Um minuto, cinquenta horas

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Letícia Barroso · Campos dos Goytacazes, RJ
17/4/2015 · 1 · 0
 

O cinza que encobria o céu me dizia que não seria um dia fácil. Era o meu último em Melbourne, capital de Victoria, na Austrália. Após passar quatro dias na cidade, já tinha conhecido boa parte da capital cultural e também selva de pedra da terra de OZ, mas ainda faltava um ponto turístico que não poderia deixar de tirar pelo menos uma foto.

Disseram-me que era longe a “praia das casinhas”, como os brasileiros nomearam Brighton Beach, que é cenário de cartões postais ao redor do país por ser abrigo da Hockingstuart, as casinhas de madeira à beira mar, mas levei apenas trinta minutos para chegar lá. Trinta minutos que pareceram uma eternidade. Passei da estação que deveria ter descido e acabei parando bem longe do ponto turístico. Carregando uma pequena mala de rodinhas que parecia conter 20 quilos a mais, caminhei cerca de também trinta minutos. Não sabia o que era pior, o dia nublado, arrastar uma mala pela areia ou não noção nenhuma de onde estava e de onde pararia.

Com muito custo, encontrei, usei a mala como tripé para conseguir fotos melhores. Estava começando a me familiarizar com o ambiente e até a achar interessante o que via. Pessoas passeavam com seus cachorros à beira-mar em plena segunda de manhã, com sorrisos nos rostos, parecendo admirar tudo o que estava ao redor, o que é um tanto quanto curioso já que provavelmente a paisagem faz parte da rotina de cada um deles.

Percebi que nunca mais teria a oportunidade de ir naquela praia outra vez. A Austrália é longe, é cara e meu tempo aqui está chegando ao fim. Resolvi então curtir o momento. Fotografei o máximo que pude, observei as pessoas, e pensei o quão bom seria se eu tivesse uma praia por perto, tranquila, para sentir a calmaria que o som do oceano traz. Fiquei com inveja daquelas pessoas, pareciam muito mais serenas do que a maioria de nós em uma segunda de manhã.

Minha calmaria durou bons minutos, enquanto me divertia fotografando e acarinhando os cachorros que vinham me cumprimentar. Estava chegando a uma das últimas casinhas, e tentava achar o melhor ângulo para enquadrar o meu rosto e a bandeira australiana que preenchia a porta.

Reparei um homem aparentando uns trinta e poucos anos me observando. Ele ria com um sorriso meio desajeitado e sem um dos dentes. Ignorei. Continuei a fotografar, o cara, não satisfeito, então, se aproximou e me perguntou se eu queria ajuda. Agradeci e disse que estava bem. Ele insistiu. Continuei a falar que preferia tirar minhas próprias fotos. Fiquei irritada, todos meus conceitos feministas passaram à mente. Voltei ao que estava fazendo, e tentei recuperar a paz que senti anteriormente. Consegui. Consegui também o ângulo perfeito. Dei zoom. Atrás do meu rosto havia outro rosto, aliás, outro corpo inteiro. Olhei para trás o homem ainda ria. Senti meu rosto arder. Respirei fundo. Sorri de volta. Xinguei algumas vezes em português e o fiz imaginar que estaria satisfeita com a situação. Eu ri. Ele não era capaz de entender uma sílaba do que eu dizia. Pensei: “pobre homem”.

Fingi deletar da memória o que aconteceu. Estava disposta a relaxar. Respirei fundo e vi que os ventos estavam ao meu favor. Olhei para o lado e uma família se aproximava. Também eram turistas, eram duas meninas que pareciam gêmeas de uns três anos de idade, com seus pais. Os adultos queriam registrar o momento, as crianças, curtir o momento. Preocupavam-se mais com tentativas de correr na areia e parar para olhar o mar, que nem é tão bonito assim. Começou a chover. As crianças estavam ali, procurando conchas, e assim como eu, não se preocupavam com as gotas que caíam.

Sobre a obra

Esse texto refere-se aos altos e baixos que foi minha viagem a Melbourne.

Os cinco dias que passei la foram recheados de bons e estranhos momentos. Porem, um em particular me chamou a atencao. E foi esse que tentei narrar no texto.

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Leticia Barroso
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Leticia Barroso
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