UM SINAL DO ALÉM
No inÃcio dos anos 70 a Era de Aquárius estava no augo, com os Estados Unidos da América exportando para o mundo a moda dos hippies e seu lema de paz e amor, enquanto torravam infantes e anciãos com napalm no Vietnam.
A "mÃdia" nacional abraçava com sofreguidão a mensagem do "flower power" yankee, do importado jargão "faça amor, não faça guerra" e explorava à exaustão os simbolos, as caras e os temas que os representavam lá fora.
Até nas TVs tupiniquins a febre de espiritualidade "fashion" que avassalava as mentes & corações da época tinha espaço especial, com a apresentação carnavalizante de médiuns de todo tipo, parapsicólogos, espÃritas, videntes e macumbeiros assumidos, astrólogos e perceptivos variados entortando garfos e colheres ao vivo e (dizem) via "telinha" preto-e-branco, pois o monstrengo do tamanho de uma cômoda e com desbotadas cores que a substituiria era privilégio de uns poucos milionários.
Na então denominada "Vênus Platinada" pela imprensa, hoje teleemissora do "plim-plim", a "Discoteca do Chacrinha" era unanimidade em todo o paÃs, destacando através das enormes câmeras as primeiras bundas que o Brasil admirou -- entre protestos veementes de mães ciosas, de ciumentas esposas e namoradas ofendidas -- para deleite do sexo oposto de qualquer idade.
Abelardo "Chacrinha" Barbosa, com uma visão muito _a frente de seu tempo, fazia de seu programa uma salada mista onde tudo era possÃvel... principalmente as coisas consideradas impossÃveis. Assim, entre bacalhaus, "bichonas" do high society local, calouros horrÃveis ou maravilhosos, abacaxis, trapezistas, mágicos, artistas da música e do teatro, bananas, malucos e doidas de toda espécie, o "Fio Maravilha", as primeiras "sapatonas" assumidas, entre bundas, coxas e "vergonhas" quase à mostra sob as minúsculas microssaias das fornidas "chacrettes" pontificava o macunaÃmico e impressionante "Seu Sete da Lira".
Inquestionável precursor do "kitsch" "Zé do Caixão", "seu" Sete não trazia lira ou qualqur outro instrumento musical. Portava, sim, satânico tridente, cartola de mágico de cirquinho mambembe, vistosa capa de seda negra, esvoaçante e aterradora, com forro em carmim e imensa gola. (1)
Velhota portuguesa de bigodinho e tudo, "seu" Sete da Lira causava espanto, fazendo triunfal entrada na "Discoteca" a som de pesada macumba e tendo um séquito de seguidores ensandecidos a acompanhá-la. A baforar enorme charuto, teve espaço cativo no programa por longo tempo e nem o mais criativo dos pastores modernos imaginam o "frisson" que sua presença causava no auditório histérico ou mesmo nos "televizinhos", quase toda a população brasileira daquela época.
O garoto "Didi" morava, ou melhor, escondia-se na favela da Praia do Pinto (onde não havia praia alguma), espécie de cancro social a ofender as vistas e narizes da alta classe média do Leblon, distnto bairro da zona sul.
Entre vielas e becos da estreita favela -- milhares de barracos espremidos no exÃguo espaço de 600 x 900 metros de área hiper-supervalorizada -- "Didi" nasceu e cresceu, sorriu e por vezes chorou... até que providencial incêndio jamais explicado extinguiu lares, sonhos e até algumas vidas e jogou "Didi" e seus amigos pros confins do subúrbio do Rio, Nova Iguaçu ou além.
Enquanto "seu" Sete da Lira enricava, abrindo "terreiros" nos bairros mais chiques, imitadores com ou sem competência inauguravam "casas de luz e fé", "searas de maria e josé" e arapucas semelhantes, algumas misturando asilo e templo num só local e faturando alto com a esperança alheia e a estranha procura por fé em prédios, objetos, eventos ou em seus promotores.
"Didi", agora "Dinho", tivera que abandonar o "bico" de gandula das bolas de tênis dos endinheirados no seleto Clube de Regatas do Flamengo, bem do lado da favela e, adiante, o destino o guindara à posição de "animador" das sessões espÃritas de uma casa de repouso para velhinhos no Grajaú, três vezes por semana, além de esvaziar as "comadres" toda manhã e fazer outros serviços sujos no casarão, em troca de comida, dormida e uns trocados.
O doutor Nicolau, de ar distinto, cabelos grisalhos e gestos nobres, fôra certamente em outra encarnação um falido rei do café mas, na vida atual, era o sisudo condutor das sessões onde filhas e neas dos anciãos internados ali, além de beatas curiosas das redondezas, cumpriam o ritual de falar com (ou tentar ouvir) seus entes falecidos.
