Um figurão, desses que usam um bigodinho e colecionam dossiês os mais diversos de rivais e amigos, me contratou para grampear um desafeto dele. Eu quase não aceito por uma questão de honra, ética e princípios, só que a vultosa soma em dinheiro oferecida falou mais alto.
Combinamos tudo por telefone, que ironia. Ele não veria minha cara, melhor assim e eu receberia rigorosamente em dia pelo fruto de meu trabalho. Ele me explicou porque resolveu fazer isso, para mim tanto fazia. Eu flutuava por cima dessas questões. Nem era como se o sujeito a ter sua privacidade telefônica violada fosse um santo ou digno de confiança.
Meu maior problema na época era saber se as transcrições seriam em discurso direto ou indireto. Resolvido isso, não imaginava que agora seria impossível atender meu telefone com o receio de que fosse algum membro da imprensa, uma vez que o escândalo havia estourado.
A merda tinha batido no ventilador de verdade. E meu nome apareceu envolvido no noticiário. O majestoso tratou de me tranqüilizar, disse que isso passaria. Para ele sim, que tinha passado incólume por percalços maiores na sua longa carreira política, eu estava interessado em saber o que aconteceria comigo. Geralmente o peixe pequeno é que morre mais cedo.
Passei a ter a ligeira impressão de que era seguido regularmente e que alguém, em algum lugar, lia um relatório de minhas movimentações, inclusive quantas sacudidas deva depois de urinar e qual axila recebia o primeiro spray de desodorante.
Pensei que sofreria um atentado à minha vida, mas acho que no final das contas o frango do Ataíde é que era mortífero para qualquer um que ousasse comê-lo e como não fui o único a reclamar do Ataíde, eximi-o da parte que lhe caberia no complô contra minha cabeça.
Logo quando pensei que a coisa ia acalmar, pois tinha começado a Copa do mundo e o Brasil ainda que vencendo sem convencer tinha boas chances de chegar a final. Um procurador me procura e me diz seu plano para botar cal de vez na sepultura política da velha raposa ladina.
Fiquei de pensar na proposta de ser o herói da história e ele me ameaçou com a Receita Federal e como quem não deve não teme, acabei concordando com o sujeito em tomar parte de sua maquinação.
Como não sou bobo nem nada, contratei um advogado. Perguntei se tinha alguma chance de me dar bem na parada e ele me diz que sim, se sair vivo já é lucro.
Resumo da ópera: ele renunciou, mas foi eleito para mais um mandato, meu advogado se bandeou para o lado dos herdeiros político dele e eu estou aqui em Picadas do Sul, nesse ranchinho de pescador vivendo com o que tiro do mar. A vida é boa, exceto quando bate o vento sul e meu barquinho quase vira com as benditas marolas.
Amigo Leandro,
Narrativa atualíssima e implacável. Tão realista que preciso perguntar algo: Onde fica o Frango do Ataíde? Gostei e voltarei na fila de votação. Abs.
Marcelo, meu caro, nem queira saber onde fica o Restaurante do Ataíde. Na verdade é um bar que serve PF e fica no centro de Florianópolis, perto de onde eu tinha um escritório.
Agradeço antecipadamente o vote. É uma lástima que o texto ainda ainda sirva para o contexto de nossos dias.
Abr.,
L.
Leandro, e agrana, valeu a pena pro cara? rsss
Roberta Tum · Palmas, TO 28/5/2007 14:21
Pois é, Roberta, de que vale a grana se não pode gastar. hehehe.
Ô rapaz, o teu conto é muito bacana, gostei do trabalho. Parabéns. Abraços.
carlos MAgno.
Voltei aquí pra votar. Abraços.
Carlos Magno
Carlos Magno, como vai? Agradeço os elogios e o voto.
Forte abr.,
Leandroide.
Gostei bastante!!
De fato... de que vale a grana se não se pode gastar...?
Abraço!
Que bom que curtiste, Fê!
Abraço,
Leandroide.
Este sim, cara, é um bom conto! Seu personagem tem mais carisma, e gosto do jeito de falar dele. Seu humor está até mais afiado aqui. Dei umas boas risadas, e o final bukowskiano consquistou meu coraçãozinho verde de manteiga. (manteiga verde? eca!!)
Apesar das algumas poucas escorregadas e cacofonias, este conto ficou bem bacana. Este tem meu voto. Invista neste seu humor, nas frases curtas (quanto mais curtas e diretas, mais afiado fica um conto no teu estilo) e na personalidade de seus personagens. Você tem muito potencial, Leandróide.
Vai fundo.
Abraços do Verde.
Mais uma vez agradeço teu feedback, Daniel. Obrigado por ver meu potencial. Gosto de investir no humor afiado como bem observaste, sou bastante direto e conciso e isso pode ser dito de mim sem medo de errar. Não sou de muito blábláblá. Poderias me apontar reservadamente as cacofonias e escorregadas para o endereço que forneci na caixa "contato". Grato.
Abraço,
Leandroide.
Mais uma vez agradeço sua atenção. Terei prazer em conversar com você sobre seu texto, se quiser, e tecer algumas observações mais específicas.
Infelizmente não tive tempo de me debruçar novamente sobre ele hoje para te escrever tal email, mas prometo que o farei assim que puder.
Abraços do Verde.
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