“Eu invento, mas invento com a secreta esperança de estar inventando certo.”
(Lygia Fagundes Telles)
Contemos uma fábula. No tempo em que as coisas falavam, o marido da bateria de telefone celular, para encerrar uma discussão, diz à mulher: “E vá para o diabo que a recarregue!” Qual a reação do leitor diante de um disparate desses? Analise-se e conclua.
O autor desse texto pretendeu conduzir o leitor para um caminho e, repentinamente, tomou um rumo inesperado, deixando-o a ver navios. Ou no mato sem cachorro, como também se diz.
Experimente, durante uma discussão, dizer ao seu adversário: “Quer saber do que mais? Vá pra santa que te pariu!” Ele (ou ela), certamente, se ofenderá, talvez até parta para as vias de fato, não por aquilo que você disse, mas por aquilo que ele imaginou que você estaria pensando, pois ele tinha no arquivo mental outra frase contendo o verbo parir. Você acabará pagando não por aquilo que disse, mas por aquilo que o ouvinte imaginou que você teria pensado antes de dizer o que disse.
Arte é isso: um diálogo entre quem faz e quem é chamado a apreciar o que foi feito.
O. Henry, pseudônimo do contista norte-americano William Sydney Porter, que, por sinal, teve uma vida desgraçada, digna de um drama cinematográfico, morrendo precocemente, por causa do álcool, tem um livro, Páginas da Vida, no qual todos os contos têm um final surpreendente, absolutamente inesperado. Houve, aliás, um filme contendo alguns desses belos contos, que, por esses mistérios que só a estupidez humana pode explicar, jamais foi convertido em DVD por aqui. Charles Laughton como um mendigo que assedia uma sensual e solitária Marilyn Monroe, na véspera do Natal, para poder passar o geladíssimo fim de ano na aquecida cadeia local, é algo simplesmente inesquecível. Um ladrão de bancos, agora regenerado, vê-se obrigado a “voltar à ativa” no dia em que a filha do dono do banco onde ele agora trabalha fica preso no cofre novo, cujo segredo ninguém ainda conhece. Um casal de namorados que trocam presentes de Natal, imaginando estar a complementar algo que falta ao outro. Ela vende os seus. Não vou estragar a surpresa. São contos que vale serem lidos ou relidos.
Sem Perdão, de Frederick Forsyth, segue o mesmo caminho.
É a chamada técnica do twist, que não só os escritores costumam usar, mas também os teatrólogos e os cineastas, e que pretende colher o leitor (ou o espectador) numa armadilha.
No filme Spellbound (o nome que lhe deram em português é horroroso: Quando fala o Coração), Alfred Hitchcock fez uma dessas brincadeiras: Gregory Peck considera-se um criminoso e, por isso, Ingrid Bergman, que põe e tira os óculos para nos mostrar que é uma psiquiatra, está empenhada em demonstrar-lhe que isso é uma ilusão, fruto de um trauma da infância e outras freudianices que têm, de quebra, pesadelos ilustrados por ninguém menos do que o Salvador Dali,que, aliás, não resistiria a uma boa sessão de psicoterapia. A certa altura do filme, a câmera nos mostra, do alto da escada, o velho professor esparramado na cadeira, lá no centro da biblioteca, a sugerir-nos que teria ele sido mais uma vítima daquele criminoso. Entretanto.
Carrie, a Estranha, que consagrou o incipiente e hitchcockiano diretor Brian de Palma, tem uma cena célebre, que, na ocasião em que foi exibido, há 30 anos, despertou, como não poderia deixar de ser, um grito uníssono dos espectadores, eu incluído. A habilidade do diretor estava justamente em colocar a cena em um momento em que ela não seria jamais esperada. Um inesperado twist. É claro que também não vou tirar o prazer do leitor antecipando-lhe o susto, se ainda não viu tal filme.
O mesmo ocorreu com Black-out (em português, Um Clarão nas Trevas), no qual Audrey Hepburn interpreta uma cega que, vinda do Exterior, transporta, sem o saber, numa boneca, certa porção de cocaína, que depois é procurada, em seu apartamento, por traficantes, um deles um sádico. Tema atualíssimo, não fosse o filme de 1967, filmagem, aliás, de uma peça teatral, que, exibida no Brasil, teve, no papel da cega, Regina Duarte, em uma de suas raras interpretações no palco, ainda mocinha. A técnica do twist funciona ali à maravilha. Tanto que minha acompanhante apertou-me a mão com tanta intensidade que a unha dela se cravou na palma da minha mão.
