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Um dia frio

1
Roberta Tum · Palmas, TO
23/9/2007 · 96 · 9
 

Loretta deitou ao fim do dia. Murcha sobre a cama. À medida que respirava sentia o ar saindo dos seus pulmões, e lentamente se despia do cansaço do dia. Queria ficar assim, deitada, até que a panturrilha parasse de doer, e o peso nas costas se fosse. Ensaiou levantar-se da cama para o banho. “Os japoneses não entram em casa calçados para não trazer a sujeira da rua para dentro de casa” – pensou. De certa forma ela trazia a poeira, o cansaço e as agruras de um dia pesado, deitando-se sobre o edredon que cobria a cama de casal com a mesma roupa e a mesma sensação de falência interior, sem antes jogar uma água pelo corpo, e deixá-la lavar tudo, até a alma.

Estava vazia e oca: um verdadeiro mar sem palavras. Nem um novo livro sequer para ler, e transportá-la dali para um lugar melhor. Houve um tempo em sua vida, lembrou-se, que a simples presença do sol, entrando fresta adentro pelo quarto de manhã lhe enchia o coração de felicidade. Cada dia, amanhecido, era para ela uma promessa. Mas aqueles dias ficaram para trás e ela não sabia direito explicar para si mesma, onde perdera, onde deixara a alegria. Sim, já tinha sido uma pessoa venturosamente doce e esperançosa. Agora, cumpria a rotina do trabalho para casa e um cursinho que teimava em fazer, para não desistir das coisas importantes como tantas vezes fizera na vida, de aventura em aventura.

Algo de muito grave acontecera a Loretta, para roubar-lhe assim o viço, e ela sabia. Tanto tinha consciência deste fato que buscava nos escaninhos da mente a resposta. Revivia sempre as mesmas cenas do romance desfeito, amor mal correspondido que havia, há mais de um ano, lançado sua alma em uma profunda depressão. Aquela decepção fatal que a empurrou para remédios controlados e sessões de terapia, por ela interrompidas um ano depois. Parecia nem ser mais a mesma pessoa. E caminhando pelas ruas, ou no trânsito, procurava, vez em quando, onde tinha se perdido a velha alegria. Não ousava acreditar que por um momento pudesse ter concentrado toda sua vida e expectativas de felicidade nas mãos de um ser humano. Ignóbil e insensível ser capaz de ferir tanto. Mas nestes processos mentais sempre evitava culpar a outros pelo que –acreditava piamente – de certa forma era sua responsabilidade antes de mais nada.

“Sim”, concordou consigo mesma, “foi grave”. Afinal, na sua fortaleza, tantas crises sentimentais e financeiras haviam passado por ela sem conseguir nada além de torná-la mais forte. Por que, justamente agora, quando se acreditava madura, havia caído tal qual uma criança, adolescente, diante da primeira decepção amorosa? Não conseguia entender. Mas levantou-se da cama, na manhã seguinte à noite de extremo cansaço. Não diria a si mesma que “Agora, tudo vai ser diferente!” Não acreditava nessa mudança repentina. Mas tentaria, só por este dia, encontrar um pouco da antiga alegria.

Tentaria ver o sol com os olhos de ontem, e redescobrir a fé no mundo e nas boas surpresas do mundo. Saiu sem tomar café. Levou apenas uma maçã na tuperware. Ia trabalhar, lentamente. Ia cumprir a obrigação do dia. Apenas procuraria um caminho diferente. Um de onde pudesse ver o sol brilhar novamente. Ela era agora uma espécie de ser em mutação. Andrógina. Gravitando entre dois mundos. Não o de homem e de mulher. Mas o daquela que ela foi, e o de quem poderia ter sido.

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Roberta Tum
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Cintia Thome
 

Já me senti assim...mas ainda há resquícios...Roberta, acho que sou uma das Lorettas...volto.

Cintia Thome · São Paulo, SP 21/9/2007 07:31
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Roberta Tum
 

Cintia,
querida...
a Loretta tem um pouco de cada uma de nós nestes momentos.
Mas Graças à Deus eles passam.
Como diria Cida Almeida "Há que manter a coluna ereta..."
Bjs

Roberta Tum · Palmas, TO 21/9/2007 14:22
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Elizete Vasconcelos Arantes Filha
 

Roberta: Eu sou uma loretta!
(sua produção é muito rápida, quando leio um, já tem outro para ler. Éta, menina esperta!).
Um abraço
Elizete

Elizete Vasconcelos Arantes Filha · Natal, RN 22/9/2007 19:20
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Roberta Tum
 

Elizete, amiga,
não é que seja rápida, é mais cíclica...rs. Tem fases em que escrevo muito. Estou numa destas. Obrigada pela cumplicidade
com o texto.
Outro abraço!

Roberta Tum · Palmas, TO 22/9/2007 20:12
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Andre Pessego
 

- No meu lugar se diz que "o tempo se encarrega de construir e depois de destruir". Talvez seja assim mesmo, uns mais outros menos vai se minguando, um abraço, menina bonita, de Palmas,
que merece palmas, andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 23/9/2007 06:36
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j.alves
 

todo mundo ja teve um momento como esse. um abraço

j.alves · São Paulo, SP 23/9/2007 07:21
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Cintia Thome
 

Hoje acordei Loretta, murcha...
Quantas Lorettas sou em mim...
Roberta, divino!
Votei bjus

Cintia Thome · São Paulo, SP 23/9/2007 07:38
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Noelio Mello
 

Roberta.
Na verdade, a vida começa mesmo, a aprtir do primeiro amor e da primeira dor do desamor.
Excelente texto
Beijos
Noélio

Noelio Mello · Belém, PA 23/9/2007 08:39
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Roberta Tum
 

Amigos, manos e minas, gracias por tanta gentileza!
André, vc como sempre tem razão, o tempo é o grande lenitivo de todas as dores. Especialmente as de amor.
j. Alves, e quem não teve, atire a primeira pedra...rs
Cintia, querida... tome uma bela ducha e dê um olè na tristeza. Bjs. Loretta sempre vence no final, não se esqueça!
Noélio, meu amigo, e de quantas decepções de amor é feita a vida né? Bjs e obrigada!

Roberta Tum · Palmas, TO 23/9/2007 10:09
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