Em pouco tempo o esperto "Dinho" aprendeu os ossos do ofÃcio, suportando incômoda posição no poeirento e abafado sótão, enquanto seus ouvidos atentos captavam as nuances da voz do "doutor" lá embaixo, seus pigarros, as breves batidas no copo d'água ou no chão, com o sapato.
O maestro do "metier" espÃrita e seu esplêndido aluno entendiam-se à s mil maravilhas, como por música, com a vetusta eletrola arranhando riscados LPs de Chopin, Listz ou Brahms e, em dia mais solene, um raivoso Wagner.
As correntes de aço dançavam no teto do salão, arrastadas por mão invisÃvel, surrado piano de poucas teclas animava-se por instantes, sinos, gargalhadas, gemidos... havia de tudo para todos os anseios.
O velho "Nico" deliciava-se intimamente com a atuação genial de seu discÃpulo oculto no teto, mas "Dinho" bocejaria de tédio alguns meses depois, por saber de cor e salteado os evangelhos todos, os testamentos novos e antigos, as perorações do Nicolau, seus truques e "deixas" (ai, que sono!) os "in memoriam" e "de profundis", convocações, súplicas, expulsões, etc.
O pior de tudo é que uma das beatas que não largavam o pé do "médium" -- balzaqueanas que o serviam fielmente de dia e das quais (dizem as más lÃnguas) êle se servia à noite -- começou a desconfiar do rapaz.
A "perua" cismou com o moleque de sorriso fácil e ar malandro e insinuou para o mestre que o jovem estava conseguindo roubar dinheiro do cofre das missões, que ficava à entrada do casarão, aos pés da enorme "estáuta" do Preto Velho.
O doutor não via como isso seria possÃvel... a estreita boca não permitia passagem de dedos, de caneta ou instrumentos e o segredo do cofre estava bem guardado no fundo de sua memória. Mas o fato é que "Dinho" melhorava seu mÃsero "salário" mediante expedições noturnas bem sucedidas ao abarrotado cofre. À chinesa, com dois pauzinhos de comer arroz "pesacava" várias notas por vez.
Aperfeiçoou o "trabalho" imantando velha "peixeira" cuja lâmina saÃa da estreita boca do cofre "enfeitada" com moedas de todos os valores, tamanhos e cores. A farra só findou quando a tesoureura-mor decidiu retirar do cofre as doações ao fim de cada sessão espÃrita.
Tal ação coincidiu com o desinteresse de "Dinho" por suas funções "celestiais", cada dia mais desatento com as marcações de Nicolau e sempre mais sonolento. Até que uma tarde, solitário morcego em passeio fora de hora deu um tremendo susto em "Dinho" que, desequilibrado, estatelou-se entre as esquadrias carcomidas que sustentavam o cinquentenário teto.
Tentou em vão segurar-se na viga mas o apavorado mamÃfero voador chocou-se com seu rosto e, com fenomenal berro, "Dinho" aterrisou na imensa mesa de linho branco e castiçais acesos. Um vendaval de poeira e madeirame podre acompanhou-lhe a queda, enquanto as velhotas que não corriam esbaforidas feito baratas tontas achavam-se desmaiadas em ridÃculas posições.
"Dinho" levantou num pulo só e voou porta afora, o pulmão em fogo, rosto e corpo enegrecidos, espécie de saci-pererê batendo os dentes de pavor, com o morcego horrendo a debater-se em todas as direções.
Muitos viram no sucedido um sinal do Além... o menino era um enviado das trevas. Quando as coisas acalmaram, o rapazote foi sumariamente posto na rua da amargura e voltou para a casa da mãe, lá onde o diabo perdeu as botas.
Mas as lições aprendidas com o "artista" Nicolau lhe apontaram novo caminho para a sacrificada e paupérrima existência. Com uma camisa social do sumido pai, folgada demais para êle, mantendo junto ao peito surrada BÃblia da mãe que êle jamais abrira, "Dinho" começou a pregar seu "evangelho" nas lamacentas esquinas de seu bairro, repetindo a "decoreba" que ouvira meses a fio e preenchendo com criatividade as eventuais lacunas.
Com a persistência dos desesperados arrebanhou adeptos, prosperou lentamente no inÃcio, mais tarde o sucesso surgiu como sol de verão e êle saiu finalmente das ruas para uma "boite"... digo, o ex-antro de vÃcios e pecados era agora a casa de Deus (?!), pátio de milagres e de testemunhos, com explosões de fé e, claro, com a imponente presença do cofre das missões.
