Loretta deitou ao fim do dia. Murcha sobre a cama. À medida que respirava sentia o ar saindo dos seus pulmões, e lentamente se despia do cansaço do dia. Queria ficar assim, deitada, até que a panturrilha parasse de doer, e o peso nas costas se fosse. Ensaiou levantar-se da cama para o banho. “Os japoneses não entram em casa calçados para não trazer a sujeira da rua para dentro de casa” – pensou. De certa forma ela trazia a poeira, o cansaço e as agruras de um dia pesado, deitando-se sobre o edredon que cobria a cama de casal com a mesma roupa e a mesma sensação de falência interior, sem antes jogar uma água pelo corpo, e deixá-la lavar tudo, até a alma.
Estava vazia e oca: um verdadeiro mar sem palavras. Nem um novo livro sequer para ler, e transportá-la dali para um lugar melhor. Houve um tempo em sua vida, lembrou-se, que a simples presença do sol, entrando fresta adentro pelo quarto de manhã lhe enchia o coração de felicidade. Cada dia, amanhecido, era para ela uma promessa. Mas aqueles dias ficaram para trás e ela não sabia direito explicar para si mesma, onde perdera, onde deixara a alegria. Sim, já tinha sido uma pessoa venturosamente doce e esperançosa. Agora, cumpria a rotina do trabalho para casa e um cursinho que teimava em fazer, para não desistir das coisas importantes como tantas vezes fizera na vida, de aventura em aventura.
Algo de muito grave acontecera a Loretta, para roubar-lhe assim o viço, e ela sabia. Tanto tinha consciência deste fato que buscava nos escaninhos da mente a resposta. Revivia sempre as mesmas cenas do romance desfeito, amor mal correspondido que havia, há mais de um ano, lançado sua alma em uma profunda depressão. Aquela decepção fatal que a empurrou para remédios controlados e sessões de terapia, por ela interrompidas um ano depois. Parecia nem ser mais a mesma pessoa. E caminhando pelas ruas, ou no trânsito, procurava, vez em quando, onde tinha se perdido a velha alegria. Não ousava acreditar que por um momento pudesse ter concentrado toda sua vida e expectativas de felicidade nas mãos de um ser humano. Ignóbil e insensível ser capaz de ferir tanto. Mas nestes processos mentais sempre evitava culpar a outros pelo que –acreditava piamente – de certa forma era sua responsabilidade antes de mais nada.
“Sim”, concordou consigo mesma, “foi grave”. Afinal, na sua fortaleza, tantas crises sentimentais e financeiras haviam passado por ela sem conseguir nada além de torná-la mais forte. Por que, justamente agora, quando se acreditava madura, havia caído tal qual uma criança, adolescente, diante da primeira decepção amorosa? Não conseguia entender. Mas levantou-se da cama, na manhã seguinte à noite de extremo cansaço. Não diria a si mesma que “Agora, tudo vai ser diferente!” Não acreditava nessa mudança repentina. Mas tentaria, só por este dia, encontrar um pouco da antiga alegria.
Tentaria ver o sol com os olhos de ontem, e redescobrir a fé no mundo e nas boas surpresas do mundo. Saiu sem tomar café. Levou apenas uma maçã na tuperware. Ia trabalhar, lentamente. Ia cumprir a obrigação do dia. Apenas procuraria um caminho diferente. Um de onde pudesse ver o sol brilhar novamente. Ela era agora uma espécie de ser em mutação. Andrógina. Gravitando entre dois mundos. Não o de homem e de mulher. Mas o daquela que ela foi, e o de quem poderia ter sido.
Já me senti assim...mas ainda há resquícios...Roberta, acho que sou uma das Lorettas...volto.
Cintia Thome · São Paulo, SP 21/9/2007 07:31
Cintia,
querida...
a Loretta tem um pouco de cada uma de nós nestes momentos.
Mas Graças à Deus eles passam.
Como diria Cida Almeida "Há que manter a coluna ereta..."
Bjs
Roberta: Eu sou uma loretta!
(sua produção é muito rápida, quando leio um, já tem outro para ler. Éta, menina esperta!).
Um abraço
Elizete
Elizete, amiga,
não é que seja rápida, é mais cíclica...rs. Tem fases em que escrevo muito. Estou numa destas. Obrigada pela cumplicidade
com o texto.
Outro abraço!
- No meu lugar se diz que "o tempo se encarrega de construir e depois de destruir". Talvez seja assim mesmo, uns mais outros menos vai se minguando, um abraço, menina bonita, de Palmas,
que merece palmas, andre.
todo mundo ja teve um momento como esse. um abraço
j.alves · São Paulo, SP 23/9/2007 07:21
Hoje acordei Loretta, murcha...
Quantas Lorettas sou em mim...
Roberta, divino!
Votei bjus
Roberta.
Na verdade, a vida começa mesmo, a aprtir do primeiro amor e da primeira dor do desamor.
Excelente texto
Beijos
Noélio
Amigos, manos e minas, gracias por tanta gentileza!
André, vc como sempre tem razão, o tempo é o grande lenitivo de todas as dores. Especialmente as de amor.
j. Alves, e quem não teve, atire a primeira pedra...rs
Cintia, querida... tome uma bela ducha e dê um olè na tristeza. Bjs. Loretta sempre vence no final, não se esqueça!
Noélio, meu amigo, e de quantas decepções de amor é feita a vida né? Bjs e obrigada!
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!