A vida acontece fora da cabeça da gente, e não dentro dela. Marta Flash acordou com esta idéia martelando. Esse, para seu gosto, e às vezes desgosto, era seu nome de batismo.
Não, não era travesti, cansou de responder, nas salas de bate-bapo quando caçava corações solitários como o dela.
Vinha pensando, desejando, querendo e planejando mudar de vida há alguns meses. Seu terapeuta, Nilton, com aquele ar de superioridade freudiana tinha dito: você tem que passar do pensamento à ação.
Bom, isso ela sabia. O tal do como é que andava difícil. Era dublê de muitas coisas. Trabalhava muito, e duro, mas não tinha conseguido terminar a faculdade. Queria ser arquiteta, tinha tentado. Passou no vestibular, fez matrícula, mas não conseguiu seguir adiante. O emprego no escritório de arquitetura, mais os bicos que fazia não lhe davam o suficiente para viver como queria.
E o pior de tudo, tinha sido aqueles dois anos de aventura no Pará.
Tinha ido no embalo de um cara que conhecera no aeroporto, contando vantagem. Ela ouvia a conversa de longe. Estava em Brasília se preparando para voltar à São Paulo. Ele, alheio ao mundo que o rodeava, conversava contando sua vida no contrabando de pedras preciosas. E caprichava nos detalhes de como a vida era arriscada e perigosa ali. Dava muito dinheiro, mas corria-se o risco de morrer por pouco, no meio de uma operação. Ou, quem sabe, ser preso pelos federais embarcando uma pastinha de couro preto cheia de pedras.
Geraldo,era o falso nome dele. De tanto ouvir se empolgou, e esperou que ele fosse ao balcão pedir um café para se encostar. Vôo atrasado, com previsão para cinco horas depois, era o mote perfeito para uma abordagem “diferente”. Marta Flash tinha se dado bem. Do ar inocente, à proposta indecente foi um pulo. E de lá partiram para duas horas da mais intensa intimidade, para voltar mais tarde, a tempo do vôo. Emails e telefones trocados resultaram no resumo da ópera: ela, por dois anos, deixou o emprego de vendedora para fazer rota com ele do Pará à Sampa vendendo as pedras encantadas. Ganhou uma boa grana. Mas quem vive perigosamente, aprende a gostar da riqueza, e raramente segura algum.
Anos depois, fim do romance, e polícia em cima, Geraldo resolveu dar um tempo de tudo. Inclusive de Marta. Assim, lá estava ela, tentando viver honestamente. Pena que quase sempre isso significava pobremente. Agora, matrícula trancada na faculdade, empreguinho meia boca garantindo mal o aluguel, e o básico, estava próxima da agonia. Queria mudar de vida. Mas como?
Nenhuma das opções antigas animava a moça. Foi aí, naquela quarta-feira quase à beira da depressão, que decidiu ir ao cinema.
Entrou numa sessão da tarde, filme nacional em cartaz.
A única coisa que queria era se distrair, arejar a cabeça. Na terceira fileira, não havia ninguém. Sentou-se com uma caixa de bombons de cereja, e uma coca zero. O ar condicionado, gelado, lhe fazia bem às idéias. Meia hora depois percebeu um movimento e um corre-corre. Vultos subindo em direção à entrada. Correria. Um homem atrás dela levantou-se agitado. Reuniu as sacolas no escuro e saiu. Ela tentou enxergar eu rosto. Não houve tempo. Logo adiante, foi interceptado. Ouviram-se disparos. O agressor reuniu as sacolas e saiu. Em meio à agitação, as luzes se acenderam.
Ao olhar para trás Marta percebeu uma pequena bolsa de couro que ficara na cadeira do estranho. Instintivamente, pegou o pacote, e colocou na imensa bolsa que carregava. De lá, pelo outro lado, deu a volta até o banheiro. A confusão estava armada, e as pessoas deixavam a sala de exibição o mais rápido que conseguiam. No meio do tumulto, e mais esperta que a segurança, ela saiu.
Só teve coragem de abrir a bolsa depois que desceu do metrô...
Uau....
Gostei demais. Do ritmo, do conteúdo e dese final, enfim, feliz.
beijos
P.S. Permita-me sugerir que mude o "haviam" por "havia".
Oi Saramar, grata pela sugestão. Vou abrir o arquivo e mudar!
Bjs
Bom, gostei. O conto remete, simbólicamente - até pela incógnita que permanece no final - à idéia de que vivemos numa condição de impossibilidade de conduzirmos nossa vida de forma autônoma, pela nossa própria iniciativa, e as mudanças só podem acontecer por obra do acaso, da contingência.
Um abraço.
Levi disse bem, as contingencias da vida. Adorei Marta Flash...
Votado.
Alguém viu um saquinho de couro, por ai?
Ahahaha!!!!!
Maravilhoso, Roberta Tum!
A vida tem dessas coisas...
Roberta, Querida
Texto com sua marca registrada.
Gostei muito.
Beijos
Noélio
Roberta,
MUITO bom!!!
e depois de Salvador, por onde andará Martha Flash?! Aju City, investir em imóveis?!! Para Maceió, criar gado e plantar cana?!!! Para Brasília, legislar com fios???!!!!
Roberta, espero que nos apresente novos escritos sobre a Martha Flash! e outros...
GRANDE abraço!!!
A.
Levi, vou procurar um exemplo de quem conseguiu vencer sem revezes da sorte. Realmente é meio desanimador pensar que só as contigências mudam a vida da gente.
Apesar que continuo acreditando que cada caminho que a gente escolhe de manhã, define o resto do dia.
Obrigado!
Cintia, agradecida pelo seu olhar simpático à estória da Flash!
Rangel, HAHAHA, vamos combinar assim: quem achar a bolsa de couro primeiro,liga pro outro. Assim a gente toma o mesmo helicóptero para qualquer lugar legal! Bjim
Noélio, bom saber que já tenho uma marca aos seus observadores olhos. Bj
André, torço para que ela aplique bem este dinheiro viu? rs.... boas sugestões as suas. Vou escrever outro capítulo. Abraço!
Marta, Marta...este destino seria sorte ou azar? Não importa, se apareceu naquele momento que seja ao menos bem investido! rsrs
Parabéns Beta, medalha de ouro (sempre) pra vc!
beijooo
Roberta:
Acho que o teu conto reflete uma realidade, infelizmente, a realidade da maioria, pelo menos. E o primeiro passo para mudarmos a realidade é nos conscientizarmos dela. A conscientização é uma das funções da Literatura, e o teu conto cumpre esse papel, na minha opinião.
Um abraço.
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