Passaram-se inúmeros anos e o safenado e decrépito Nicolau, longe das atividades que lhe deram fama, num belo domingo abre o jornal e reconhece "Dinho", bem nutrido e ar feliz, falando à fanática multidão.
Acima da enorme foto, a manchete escandalosa:"PASTOR ALDYR LOTA MARACANÃ COM SEUS FIÉIS" e uma insistente referência a sacos e sacos de dinheiro.
O velho "Nico" tem um "treco", fica completamente transtornado e, ao dar entrada na emergência do pronto-socorro, estã balbuciando sem parar:
-- "Era sinal do Além... era sinal do Além"! Quanto ao pastor Aldyr... esse, vai muito bem, obrigado !
"NATO" AZEVEDO
1) NOTA DO AUTOR: embora o ator e cineasta
José Mojica Marins tivesse seu programa exibido
na TV TUPI entre 1967 e 68, o "pai de santo"
SEU SETE DA LIRA já atendia com sucesso nos
terreiros da zona norte do Rio de Janeiro.
Desde tempos imemoriais a "associação" da fé com um progresso pessoal -- como "prersente de Deus" -- é a base da disseminação de seitas ou mesmo religiões consagradas e conhecidas.
Vai daÃ, nunca se teve tantos pastores e agentes (?!) de expansão das doutrinas e dogmas religiosos como agora... o pivete "Dinho" embarcou nessa canoa e não se deu mal.
Nato!!!
que conto estupendo menino
estou rindo e rindo até não poder...
Olha como este mundo é dos espertos não?
venha ler meu conto
http://www.overmundo.com.br/banco/o-inventário
bjs
voltando
e rindo ainda desse grande sinal
bjs
Parabens......uma narrativa mto bem escrita....
encontrei frases liricas.......humor......consciencia...
putz ! seu talento é extraordinario.
i é isso......quem tem o dom da"profesia" vai lonnnnnge....
pro inferno né ?
bjssssssss;)
MENNIAS... EU VI! A idéia desse conto partiu de duas informações diferentes: 1) uma foto da revista VEJA, de 1995, registrando uma fila de "sacerdotes" evangélicos portando sacos de dinheiro. Infelizmente, não pude postar a foto junto ao conto para não SER PROCESSADO por difamação por um dessese milhares de "anjinhos" que vivem à custa da fé... alheia, o que é pior.
2) meu próprio conhecimento de um ex-amigo capoeirista que jamais eu vira frequentar igreja alguma e, de uma hora para outra, virou pastor (isso em 1990) e hoje é dos mais conceituados (?!) aqui do bairro e pelo vizinho carioca de um amigo paraense e que vivia metido em "trapalhadas" e não passava de um pilantra. Meteu-se dentro da Universal e prosperou magnificamente... suponho que "limpando" diariamente os cestos e cofres da "igreja", é claro!
Agradeço comovido a presença de voces duas e o fato de CONFIRMAREM meu texto... os dois anteriores, que levaram pau, SIMPLESMENTE SUMIRAM. Não sei o que há como esse novo OverM!
Nato de deus, Jesus, Maria e José.
Assacadas as assertivas, assim tão de pronto e humoradas, se gargalha antes de pensar e, se se pensar, ri-se inda mais.
Fé de mais... dá dinheiro m,uito.
Fé de menos, parece, empobrece.
Havia um tempo que não o lia, por desencontros, talvez.
Valeu ter vindo.
Tenha um futuro de luminuras.
Teu presente é já ilustrado, muito bem fornido.
Apreciado, considerado.
HUUUMMM... uma sumidade (!?) como eu vive SUMIDA! Mas, boa parte do texto acima EU VIVI mesmo, aliás quase tudo em meus contos é vivda vivida que fica mais interessante "reinventada".
Quando cheguei ao Rio (em 1967) fiquei escondido por um bom tempo no armário do quarto de empregada, no apartamento onde minha mãe trabalhava. À procura de trabalho acabei "escravo branco" na tal Favela da Praia do Pinto, dormindo em papelão e atendendo o balcão da birosca do português onde me enfiaram, das 6 da manhã até quase 11 da noite, inclusive domingos. Fui sondando noite após noite as "saÃdas" da favela, aos poucos, até saber o caminho certo e fugir, uns 3 meses depois.
Enquanto vivi no apartamento da patroa da mãe, na Urca, a madame "arranjou" um lugar pro meu irmão gêmeo Renato (o AZN) ficar, era um asilo "muito louco" no Grajaú, que tinha sessões "espÃritas" toda quinta-feira, salvo engano. Êle enfeitava as reuniões cuidando de um toca-discos velho e providenciando "o mise en scene" dos "espÃritos" que povoavam cada sessão. O que não se faz para viver, hein, meu caro?!
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