Ela acordou bem cedo naquela segunda-feira de janeiro. Esfregou os olhos amarrotados para tentar vislumbrar se o dia que nascera era de chuva, ou sol. Lembrou imediatamente: era dia de servir Exu, o mensageiro. Carmelita tem nome de santa da igreja católica, mas já tinha perdido as contas de quanto tempo fazia que não assistia uma missa. Batizada pela mãe, por força do hábito, tinha freqüentado igreja, feito a primeira eucaristia, e abandonado o grupo de jovens “TUCA”, Todos Unidos Com Amor, aos 16. Não suportava regras sem sentido, e perguntas sem resposta. Agora, mais de 20 anos depois de peregrinar por muitos outros caminhos, era de candomblé.
Levantou calada, e foi direto para a pia do banheiro, lavar a boca. Não podia falar com ninguém. Lavou o rosto, e ainda meio tonta de sono, vestiu a roupa branca de ração. Pensou duas vezes antes de colocar o lenço na cabeça. Pra quê? Já ia tirar mesmo. Rumou para o pequeno quarto de santo, localizado a frente de casa. Bateu na porta. Pediu agô. Destrancou a casinha e foi limpar. Em silêncio dofonitinha fazia o serviço. De cabeça baixa. Na cozinha onde tudo estava impecavelmente arrumado, ela seguia calada, mexendo a farinha e os outros elementos. Meia hora depois, estava pronto. Serviu o dono da comunicação. Com a boca limpa, chamou por ele, para vir receber o padê. Entregou tudo e cochichou seus pedidos.
Trancou a casa e olhou o sol subindo atrás dos morros verdes adiante. O dia ia começar de verdade. Para ela, tinha começado antes. Obrigação feita, foi tomar banho para sair. Às oito da manhã, dofonitinha de Oxum já tinha voltado a ser Carmelita, entrando no imenso call center da operadora de celular onde trabalhava. Três da tarde, no fim do seu expediente, a moça dos recursos humanos interfonou. As férias que ela tanto queria estavam autorizadas. Saiu sorrindo para o sol com o papel nas mãos. “Ele respondeu! Ele respondeu!”, gritava. Ninguém na rua entendeu nada.
Roberta,
Gostei muito do conto.
Vivenciar um dia na vida de alguém tão simples faz muito bem pra gente.
Um abraço mineiro.
Mas que beleza de conto, hein Beta?
Excelente. Bastante rico em detalhes e porquê não em experiências? Afinal, você descreveu um dia típico de quem é do candomblé com uma simplicidade e riqueza ao mesmo tempo. Estou encantada com sua personagem e diga à ela, que eu a entendi! rsrs
Um grande beijo,
Priscila.
Roberta,
Bonita história. É bom demais a gente ter aspectos como este de nossa cultura, geralmente tão omitidos, sendo contados assim, para nos emocionar e fazer pensar.
Abs
Roberta, moça bonita de Palmas.
Agora vou só te dar um abraço bem pertadim, pela iniciativa pela beleza da contação.
sinta´se pois abraçada, carinhosamente abraçada, andre.
Muito bom e muito bem Roberta!
De fato, pouco se conhece sobre esse universo.
Certamente, falando sozinha ou gritando sozinha, ninguém entende nada, mas imagina...
Abração
Agradecida por tanta gente boa ter vindo aqui, ler e comentar.
Beijos a todos.
É bom poder mergulhar em universos pouco conhecidos.
E Pri... é bom poder falar as coisas que se pode dizer...rs.
Roberta, querida amiga.
Sou suspeito para falar de você, pois acho belo tudo que escreves. Entretanto, acho que é no conto, que te revelas mais perfeita ainda. O atual é excelente: palavras certeiras, bem colocadas, tema sempre atual, arrebatador e que mostra todo teu talento de jornalista. Final excelente.
Beijos
Noélio
Roberta Tum · Palmas (TO)
Muito Bacana seu texto mas, principalmente sua inspiração dee
trabalhar um tema com Religião de Matriz Africana.
Nosso Povo em sua Maioria tem raizes Africanas e ter carinho por isso nos leva a um estado de liberdade e elevação.
Parabéns por sua Maestria.
Gostei muito da segurança e da beleza.
Tem todo merecimento. Uma honra votar.
Abração.
Passando pra deixar o voto (com muito merecimento) ! ;)
beijo Beta!
Roberta, gostei muito do conto.
Achei maravilhosa a combinação de duas pessoas dentro de uma, como só pode acontecer neste país de tanta magia.
Parabéns!
beijos
Noélio, Azuir, Pri, Saramar, André... e tantos outros.
Obrigada por comentar, e votar.
Saramar, eu gosto muito desta mistura, desta magia.
Talvez por isso Salvador seja minha segunda cidade.
Lá isso tudo está no ar. É muito mágico.
Quero escrever mais sobre estes temas.
Beijo a todos
que legal esse texto. adorei essa desglamurizada q vc deu no tema. beijos, obrigada pelos comentários!
andrea dutra · Rio de Janeiro, RJ 4/2/2008 04:46Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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