Um gesto inusitado

1
Letícia L. Möller · Porto Alegre, RS
26/1/2008 · 58 · 4
 

São muitas as pessoas, àquela hora, na farmácia. Algumas circulam espiando os produtos, outras esperam atendimento no balcão. O volume de gente aumenta, o ritmo do atendimento é lento. Cresce a impaciência. Todos têm tanto a fazer, cada minuto é precioso. E a pessoa ao lado de repente transforma-se em potencial inimigo – causa de infinitos contratempos jornada afora.

Apóio-me numa perna, troco para a outra, e assim vou. O olhar cansado, suspiro. Eis que um homem, na faixa dos sessenta anos e cuja presença eu não havia notado, estende o braço em minha direção, alcançando-me um papelzinho. Nada diz. Pego o papel desconfiada, pensando “o que este homem está querendo me vender?”. Vejo que ele estende a mesma tira de papel dobrada a algumas outras pessoas. Desdobro a minha já certa do que vou encontrar – um pedido de ajuda, um grito de socorro – e discretamente corro os olhos sobre as linhas.

Não. Não há ali alguma referência a uma condição difícil, ao dinheiro talvez muito necessitado. Há apenas uma mensagem singela, que fala de alegria, de otimismo, de amor ao próximo. Um convite simples a perceber as belezas da vida. Uma cutucada em nossa face defensiva e fechada.

Levanto os olhos ao homem. Ele retribui meu olhar e sorri com o canto dos lábios. Digo baixinho “obrigada”. E algo se transforma: ao meu redor, dentro de mim. Como mágica.

Gesto inusitado.

Não era época de festas, quando o espírito natalino contagia a todos e amor e solidariedade viram palavras de ordem. Era um dia qualquer, de um qualquer mês.

Ah, o poder de um bilhete e um sorriso! E o quanto podem ensinar...

compartilhe



informações

Autoria
Letícia Möller
Ficha técnica
Crônica
Downloads
334 downloads

comentários feed

+ comentar
Saramar
 

Andamos tão mal acostumados pelo mau, que um gesto qualquer de compartilhamento nos deixa meio atônitos. E, de repente, é novamente natal e todo o amor se derrama de dentro da gente, essa sensação boa de que somos bons e os outros também.
É muito bonita essa mensagem do seu conto. Aliás, é belíssima.
Obrigada.

beijos

Saramar · Goiânia, GO 25/1/2008 01:07
sua opinião: subir
Branca Pires
 

Olá senhorita!
Bela crônica, belo retorno!
De fato, estamos tão acostumados a banalizar pequenos gestos.
Certos de que são apenas mais um de tantas coisas que abominamos, desprezamos ou fugimos.
E de repente, somos surpreendidos por um sorriso, uma palavra ou apenas um pequeno escrito...
Muito legal o seu toque!
Abração

Branca Pires · Aracaju, SE 27/1/2008 07:52
sua opinião: subir
Cintia Thome
 

Leticia

Quntas vezes precisamos destes encontros
Bárbaro
bj voto

Cintia Thome · São Paulo, SP 27/1/2008 13:04
sua opinião: subir
Letícia L. Möller
 

Queridíssimas Saramar, Branca e Cintia,

muito obrigada pela leitura espontânea, tão valiosa para mim, e pelos comentários sensíveis de vocês. É uma grande satisfação poder contar com isso.

(retorno devagar... sem pressionar-me, com uma participação mais leve, mais ocasional)

Um grande beijo,
Letícia.

Letícia L. Möller · Porto Alegre, RS 27/1/2008 18:51
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

baixar
doc, 25 Kb

veja também

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados