Através do vidro da janela, ela observa o mundo lá fora.
Tudo tão pequeno.
Tudo tão distante.
Que mais a separa do mundo?
O vidro da janela?
Ou os nove andares até o solo?
"O mundo lá fora não vale a pena", conclui.
"Tão feio, tão frio, tão insensível".
Nesse instante, ela aperta os olhos como se a memória
trouxesse algo indesejável,
proibido.
Umas ruguinhas aparecem ao redor dos olhos e eles ficam sombrios,
enigmáticos.
Ela já foi jovem,
já foi bela.
E como sonhou.
A vida inteira sonhou.
Sonhou tanto e tanto como se nunca bastasse tão somente sonhar.
No seu sonho, o "seu" mundo.
No "seu" mundo, ela foi tudo quanto quis,
foi atriz venerada,
adorada.
Foi recebida com honras por reis e rainhas.
Conheceu o mundo inteiro.
Vivia em salões de festas.
Viveu grandes amores.
Criou-se e recriou-se ao arbítrio de seus devaneios.
Sonhou tanto e tanto que perdeu-se nos sonhos,
no seu mundo de faz de contas.
Dia e noite.
Noites e dias.
E, enquanto sonhava, o tempo passou.
O tempo ainda teima em passar,
enquanto ela olha pela janela.
"Que mundo feio lá fora", torna a pensar.
"E que tolice precipitar-se pela janela", resmunga ainda compungida pela notícia que acabara de ouvir na TV, seu único canal de contato com o mundo real.
“Desvario uma atriz pular do sétimo andar”, imaginou uma atriz como ela, reverenciada,
adorada.
"O mundo lá fora não vale a pena".
Então ela abre a janela.
Deixa o frescor da noite entrar.
"Mas quem precisa desse mundo?"
De súbito, o semblante se transforma, as ruguinhas ao redor dos olhos desaparecem e os olhos brilham.
A sala transfigura-se em um enorme salão de festas e uma música conhecida começa a ser tocada.
Ela ainda é jovem e bela.
“O meu mundo não me faz mal”.
Enigmaticamente, ela sorri, convencida de que dançará até a última música.
Em pouco tempo, ela materializa-se em um espectro irrefletido que rodopia pelos salões da sua própria imaginação.
By Marlene Bastos
Tu és capaz de sonhar, sem fazer dos sonhos teus senhores?
Sonhar. Sonhar é preciso. Uma Vida sem sonhos é insossa e sem sentido. Sonhar mas sobretudo transformar estes sonhos em algo de concreto e substancial.
Excelente postado amiga!
Saúde e Paz. jbconrado
É vero, é vero Ayruman!
É preciso correr atrás dos sonhos
e importante não se perder por causa deles (ou dentro deles!).
Bjokas!
Hmmm não sei.. Acho que estamos dentro de um sonho (que ao mesmo tempo : pesadelo : rs) colcetivo onde todos combinaram ou "viver" no salão de festas da imaginação ou espalhar a friesa dos sentimentos no sopé do muro-montanha-edifíco.. O vice-versa tb vale.. (kkk)
Nostalgia pura rs... Me lembrei de algumas cenas do filme Amores Brutos.. Vc já assistiu?
Ah, o humor negro e surreal do Alejandro González Iñarritu???? Não assisti,rsrsrs, já li a sinopse várias vezes, mas nunca o selecionei. Acabo sempre escolhendo outro mais água-com-açúcar...
Mas concordo que é recorrente, evoca a surrealidade do Amores Brutos, mesmo sem a intenção!
Thanks to comment!
bjokas
Viver... a que será que se destina ?
Não vale dizer : CAJUÍNA !
A vida tem mais do que sete andares !
não se segue suicidas !
Um beijo !
Sonhar é preciso, mas tem gente que encontra no sonho um refugio para a realidade não desejada. No entanto ela existe, e eu acho que o sonho nunca deve ser maior do que a realidade, porque é tênue a linha que separa os dois.
Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 1/4/2011 20:09
Os sonhos não morrem nunca, é como a esperança que é a última que morre, tudo isso nos impulsiona para frente, o medo nos encoraja, a maturidade deixa raízes, a vida tem suas fases, o ser humano seu livre arbítrio, o olhar para trás permitiu o equilíbrio. Parabéns belo texto, experiências repassadas a frente. Muito lindo.
MartaLucena · Natal, RN 4/4/2011 11:41
M.Leite!
Quiçá tivessem auto-estima positiva as atrizes que se jogaram pela janela, movidas pela depressão, dependÊncia da fama, a exemplo da Cibele Dorsa, Leila Lopes e outras tantas...
Alcanu!
A vida tem muitos mais degraus, né?
Falou e disse,rsrs
Doroni!
Como disse o poeta, de sonhar ninguém se cansa...
Mas até com os sonhos precisamos de equilíbrio!!
Marta!
Lindas palavras! Thanks!
Bjokas a todos!
Uma vez o Kandinsky respondeu às críticas ao abstracionismo:"Quem abstrai são vocês (os figurativos), de real só existem as formas, as cores e as linhas". Pois é, o resto - a identidade das coisas , as figuras - é invenção do homem , é sonho. É só o que existe. (Diferente de delírio, né?)
parabéns querida poetisa, abraço no seu coração.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 30/4/2011 12:09
Engraçado... Sei lá por quê, esse poema me fez vir à mente a música do Oswaldo Montenegro (que não ouço há tempos) Bandolins: "Ela teimou e enfrentou o mundo se rodopiando ao som dos bandolins..."
Belo poema, menina!!!
'dorei!
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