“Vi que havia em mim um pensamento
inocente, uma pedra
quando se entra na noite pelo lado onde
há menos gente”
Herberto Helder
"Para ele o rico pastelzinho. Para ela o cheiro de fritura no cabelo"
Dalton Trevisan
Ao começar, atualize o cache: não faça perguntas - “O que dizer, Drummond?”, “A poesia não vem?”, “A folha em branco?”. Procure trazer de casa a chave. Depois:
1 - Não suspenda a respiração e infernize as rimas fáceis. Para usá-las: costure-as nas costas das mãos. Espere três dias. Em seguida, se ainda sangrarem, use-as todas numa única vez, sem rima.
2 - Não empenhe personagens que são somente um nome. Lembre-se: antes de chegar até você personagens atravessam o caos, distritos castanhos e esquinas em que os homens não tinham nome/sobrenome e pisavam o chão com dedos de barro. Isso é importante.
3 - Não deixe as palavras encontrarem-se por si. É deselegante não apanhar o adjetivo pela mão e apresentá-lo como alguém interessante ao advérbio ou mesmo ao verbo.
Não acredite na capacidade das palavras de desejarem-se. É só jogo de palavras.
4 - Não imagine alcançar o silêncio com o verso. As imagens são mortas mas vivem em debates efusivos como vizinhas no cotovelo da tarde.
5 - Não escreva só o que te assombra e escapa, o eco do desconhecido, a serpente e o cubo de água e o inexcedível. Escreva também o que dorme e mastiga. Não há nada mais apropriado para alcançar a obra de arte do que maçanetas e penicos de terracota.
6 – Permita que os resultados mais ou menos felizes sejam alheios. Deixe também ao outro que descubra de qual parte o que fala foi escolhido entre tudo o que está mudo do lado de fora.
7 – As cenas e seus objetos, próprios para ilustrarem o inexprimível, devem sugerir casas em que faltam as colunas e outras sugestões abertas como o corpo vivo, toda a vida, vida inteira, o dia e o mundo.
Poesia é parte do ser entre o fluxo, entre os homens, o presente. Que mais devo dizer, Rilke? Não expulse o sexo, beijos, calcinhas e carnes e tudo o que mais jorra vida. As dívidas e os pagamentos mensais também não e comece escrevendo, apenas para você, o que você nunca publicaria. É provável que, nesse território, você module um pouco a sua voz e nos dê adiante este pouco de estátuas e afrescos, colossos, empresas pelo mar glauco e vísceras queimando que adivinham todas as matemáticas assumidas.
Ao começar, atualize o cache: não faça perguntas - “O que dizer, Drummond?”, “A poesia não vem?”, “A folha em branco?”. Procure trazer de casa a chave. Depois:
Que ousada esta entropia sobre a construção do poema!
Compulsão Diária · São Paulo, SP 13/9/2008 20:44O título já é uma chamada de marketing e tanto, mas vale a pena a leitura pq o texto é muito rico. Parabéns!
Angélica T. Almstadter · Campinas, SP 15/9/2008 20:55
É preciso refletir sobre a poesia. O artesão precisa conhecer o seu instrumento. Lembremo-nos de que o poeta, para ser artista, é artesão.
Abraços.
Jeferson,
Vim! Vi! Amei! Votei!
Como bebê mamei e arrotei. Só não regurgitei porque não regurgito bons versos, leite de cabra bem fervido, inversos do que seriam, por se assim dizer, os não-versos, leite das pedars tentados mais não tirados, secura pura, daqueles que virão aqui somente para votar, para que votem em si; beber o leite sem arrotar, deixando a pedra seca.
Jefferson,
Metalinguagem com primor. Prazer em conhecê-lo.
Votos e abraços
Foi um prazer vir aqui, poesia também é um apanhado de conhecimentos alheios e trajetórias, todas diferentes, sempre um artista menor diante de um universo imenso, em busca de se apromorar. Excelente texto.ab
Cintia Thome · São Paulo, SP 17/9/2008 19:00Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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