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Um bebê que não tava nem aí!

Lauro Winck
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LAURO WINCK · Rio Pardo, RS
6/7/2009 · 14 · 13
 

Uma embalagem de aveia, com um apelo óbvio naquela época. Uma simpática mãe, dando de comer à um simpático bebê, sorridente e feliz. O layout aprovado sugeria a imagem como apelo para venda. A mãe carinhosamente servia uma colher do mingau de aveia ao bebê em questão. Sabíamos que estávamos diante de uma tarefa trabalhosa. A primeira providência consistia em descobrir a mãe ideal, relativamente jovem, mas com postura para representar o papel de mãe zelosa. No nosso catálogo, recheado de belas garotas, normalmente utilizadas para anúncios e panfletos de roupa feminina, seria quase impossível descobrir a mãe ideal para o trabalho. Depois de examinarmos o arquivo completo, a óbvia conclusão de que não havia ali a menor chance. Eu assumi a tarefa de buscar os modelos para a foto. A exigüidade de tempo, como sempre, não permitiria anunciar nos jornais buscando candidatos. Teria que ser no tato. Como eu mesmo iria fazer as fotos, já tinha uma concepção do tipo de modelo ideal para a mãe.
A Rua da Praia em Porto Alegre era o meu ponto de partida toda vez que surgia algo desse gênero. Estacionei o carro umas três quadras abaixo e saí, observando toda mulher que meus olhos conseguiam identificar como tal. Aí não falta mulher de todos os tipos e raças em volume pelo menos. Qualidade é outro papo, precisa olho clínico para detectar. Maníaco colecionador dos antigos LP de vinil, (possuía na época, cerca de 2.500) não resistia a uma vitrine de loja de discos e ao dobrar a Otavio Rocha, minha loja habitual estava com a vitrine cheia de novidades. Comecei a examinar pelo lado de fora da loja, percorrendo o olhar sobre os títulos em lançamento. Atrás da plataforma que exibia os discos um par de sapatos femininos chamou atenção pelos pés que o calçavam e o instinto de caçador me fez subir o olhar examinando a dona. Uma saia cinza discreta e bem aí, resolvi entrar na loja e examinar o resto. A mãe sem dúvida estava ali. Aquele tipo inconfundível de mãe padrão, se é que é possível estabelecer um padrão para mães. Bonita e simpática, mas, com aquele inconfundível olhar maternal. Feito, acertei os detalhes e parti para a busca do herói da foto. O primeiro lugar que se pensa obviamente é em uma creche e eu sabia que a creche de uma Fábrica na Mauá, possuía uma creche enorme em virtude do grande número de mulheres que trabalhavam lá. Para minha sorte, em um berço ao fundo, estava aquele tipo de bebê que na época conheci-se como bebê Jonhson. Uma fofura, diria qualquer mãe. Grandes olhos verdes e aquele sorriso que só os bebês têm. Localizada a mãe, marquei as fotos para o dia seguinte. Sabia que não seria fácil, mas nem de longe suspeitava do que aquela doce figurinha iria aprontar.
1ª tentativa, quando a colher aproximava-se de sua doce boquinha, um certeiro tapa a fez voar espalhando mingau pra todo lado. Para tudo, limpa começa tudo de novo.
2ª Tentativa, mais ou menos na mesma posição. Agarrou a colher e esfregou no rostinho lambuzando tudo de cima a baixo. Depois jogou a colher longe.
3ª Tentativa. Nada feito, repetiu a brincadeira de dar outro tapa na dita.
4ª Tentativa. Desta fez, assoprou na colher, respingando mingau até na lente da câmera.
Depois de umas tantas outras tentativas, abriu a boquinha e partiu pra bronca, a mãe verdadeira anunciou, - Está com sono. Claro sua majestade tava nem aí pras fotos. Não queria saber se eu tinha pressa e nem tava ligando pro cachê, nem sabia o que é isso. Foram umas três horas de sono e finalmente, acordou. Felizmente de bom humor. Pacientemente recomeçamos a árdua tarefa. Foram mais inúmeras tentativas e em algumas, tivemos sorte, devia estar com fome e aceitava o mingau, mas, pra não fugir a regra em diversas ocasiões, agarrava a colher e enfiava na boca meia de lado estragando a cena. Foram dois rolos de filme de 36 poses. 72 tomadas das quais eu imaginava que com muita sorte teria pelo menos algumas opções de escolha. Nós tínhamos laboratório próprio e esperamos uma hora pela revelação dos filmes. Sua majestade ficou a espera do resultado, pois havia a possibilidade de ter-se que passar por toda a provação novamente. Finalmente com as provas reveladas e a ansiedade no mais alto nível, tratei de examinar o material. Havia um único e valioso slide em condições de ser aproveitado. Por incrível que pareça, estava perfeito. Dadas as circunstâncias, um verdadeiro milagre. Ainda a alguns anos a embalagem na gôndola dos supermercados, me lembrava da verdadeira maratona causada por aquela doce figurinha, com aquele sorriso que com certeza vendeu muita embalagem de aveia.

