreditam na matéria, mais do que nas almas. É para eles essa crônica. Não me cabe julgar seus sentimentos. Mas confortá-los. Se para um coração uma palavra de alento faz bem, essa palavra não esqueço de falar.
No meu texto falo que os homens não sejam hipócritas nesse dia, diferenciando dores, as covas rasas dos mausoléus de luxo.
Triste Calendário não semeia e nem perpetua a dor, mas lembra daqueles que ainda desacreditam que a verdadeira morada dos que partiram, está muito acima de todas as estrelas.
Quanto às minhas orações, amiga de esperanças, são cantos suaves nos meus lábios a cada segundo do dia, a cada lamina afiada de saudade que me fere o coração.
Beijos sempre solidários.
Noélio
Noélio, eu o admir demais.
Quisera ter a grandeza espiritual que voc~e tem, mas sei que isso é para poucos.
De qualquer forma, é um privilégio poder aprender com você.
beijos
Noélio, realmente é uma data triste.
O refrigério vem de Deus.
Parabéns pela mensagem de fé.
Um forte abraço.
Noelio,
Mesmo em silêncio - respeitosamente - receba meus votos,
para que a sua belíssima crônica se eternize neste site!
Abçs.
Benny Franklin
J. Alves.
Obrigado pela sua vinda. Você, dessa maneira, demonstra sua sensibilidade e seu gosto pela literatura, sem se importar com os mistérios e segredos da vida. Triste Calendário trata-se de uma uma crônica escrita não com a tinta rubra da tristeza e paixão infinda, mas com a pena que homenageia com o azul-celeste de todos os céus os corações enlutados.
Publiquei essa crônica em 2005, quando na ocasião foi eleita por 11 sites como a melhor crônica do dia em todo o Brasil tendo como tema o dia de finados. Foi lida, ainda, em rede nacional, como a mais comovente e bela crõnica sobre um assunto que toca tantos corações feridos. Conto agora, isso, parceiro, sem qaulquer sopro de vaidades, sentimentos que nunca fizeram parte da minha vida, mas com orgulho de um escritor que sempre procurou semear a verdade e contemplar os homens com palavras de ternura e carinho, colocando em suas almas sofridas uma gota de fé e esperança.
Obrigado amigo, pelas suas palavras e conte sempre comigo.
Forte Abraço
Noélio Mello
Noelio
Apesar de triste, voto pois sei que onde houver fé, há amor...um beijo.
Noelio...
Li teu recado aqui e no meu perfil
Só posso dizer que : te amo amigo!
Fique bem...
As rosas exalam o perfume....penso assim e fico feliz...
.
Noélio,
desculpe-me pela ausência e pela duplicidade de perfil (barbeiragem cibernética rss).
Digo, porém, que é valioso esperitualmente, vez ou outra, o contato energético presente com o campo santo onde ocorre importante etapa de nossa existência.
Abaixo, resumo sua crônica com uma quadra do grande romântico que se foi precocemente.
Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta, sonhou e amou na vida. (Álvarez de Azevedo – “Lembranças de Morrer”)
Paz, Noelio a todos nós. E tudo de bom, amigo.
abço.
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