Mais recentemente tivemos o imperdível Sexto Sentido, com a frase famosa: I see dead people! Eu e minha mulher permanecemos no cinema para ver o filme uma segunda vez apenas para ver a expressão dos expectadores quando aparece o inesperado twist.
Dia desses recebi uma mensagem eletrônica de um ex-aluno, que mostra como algumas coisas que dizemos em aula ficam guardadas na memória dos nossos alunos, se a aula não é uma monotonia insuportável, como ocorre tantas vezes. Eu lecionava, naquela ocasião, Noções de Direito Público e Privado em curso de Administração de Empresas. O tal aluno agora me informa que, motivado por aquelas aulas, foi fazer o curso de Direito, tanto quanto seu filho, que eu não cheguei a conhecer, tornando-se ambos advogados. Diz ele: “Lembro-me de uma resposta que você dava diante de toda pergunta que um de nós fazia: depende!”
De fato, eu dizia que não é tão importante alguém dizer que tem direito a este ou àquele bem da vida. Importante é ele provar isso. Logo, a possibilidade de ele vir ou não a desfrutar de tal direito depende menos de ele afirmar ter direito a isso do que da prova que ele faça a respeito de ter esse direito. Quando algum aluno me fazia alguma pergunta, seus colegas respondiam, antes de mim, com o sonoro depende.
Cinemaníaco que sempre fui, utilizei-me do expediente do twist em uma de minhas aulas, com propósitos pretensamente didáticos. Foi assim: quando falava dos chamados frutos civis (aluguel, renda e que tais), perguntei quem ali gostava de chupar laranja, fruto da laranjeira. Obtida a resposta, repeti a pergunta usando agora outra fruta, uva que seja. Havendo obtido a atenção da classe, renovei a mesma questão a um terceiro aluno: “Se eu lhe desse agora uma manga, você chuparia?” Ante a resposta afirmativa do aluno, apresentei-lhe, num autêntico twist, a manga de meu paletó para que ele a chupasse. Ele apenas olhou-me atônito, sem saber o que dizer ou fazer. Na verdade, eu havia condicionado a resposta futura, ao falar, antes, de frutos e frutas, produzindo a associação de idéias dele, necessária para minha surpreendente pergunta. A lição que eles jamais esqueceriam: há frutos e frutos.
Expedientes desse tipo, com fins didáticos, tinham um efeito extraordinário, embora isso me custasse muito esforço mental, pois tinha de inventar sempre alguma coisa nova, para motivar a classe, já que muitos alunos do curso noturno, havendo trabalhado durante o dia, chegavam sonolentos para a aula. Sempre que possível eu introduzia na exposição um chiste desses, também com finalidade mnemônica. Lembrando-se da anedota, o aluno, quase sempre, se lembraria da matéria onde ela havia sido incluída.
O que não impediu que um dos alunos, muito espirituoso, durante uma prova, indagasse: “Mestre, eu não me lembro da resposta à quinta questão, mas me lembro perfeitamente da piada que você contou naquela ocasião. Posso apenas escrever a piada?”
Uma gag digna de um Hitchcock.
Viver é lembrar.
Adauto: como sempre adorei: muito inteligente e espirituoso, também.;..Parabéns! volto p/votar...Bjs da fã Langinha...
Langinha · São Paulo, SP 30/9/2008 08:36
Buá, tô ficando véio, buáaaaa !
Sempre tem um cara pra me lembrar, perverso !
um abraço
ei suannes...
qual é mesmo o nome daquele caroço que dá quando um mosquito nos pica? (a resposta? calombo)
e quem descobriu o Brasil? (colombo horas!!!)
agora chupa essa manga...(rsrsrs)...
abraços
"Não, mesmo. A excelente qualidade do texto, sua forma e conteúdo,
sabendo-se quem o produziu, já não é surpresa para ninguém.
Valho-me do título do meu livro para dizer que o autor é um mágico,
"pegando no pé da letra".
Francimar"
Nas aulas de redação, é muito bom usar esse recurso. A construção de um texto com final inesperado é imprescindível para um texto desse tipo. E eu adorava inventar histórias com muito suspense nas minhas aulas. Na ocasião, deixava a sala na penumbra e, quando os alunos estavam bem concentrados na trama, eu inventava um grito pavoroso! Noooooossa! Era um barato!!
Muito bom teu texto, menino! Adorei!
Beijos e eu volto, viu?
Nossa, tio, ler esse seu texto é um abaixa aqui! rsrs
adorei, volto prá votar
bjk
Caro Alcanu. Já viste o Mamma Mia? Vá e leve o lenço.
Certamente os mais novos não entenderão esse conselho.
