Um clube, um baile, uma saudade
Peguei a Folhinha de Mariana (lembro dela, ficava atrás da porta do quarto da minha mãe), e gritei assustada:
---- Angela, estamos no final de maio, o baile do aniversário do Alvinopolense já está chegando, temos que guardar um lugar com Alaide ( nossa costureira) e vamos já para loja de Chiquito ver os tecidos . Bizé já comprou o dela e falou que Chiquito está uma fera, pois o vendedor deixou poucas cores e estampas, quem chegar primeiro leva o melhor.
Lembro da cara de Chiquito, olhar desconfiado, parecia que ele não gostava de atender as moças da Baixada, achava a gente metida e exigente. Falava assim:
----Já vem as enjoadas da Baixada!
Saíamos de lá, felizes com os tecidos e corríamos para o atelier de Alaide, que toda risonha, sentava conosco para nos ajudar na escolha dos modelitos.
Vitória de Sr. Jorge Turco, sempre aparecia, corria os olhos, morrendo de inveja!
Coração apertado, lembrava que, toda época do baile no Alvinopolense, meu namorado arrumava um jeito de terminar o namoro comigo.
É que ele estava fissurado numa garota do bairro do Gaspar e ela saracutiava para o seu lado.
De olho no relógio, da varanda lá de casa, via Paulo Andrade dando as últimas recomendações para Marinês:
---- Não espere o baile acabar, não entra no carro do Josias e não beba no copo de gente estranha, dizem que estão colocando uma tal de bolinha na bebida para as moças ficarem doidonas.
Que coisa deliciosa lembrar nossa chegada trinfal na porta do clube. Quantos degraus para chegar no salão. Naquela hora, até tropeçávamos, a ponto de Tuola ( o presidente do clube) gritar da portaria:
----Cês tão muito assanhadas, vão cair dessa escada, eu não tenho nada com isso!
Engraçado! Era demorado subir aquela escadaria toda, mas era gostoso chegar no salão, dar de cara com o conjunto tocando Beathes e ver o reflexo da luz negra no meu vestido, e ainda por cima passar os "zóios" nos rapazes, encontrar um bem lindo, conquistá-lo, dançar com ele a noite inteira, e nem dar bola para o ex-namorado, que, nessas alturas, já me olhava desconfiado, pois a outra garota tinha encontrado alguém de fora ("pião" de João Monlevade).
Dançar coladinho! Como era bom!
Azar o meu, não era com ele.
Azar o dele, não era comigo.
O baile acabou.
Voltamos para casa felizes da vida!
Angela tinha ficado com Cuca, Marinês vinha de carro até na esquina do Quimquim Terra, para seu pai não ver, e meu ex-namorado ficava de longe, vendo meu beijo de despedida, chupando o dedo!
Ah! De quebra, Jamil, meu vizinho, ficava atrás da janela do seu quarto, vendo nossa turma chegar, doido para amanhecer e ficar sabendo as últimas do baile.
"confesso abestalhado que estou decepcionado"
entenda, por não ter ido a este baile.
que maravilha!
a saudade, é uma danada mesmo.
grande abraço, amiga.
Ôi Lioviola,
De vez em quando é muito bom sentir saudade. Inspiração sobra, coração explode no peito e dá até um texto assim.
Agradecida pelo comentário. Um abraço cá de Minas.
Aninha, sentir saudade é muito bom, não é mesmo? Já curti muitos bailes como o de seu texto. Fez voltar no tempo. Eita tempo bom.
Bjo.
anamineira · Alvinópolis (MG)
Um clube, um baile, uma saudade...
Uma Saudade gostosa que faz bem a alma.
Como uma chance brejeira para reafirmar o sonho sonhado da juventude.
Verdadeira viagem cheia de encantamento.
Um breve momento de viver tudo de novo no lembras e deixar a alma sorrir.
O tempo passa e floresce todo amor que se planta no viver.
Parabéns.
abracáo Amigo
Quando a saudade é gostosa vale a pena sentir
Beijos Ana
Ana por não ser fioxão me deu até saudades.
Beijos em seu coração.
ana, que bom ver vc de volta, coim suas cronicas tão gostosas e bem humoradas... é, naquele nosso tempo era assim, tudo tão simples,s tão claro, sonhos tão comuns... incendiar corações, paqueras na baixada, nós rapazes de terno preto e gravata, as danças coladas, de vez em quando um ou outro atrevimento... eram outros tempos, e a ingenuidade ainda morava em nós... sua crônica nos remete para lá, e dá aquele aperto no coração de lembrar.... que bonito!
danlima · Brasília, DF 21/9/2008 18:06
"Um clube, um baile, uma saudade",
belo texto, Ana.
E eu conheço a sua cidade!
Abraços.
Agradeço, de coração, a todos vocês.
Obrigada pelos comentários. São valiosos para mim.
Oi conterrânea das Gerais. Bom revê-la com mais uma criação rica em arte.
Ah. Saudades danada das coisas que ficaram no Tempo. Fica triste não. Outras virão. Com outras roupagem , é claro.
Luz e Paz. Sempre.
Que baile e lembranças deliciosas! O texto está gostoso de ler e nos faz viajar convidando-nos a dançar no baile. Beijos!
Paulo Esdras · Brumado, BA 3/10/2008 09:41
Ayruman, tempo bom aqueles. Luz e paz para você também.
Paulo, você chegou a viver esse tempo?
Venha sempre ler minhas bobagens. Abraços
"Dançar coladinho! Como era bom!
Azar o meu, não era com ele.
Azar o dele, não era comigo."
Esse namorado queria tanto que acabava ficando sem nada.
Belos tempos!
Bjs
Um clube, um baile, uma saudade...
Conterrânea, uma recordação "viva", até escutei o "conjunto tocando Beathes" e vi, admirado, "o reflexo da luz negra no seu vestido". Eu dancei neste baile, eu dancei neste texto. Eu amei esta crônica/conto.
Onivaldo, muito legal te conhecer.
Agradecida pelo comentário.
Abraços,
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