Um encontro adiado

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Roberta Tum · Palmas, TO
3/8/2007 · 113 · 10
 

O encontro estava marcado para as 4 da tarde no Hoyts do Internacional de Guarulhos. A chuva que estivera ausente da cidade nas últimas semanas tinha voltado a cair. Suave durante o dia, pesada na madrugada. Larissa Keller - nome forte, bem apropriado para uma mulher de presença imponente - passeava olhando as vitrines quando o V3 deu sinal de mensagem. Era dele.

A reunião com o cliente tinha sido pesada e o negócio estava por um fio. Ele adiaria a volta à São Paulo para o dia seguinte. Não podia deixar de fechar aquela venda. Era fundamental.

Ela franziu a testa contrariada. Além de não voar mais cedo para estar ali na hora marcada, ele provavelmente não viria aquele dia. A produção toda teria que ser refeita para o dia seguinte. Passeou sozinha pelo shopping, colecionando vitrines e desejos de compras. Scarpin de oncinha: R$79, anotou. Aqueles anéis de aço, que ela adorava: R$ 14,99. Caminhou até se cansar. Parou na praça de alimentação. Não resistiria à comida japonesa. Sashimi. Ela adora. Saboreou devagar enquanto decidia se encarava a sessão sozinha. O shopping estava abarrotado. A garotada disputava ingressos para assistir à nova versão de Harry Poter. Decidiu que esta noite não. Iria aguardar Victor. A simples lembrança do nome dele a fazia sorrir.

Caminhou até o estacionamento. Ligou a ignição, e colocou um mp3 com a trilha sonora daquele amor para tocar. Preferia assim, não queria ouvir as notícias sobre o trânsito caótico de São Paulo. Deixou o aquecedor cumprir seu papel antes de deixar o estacionamento. Foi para casa, direto, sem paradas. Estava plenamente satisfeita, e não comeria mais nada aquela noite. À meia luz, no quarto confortável e de cores sóbrias ela adormeceu depois de ler a mais recente edição da Você S/A. Quem sabe convenceria o companheiro a mudar de rumo e tentar carreira nas capitais do Norte. Sorriu da própria idéia. Quem sabe...

O dia cinzento anunciava que a chuva continuaria quando Larissa despertou. Não sabia onde havia deixado o celular. Talvez no carro. Enquanto tirava a primeira xícara de café do dia, ligou a TV da cozinha. Canal pago. Ficou paralisada. Por um instante seu cérebro travou diante das imagens do acidente com o Airbus da TAM na noite anterior. Coração na garganta ela procurou se acalmar. Era naquele vôo que ele viria. Respirou fundo. Viria. De repente a lembrança da tarde anterior, a mensagem dele ao celular avisando que não viria, clareou como um raio em sua mente.

Vestiu o hobby e vôou escadaria abaixo rumo ao estacionamento. Precisava ver o telefone. Ali algumas ligações não atendidas e três mensagens. A última delas dizia: “Amor. Agora tô com medo de voar. Volto de carro, chego amanhã. Me liga!”. Larissa segurou as lágrimas. Um encontro adiado havia salvado a vida dele. E com certeza, muito da alegria da vida dela.


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Autoria
Roberta Tum
Ficha técnica
Crônica de um fragmento dos dias difíceis vividos em São Paulo neste fim de julho
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Sérgio Franck
 

Roerta, é real ou ficção?

Mexe com a gente tudo relacionado àquela catástrofe.
Vou ficar mais atento aos ses textos e, não é média, não. Dá pra aprender com eles.

Um abraço.

Sérgio Franck · Belo Horizonte, MG 31/7/2007 16:07
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Noelio Mello
 

Roberta, seu texto é maravilhoso. Mesmo que seja ficção, é envolvente e de um suspense apaixonamte. Uma só observação. Se esse belo texto fosse meu colocaria os gostos de Larissa no presente. Exemplo:" Sashimi. Ela adora". Apenas um detalhe, querida amiga Roberta.Parabéns.
Abraços
Noélio Mello

Noelio Mello · Belém, PA 31/7/2007 16:48
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Benny Franklin
 

Difícil é saber se é ficção ou realidade.
Na dúvida, bombas aos outros... Rs.
Perfeito.
Bjs. Benny.

Benny Franklin · Belém, PA 31/7/2007 19:40
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Priscila Silva
 

Ave Maria...ficção ou realidade não importa, como sempre, você se destaca!

Mais uma vez me comovo com essa tragédia,
Priscila.

Priscila Silva · Cabo Frio, RJ 1/8/2007 07:20
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Roberta Tum
 

Sérgio, obrigada! É ficção, mas a mania de jornalista me faz colecionar detalhes, lugares, tudo.
Noélio, justa correção. Acatada! Bjo
Benny querido, valeu! Brigadão!
Priscila, querida...sua opinião sempre acrescenta! Um bjo!

Roberta Tum · Palmas, TO 1/8/2007 13:49
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Andre Pessego
 

Roberta, não duvido de que alguns casos assim tenha acontecido, tenho um amigo que mora nas imediações. Trabalhou, num hospital, estafante, chegou em casa 16, foi direto. duas horas damanha levantou tomou banho e veio saber no outro dias pelas 9 horas. um abraço andre,

Andre Pessego · São Paulo, SP 2/8/2007 20:04
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Spírito Santo
 

Cravou dez, Roberta. Certeira.

Abs,

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 3/8/2007 12:14
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Priscila Silva
 

voltei pra votar,

Bjão!

Priscila.

Priscila Silva · Cabo Frio, RJ 3/8/2007 16:10
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Sérgio Franck
 

Voltei e votei com muito gosto, Roberta.

Um abraço

Sérgio Franck · Belo Horizonte, MG 3/8/2007 18:46
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Leandróide
 

Olá Roberta. Ultimamente ando meio longe do overmundo, mas muito legal o teu texto, quando cheguei pra votar já estava merecidamente publicado. Parabéns!
Abr.,
Leandroide.

Leandróide · Florianópolis, SC 3/8/2007 18:55
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