Adauto,
Adorei seu texto
" VIVER É LEMBRAR"
Nossa, fiz " Contabilidade" à noite,
(na época era isso ou Magistério) e
estou lembrando dos mestres que se
esmeravam no afã de transmitir conhecimento
para uma turma cansada que cochilava nos bancos.
Acontecia cada uma!
bjssssss
Muito interessante o seu texto. E interessante também como muitas vezes nos lembramos da "piada" e não do essencial. Acontece que a piada pode ser o essencial.
Abraços.
Aprendemos todos com todos. Uns mais, outros menos.
Circus do Suannes · São Paulo, SP 1/10/2008 05:58
Caro Mestre!
Mais uma intrigante lição, ... c'o 'depende', fechamos questão. Em Harward, na aula magna ensinam a ouvir o cliente, indagando? Quais são as tuas possibilidade probatórias? Pois, o Direito é prova! Não se ocupa de hipóteses e sim de fatos, sim, ... os fatos da vida, ... onde o mesmo tem o seu nascedouro. Então, não adianta só aprender que o Direito é prova, é necessário estudar - muitas vezes uma vida é pouco - como é que se prova o Direito. O seu 'depende' poderia ainda freqüentar elocubrações sobre o 'dualismo', e as lições do Kelsen, em sua Teoria Pura, ... quando ensino sobre a jurisciência e jurisprudência, mas aqui o Mestre é você, eu sou como aquele aluno, das muitas boas e ternas lições, na hora do ora veja, ... lembro só da piada. Cordiais saudações! ... seu catecúmeno de todas as horas, ... acho que devemos urgente, nos encontrar, ... e pensar em escrever um 'caderno sobre direito probatório', imagina, ... não freqüenta o nosso currículo ortodoxo, dos nossos pobres cursos jurídicos, que ainda insistem em ensinar Direito, estudando a lei, ao invés, do Direito aplicado. Até, ... Cleanto Farina Weidlich - Carazinho / RS.
Assisti todos esses....e tantos outros, nos bons tempos de câmeras mais sossegadas...onde esperavam o próximo corte com calma, dando chance de vermos e sentirmos a interpretação e conteúdo...quando as cenas tinham bem mais que 3 segundos...
Stanley Kubrick e Houston que o diga...e Pier-Paolo tb
Quanto às aulas, exato !...é a hermenêutica que dirige a cena e pega de surpresa a "primeiridade" da informação !...sem entropia !
( ah !...prefiro manga "a la frutta", non è vero ?...rs)
abs
Muito legal o Twist, assisti a todos que você aqui mencionou...Mas o que gostei mesmo foi"chupar manga" . Dos mais gostosos que li de sua autoria .ab
Cintia Thome · São Paulo, SP 1/10/2008 18:59
Perde a prova , mas não perde a piada;))
E vc seguiu à risca a lição do twist que é melting pot de música: rock and roll, jazz e mais e mais;))
é preciso esquecer para lembrar! O twist dramático do sexto sentido na sala de aula. e vc e trouxe as melhores recordações.
Twist a manga, receba meu abraço!
Um belo trabalho , não cabe nos meus conhecimentos fazer um comentário a altura , mas deixo minha admiração . Abraço...
delen · Cotia, SP 2/10/2008 11:42
Gostei bastante. A história da manga da camisa é formidável. Sem falar que atiçou a minha curiosidade em conhecer mais o autor citado e os filmes que não vi.
Sucesso.
Votado.
Suanes
Admirável seu trabalho.
Parabéns.
Um abraço
Olá, mestre, tô visitando o seu texto muito atrasado, mas ainda a ponto de votar.
Certa vez um paroquiano foi procurar d. Hélder Câmara com inúmeras queixas a fazer da sua parceira, que era esposa legítima. O religioso o ouviu atentamente, mas ao final ficou calado. O outro estranhando aquele silêncio, sapecou: mas dom Hélder, o sr. não vai me dar um conselho sequer? E o dom: é filho, sinto muito, mas de mulher eu não entendo!
Zé Preá também não entende nada de cinema, porém isso não impediu de ter gostado muito do texto!
Suanes.
Mais uma aula de vida, em mais um fantástico texto.
Abraços
Noélio
Legal, Circus.
Coisa, melhor, considerações para se guardar. E é muito comum, dentre nós mesmos, ter-se lembranças de algum prof.
abraço
andre.
Cara, muito bom o teu texto.
Essas referências cinematográficas então... Sensacional!.. Só assisti dois dos filmes que você mencionou... Nessa lida aprendi muita coisa... Eu escrevia, lia e assistia um Twist na minha frente e não sabia... rs
Um abraço forte! Parabéns!
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