O samovar aquecia. O chá destilava um cheiro agradável. Sentados ao redor de uma mesa conversavam Alexandre Saldanha Ribeiro e o velho Dimitri. A proximidade dos dois homens conferia à sala uma estranha atmosfera, falavam à meia voz, como um casal de namorados.
A mão de Alexandre caiu subitamente sobre a de Dimitri, os olhos franziam como que alucinados por uma estranha excitação, vez ou outra soltavam risinhos, que gradativamente iam evoluindo até o status das guturais gargalhadas. O chá ficou pronto. Dimitri serviu as duas xícaras.
Na igreja antiga os sinos denunciavam o anoitecer. Os repiques vinham em notas suaves bão... bão... bão..., parando e recomeçando – até recolherem-se à total mudez.
“Minha filha, Ema, virá passar uns dias comigo”, falou Dimitri com a voz embargada.
Alexandre enrubesceu. Sorveu um pouco do chá. Depois recolocou a xícara sobre a mesa. Observou por longo tempo os bordados da toalha, o rosto reclinado, absorto.
“O que ela sabe sobre nós dois?”, disse finalmente, ainda com os olhos fixos na toalha.
“Nada, absolutamente, nada! Ela supõe que eu ainda seja o mesmo. E, em certo sentido, é bom que as coisas fiquem assim...”
“Assim..., como?!”, interrompeu Alexandre.
“Assim como está. Eu sou o mesmo de sempre, ela não precisa saber de nada”, finalizou Dimitri, beijando levemente os lábios de Alexandre.
Duas semanas depois chegava Ema. Seu cabelo em retrós, o semblante pálido, os gestos comedidos.
O toc-toc-toc de seus sapatos sobre o assoalho era a única coisa que denunciava a sua presença. Dimitri foi pegá-la no aeroporto.
“Oi, papai!”, gritou Ema, correndo em sua direção.
“Oi, querida!”, retrucou o Velho.
“Como você está linda!”, exclamou Dimitri em gesto tão efusivo que algumas pessoas voltaram o olhar para ele.
“Vamos, vamos meu anjo. Pegue suas malas. A essa hora o trânsito é terrível”, asseverou Dimitri.
Ema pegou uma das malas. Dimitri pegou a outra. E saíram do saguão do aeroporto.
Naquela noite Alexandre não apareceu. Ema contava mil acontecimentos, a que Dimitri só respondia por monossílabos.
“O quê que há papai?!”, indagou Ema.
“Estou pensando em alguém”, respondeu o Velho despretensiosamente.
“Uma mulher?!”, exclamou Ema dando risinhos.
“Sim, sim uma M-U-L-H-E-R!”, respondeu pausadamente.
Depois do jantar o Velho hauriu um gole de seu vinho predileto e foi dormir entre os cobertores impregnados do perfume de Alexandre.
Tidom... tidom... tidom...
A campanha soou. Ema foi atender a porta. Seus longos cabelos loiros não estavam mais presos. Vestia uma blusa transparente, deixando à mostra os bicos vermelhos de seus pequenos seios.
“Oi?”, disse, segurando com a mão esquerda a porta.
“Ô-ô-ô-ô-láááá...!”, respondeu Alexandre, totalmente mortificado com a tepidez dos olhos de Ema. E ficou longo tempo parado no limiar da porta – às vezes um pequeno evento carrega em si os resmungos da morte.
Vc. tem estilo meu caro Aquinei! Já escreveste um romance? Se sim, me informe o nome da obra! Parabéns pelo texto. Abraços.
raphaelreys · Montes Claros, MG 7/2/2008 14:18
Obrigado Raphael e Vanessa pelos comentários. Abraços!!!!
Voltei para carimbar meu caro Aquinei do Rio Branco! Deve ser uma belezura o Acre. Caminhar entre núvens de borboletas pelas matas e morrer de medo de gafanhotos gigantes!
raphaelreys · Montes Claros, MG 10/2/2008 11:20Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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