Sobre a obra

As vezes uma fotografia simples pode tornar-se uma maratona...

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Lauro Winck
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Mirtes Carvalho
 

Meu amigo Lauro, que bebê bonitinho! E dizem que quando se é lindo quando bebê, será um feinho quando adulto. Será verdade?
No meu caso, não houve diferença. Meu pai dizia, que quando nasci, era tão feia, que, não mordia porque não tinha dentes. Não mudei nada. Só dei um trato, para melhorar a convivência social. Mas já me acostumei. Acho que ele deveria ter pedido a você para achar um bebê lindo e adotar, não acha?
Adoro fotografia! Imagino a satisfação e realização sua, no final de cada revelação. Hoje ainda tem os retoques, não?
Parabéns amigo, uma foto em meio de uma aventura de mingaus. Mas você é fera meu caro amigo.
Parabéns! Narrativa excelente, como sempre. Bjs, Mirtes Carvalho

Mirtes Carvalho · Rio de Janeiro, RJ 6/7/2009 20:22
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Cláudia Campello
 

Se uma imagem vale por 1000 palavras...
que poder de sugestao essa foto heim?!
parabens pela narrativa!

bjs♥;;

Cláudia Campello · Várzea Grande, MT 7/7/2009 04:16
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azuirfilho
 

LAURO WINCK · Rio Pardo (RS)
Um bebê que não tava nem aí!

Um Historiador consagrado pegou um neném bonitão e criou este Conto de imensidão. Famoso pega um Limão e faz uma super Limonada.
Com a devida odiss~eia como neste caso com o neném tão terrivel com o mingau.
parabéns.
Abração Amigo

azuirfilho · Campinas, SP 7/7/2009 23:34
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Doroni Hilgenberg
 

Linda foto...

Uma odisseia e tanto...lembro algumas.
engolir papinha de aveia não é para qualquer um
e os BBs sempre serão espertos
e ainda dizem:
" Comigo ninguém pode"
com os meus, eu desisti da papinha.
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 8/7/2009 15:59
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raphaelreys
 

Acertou em cheio no modelo!

raphaelreys · Montes Claros, MG 8/7/2009 17:11
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Daniele Boechat
 

Rapha, como de costume adorei sua narrativa. Leve, como sorriso deste bebê que com certeza faria qq mãe babar até papinha. A difícil mas inigualável de ser mãe, diz a minha mãe. Bjs.

Daniele Boechat · Rio de Janeiro, RJ 9/7/2009 16:11
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Daniele Boechat
 

Ops, digo, Lauro é q vi o comentário de Rapha e me cofundi. bjs.

Daniele Boechat · Rio de Janeiro, RJ 9/7/2009 16:15
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

como disse Cláudia Campello só a foto é um poema.votado.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 10/7/2009 19:00
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
joe_brazuca
 

joe_brazuca · São Paulo, SP 11/7/2009 08:28
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menina_flor
 

Olá Lauro - que gostoso ler o seu texto. E como as fotos nos remetem em viagens no tempo inesquecíveis. Uma foto sozinha vale por uma eternidade de momentos e lembranças.
E que neném lindo! Um lindo neném com certeza vende muitos produtos
Acho que essas lindas e doces criaturinhas é que deveriam dirigir os comerciais e fotos publicitarias. Afinal eles são as estrelas e entendem disso!
Gostei!

Bjos
Patty

menina_flor · Rio de Janeiro, RJ 12/7/2009 19:00
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Greta Marcon
 

Adorei o texto e ri muito, pois fui mãe de 4 bebes e eles faziam
exatamente assim...
Votado
Beijos

Greta Marcon · Ponte Nova, MG 13/7/2009 02:17
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Falcão S.R
 

Lauro,

Muito bom!

Abs

Falcão S.R · Rio de Janeiro, RJ 22/7/2009 02:42
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Giss
 

Lauro, fiquei surpresa em ver esta foto junto ao seu texto. Este bebezinho está hoje com 7 anos e continua encantando a todos com sua beleza.
O texto é perfeito para descrever o irmãozinho da mesma, hoje com 10 meses e tão bonitinho quanto ela.
Abraço.

Giss · Juiz de Fora, MG 15/3/2014 14:07
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